Do tamanho dos meus sonhos

Qual a medida do sucesso de uma cooperativa? Receita, quantidade de cooperados, impacto social? Exemplos de cooperativas bem sucedidas mostram que, independente de números, o que vale é promover transformação

Farol Conteúdo
13/08/2020

Todos os dias, uma rede de mais de cinco mil médicos cuida das vidas de milhares de pacientes, em todas as especialidades de saúde, na cidade de Belo Horizonte. Diariamente, também, 180 famílias de pequenos produtores rurais estão na lida do campo, desde o raiar do sol, cuidando de plantações de laranja, no interior do estado de São Paulo. Duas realidades distintas, viabilizadas por um mesmo tipo de empreendimento: a cooperativa. 

Ainda que, quando se fale em cooperativismo, muita gente imagine uma associação de trabalhadores rurais ou um banco de crédito, a verdade é que há cooperativas de todos os tipos de negócios e tamanhos. Geridas com rigor e planejamento, elas solucionam problemas, realizam sonhos, transformam vidas e, naturalmente, crescem; um crescimento que depende, fundamentalmente, do tamanho do sonho de seus cooperados. 

A Copersucar — líder brasileira na exportação de açúcar e etanol — nasceu a partir de uma problemática comum no meio cooperativo: o poder de negociacão. Era o ano de 1959 e usineiros de vários estados brasileiros tinham dificuldade de escoar sua produção para fora do país por terem baixo poder de barganha com os poucos compradores globais de cana-de-açúcar. Além disso, a logística de exportação era muito complicada para cada um deles,  individualmente. 

“Uma usina sozinha não tem tamanho suficiente para ter representação logística”,  explica o presidente do Conselho de Administração da Copersucar, Luís Roberto Pogetti. “Por maior que seja, ela não consegue preencher carga de navio de açúcar. Mas através da união ela consegue escala suficiente para preencher vários. Além disso, o setor tem uma demanda concentrada e pode tornar-se uma negociação desigual de muitos com poucos”. 

Ao se organizarem em uma cooperativa, os usineiros ganharam poder de negociação com os clientes e, consequentemente, melhores preços. 

Nosso objetivo social foi, e continua sendo, vender melhor, de forma mais eficiente, e agregar à logística do associado”, diz Pogetti.

Passados 61 anos, seus 34 cooperados migraram de um grupo com dificuldades para exportar à maior comercializadora global de açúcar e etanol integrada à produção do Brasil.

 

QUAL A MEDIDA DO SUCESSO?

O caso da Coopersucar impressiona, mas é sempre importante lembrar: nem toda cooperativa tem como prioridade a exportação de produtos em escala global.  O alcance de metas, a realização de sonhos -— e não apenas a receita ou número de sócios — são a verdadeira régua do sucesso cooperativo, segundo o presidente do Sistema OCB, Márcio Lopes de Freitas. 

“Uma cooperativa se mede pelo desempenho, pela capacidade de gerar resultados para o cooperado, de gerar felicidade, qualidade de vida, bem- estar. É uma sociedade de gente, não apenas de dinheiro”, diz Lopes de Freitas.

Olhando por esta perspectiva, a jovem Cooperativa de Produtores Rurais de Agricultura Familiar (Coperfam) é certamente um caso de sucesso. Fundada em 2012, essa empresa cooperativa nasceu para salvar a produção de laranja do norte do estado de São Paulo. Os produtores locais vinham de uma série de safras ruins, com preços baixos e produtividade comprometida pela praga greening , que não pode ser eliminada por nenhum defensivo agrícola. O cenário era desanimador e muitos produtores rurais estavam em dificuldades financeiras. Eles começaram a arrendar ou até vender suas terras e sair em busca de emprego nas outras cidades da região. 

 “Essa situação estava tirando o emprego das pessoas e gerando pobreza. Então, tivemos a ideia da cooperativa e juntamos um grupo de pequenos produtores que ainda trabalhavam com laranja para ver como poderíamos nos ajudar”, lembra o diretor administrativo da Coperfam, Celso Marciano da Silva Filho. 

O grupo contou com a ajuda de outra cooperativa local já bem estabelecida, a Coopercitrus, de produtores agrícolas. “No começo, não tínhamos onde nos reunir, não tínhamos nada, e a Coopercitrus cedeu salas de seu escritório onde até hoje estamos instalados”, conta Silva Filho. 

 Anos depois, a Coperfam praticamente quadruplicou o número de associados, passando das 50 famílias iniciais para mais de 180. Muitas foram estimuladas a retomar a produção de laranja ao verem o sucesso alcançado por aqueles que aderiram primeiro à cooperativa. 

“Muitos produtores de laranja estavam indo para a cidade, mas a gente vem conseguindo segurar famílias no campo, cuidando da vegetação, da água e da propriedade”, diz o diretor. 

 

DESAFIOS DO CRESCIMENTO

O sucesso de uma cooperativa traz, naturalmente, sua expansão. E aí vêm os novos desafios. Profissionalização da gestão, flexibilidade de adaptação e engajamento de cooperados são alguns deles. 

A Copersucar, por exemplo, optou pela profissionalização da gestão em 2009, quando completou 50 anos. A medida visava eficiência e foco, já que os diretores associados tinham que se dividir entre duas tarefas: cuidar das usinas e da cooperativa. Atualmente, toda a diretoria executiva é profissionalizada. O conselho administrativo também é dirigido por um executivo, Luís Roberto Pogetti. Cada usina cooperada tem um assento no conselho administrativo. 

“Hoje vê-se muito uma demanda profissional nas cooperativas. Os associados compõe o conselho de administração, o conselho fiscal, mas a complexidade do dia-a-dia do negócio exige um grau de formação específica. O grande segredo do sucesso é a gestão profissional”, afirma Roberto Kaplan, professor dos MBAs de Marketing e Gestão Comercial da Fundação Getúlio Vargas. 

O ideal, segundo Kaplan, é ter executivos que entendam de administração e também do setor específico em que a cooperativa atua, seja agrícola, crédito, saúde ou qualquer outro. “Não adianta botar alguém totalmente de fora, tem que ser alguém do setor”, pondera. 

O presidente do Sistema OCB concorda. Para ele, é importante que as cooperativas invistam em planejamento econômico-financeiro, rotinas de organização, controle e métodos. “O cooperativismo é um negócio, não uma ação entre amigos”, resume. 

 


Esta matéria foi escrita por Farol Conteúdo Inteligente e foi publicada na edição 23 da revista Saber Cooperar. Confira!