JUNTOS PELO FIM DA POBREZA

ONU e Sistema OCB assinam convênio para ampliar o entendimento das cooperativas sobre a importância do nosso modelo de negócios para o cumprimento da Agenda 2030 — que prevê a erradicação da desigualdade em todas as suas formas e dimensões

Farol Conteúdo
20/05/2020

 

Sustentabilidade é palavra de ordem em todas as cooperativas brasileiras. Por princípio, buscamos crescer de forma sustentável, igualitária e inclusiva, apoiando o desenvolvimento das comunidades nas quais atuamos. Se, há alguns anos, esse conceito era relacionado apenas à área ambiental, hoje ele perpassa todos os ramos da economia. Na verdade, a sustentabilidade deixou de ser um objetivo quase abstrato para se transformar em meta mundial — com prazos e diretrizes definidos pela Organização das Nações Unidas (ONU), desde 2015. São os chamados objetivos de desenvolvimento sustentáveis (ODS), um conjunto de 17 medidas que devem nortear as ações públicas e privadas de todos os países-membros até 2030.

Dispostas a contribuir com o sucesso da Agenda, as cooperativas brasileiras — por meio do Sistema OCB — assumiram o compromisso público de apoiar o cumprimento dos ODS no Brasil. Como estamos fazendo isso? A resposta para essa pergunta você confere nesta entrevista,  que reuniu o assessor sênior do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento no país (PNUD Brasil), Haroldo Machado Filho, e o superintendente do Sistema OCB, Renato Nobile.

 

Como funciona a parceria da ONU com o Sistema OCB?

Haroldo Machado Filho: Nossa parceria teve início em 2018, visando facilitar e fortalecer a colaboração do movimento cooperativista na promoção e no alcance dos ODS no Brasil. Essa parceria evoluiu, em 2019, para um acordo de cooperação técnica com o Serviço Nacional de Aprendizagem para o Cooperativismo (Sescoop), a fim de capacitar as cooperativas brasileiras a aderirem à Agenda 2030e aos ODS. Nosso objetivo é auxiliá-las a implementar projetos de desenvolvimento sustentável e a se posicionarem publicamente como parceiras estratégicas da ONU ao longo do processo de implementação da Agenda no Brasil. Também queremos fortalecer iniciativas globais, nacionais e locais já existentes no cooperativismo e propor inovações que acelerem o impacto positivo que as cooperativas têm no desenvolvimento humano sustentável das comunidades em que atuam.

Renato Nobile: Nós nos aliamos à ONU para conscientizar nossas cooperativas da importância da nossa atuação para o cumprimento da Agenda 2030, da ONU. De norte a sul do Brasil, realizamos centenas de projetos que fomentam a geração de emprego e renda, promovem a redução das desigualdades, estimulam educação de qualidade e promovem a sustentabilidade econômica, social e ambiental do nosso país. Acontece que elas nem sempre percebiam o valor estratégico desses projetos e dessas ações comunitárias. Agora — ao saberem que o cooperativismo é parceiro da ONU em relação aos 17 ODS — elas estão mais atentas ao poder transformador de seus projetos. Além disso, com o Pnud Brasil, estamos capacitando multiplicadores de ODS para que possam orientar nossas cooperativas a alinharem seus projetos socioambientais aos desafios propostos pela ONU.

 

Na sua opinião, os objetivos de desenvolvimento sustentáveis  (ODS) são importantes para o Brasil e para o mundo? Por quê?

HMF: Os ODS propõem uma ação mundial coordenada entre governos, empresas, academia e sociedade civil organizada para erradicar a pobreza e promover uma vida digna para todos, dentro dos limites de recursos do planeta. Eles são importantes porque integram, por completo, todos os elementos do desenvolvimento sustentável, como o crescimento econômico, a inclusão social e a proteção ao meio ambiente. Além disso, buscam engajar todos os países — desenvolvidos ou em desenvolvimento — na construção do futuro melhor para todos. Hoje, a Agenda 2030— que reúne os 17 ODS — já conta com a adesão dos 193 estados-membros da Organização das Nações Unidas, e com uma participação sem precedentes da sociedade civil organizada e outros grupos interessados, como as cooperativas brasileiras.

Os objetivos de desenvolvimento sustentável servem como uma bússola para atuação não só dos governos, mas para toda e qualquer cooperativa, empresa, indústria, ONG ou movimento organizado que esteja atento ao futuro e aos impactos trazidos pelo uso não racional dos recursos naturais do planeta. Eles são importantes não apenas por indicar caminhos para mudar a nossa realidade, mas por nos fazerem refletir sobre as pegadas que temos deixado no planeta. Renato Nóbile

Qual é a importância da participação das cooperativas na Agenda 2030da ONU?

HMF: A participação de todos os setores da sociedade —inclusive das cooperativas —é essencial para o alcance dos ODS até 2030. No Dia Internacional das Cooperativas, em 2015, o então Secretário-Geral da ONU, Ban Ki-Moon, afirmou que as cooperativas têm um “papel inestimável” na implementação dos ODS e reafirmou: o modelo de negócios cooperativo pode ajudar a tornar a visão de um futuro sustentável uma realidade para todos. Essa passagem ratifica a compreensão do valor único que as cooperativas oferecem para promover o desenvolvimento sustentável. A filosofia do cooperativismo — de um modelo de negócios que gere melhores oportunidades para todos —e o alinhamento aos Sete Princípios do Cooperativismo colocam o sistema em uma posição privilegiada e com alto potencial de contribuição para o alcance dos Objetivos.

RN: Cooperar é algo natural para nós, cooperativistas. Tenho convicção de que temos um enorme potencial para colaborar com o cumprimento dos 17 ODS. Isso acontece por dois motivos: primeiramente, porque as metas propostas pela ONU estão completamente alinhadas ao nosso jeito de fazer negócios e aos sete princípios do cooperativismo; outro motivo importante é nossa capilaridade. Hoje, nossas cooperativas estão presentes e atuantes em todo o Brasil, não apenas nos grandes centros urbanos, mas também em municípios pequenos e isolados do país. Em muitos desses municípios, somos a única instituição privada empenhada em levar desenvolvimento àquelas comunidades. Temos, portanto, papel fundamental na inclusão financeira, produtiva e econômica dessas regiões — desafio proposto transversalmente em todos os 17 ODS. Esses diferenciais sustentáveis do nosso modelo de negócios, aliás, precisam ser cada vez mais divulgados à sociedade e aos nossos cooperados, clientes e colaboradores.

 

O que foi construído, até agora, nessa parceria entre a ONU e o Sistema OCB?

HMF: Nosso convênio prevê o desenvolvimento de quatro produtos principais: 1) a elaboração de um mapeamento e diagnóstico da contribuição do Sistema OCB para o alcance dos ODS e um Plano de Ação com recomendações e atividades a serem realizadas para a integração dos ODS aos objetivos estratégicos da Casa do Cooperativismo; 2)  a capacitação de multiplicadores no tema dos ODS e da Agenda 2030em todas as unidades do Sistema OCB; 3) a produção de um curso virtual sobre a integração dos ODS nas atividades das cooperativas do Sistema OCB; 4) a elaboração de estratégia de comunicação interna e externa, de modo a sensibilizar cooperados, colaboradores e parceiros sobre os ODS e informar sobre as soluções criadas pelo projeto.

RN: Neste momento da execução do projeto, todos os quatro produtos citados pelo Haroldo já estão em fase de implementação. O relatório, com o mapeamento e o diagnóstico, já foi elaborado; o curso virtual Introdução aos ODSestá em fase de finalização e será lançado em breve, e as oficinas de capacitação presencial para os colaboradores selecionados das unidades estaduais já têm data marcada.

Como as cooperativas podem se engajar ainda mais na Agenda 2030?

HMF: Apesar do alinhamento dos Princípios Cooperativistas com a sustentabilidade, o conceito adotado pelo sistema cooperativista ainda prioriza o aspecto social. A expansão da ideia de sustentabilidade, de modo que abarque os componentes econômico, social e ambiental, é uma excelente oportunidade para aprofundar a atuação das cooperativas.

Os ODS são uma poderosa ferramenta de planejamento, que podem e devem ser utilizados pelas cooperativas em seus projetos, ajudando-as a se reposicionarem como instituições pioneiras do desenvolvimento sustentável. Para que as cooperativas possam se engajar mais, é preciso que os cooperados e colaboradores do Sistema OCB sejam informados e capacitados acerca do tema.Nesse sentido, o Projeto que o PNUD está realizando com o Sistema OCB deve suprir a lacuna do conhecimento e disponibilizar ferramentas para que as cooperativas possam introduzir os ODS no seu planejamento e, assim, desenvolver seu máximo potencial de atuação, Haroldo Machado Filho.

RN: Uma boa maneira de participar mais ativamente da Agenda 2030é cadastrando seus projetos de responsabilidade socioambiental na plataforma Coops for 2030(Coops para 2030), criada pela Aliança Cooperativa Internacional (ACI) com o objetivo estratégico de divulgar o que as cooperativas de todo o mundo estão fazendo para colaborar com o cumprimento dos objetivos de desenvolvimento sustentáveis propostos pela ONU. Essa plataforma quer ser uma vitrine de boas práticas cooperativistas, inspirando ouras cooperativas a também investirem em projetos semelhantes nas suas comunidades.

 

Qual é o impacto do programa Dia C para o cumprimento dos 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da ONU?

HMF: O alinhamento dos projetos do Dia C com os ODS tem sido fundamental para iniciar uma discussão sobre a Agenda 2030 dentro das cooperativas e para sua disseminação entre os cooperados. Hoje,  percebo que as ações comunitárias das cooperativas apresentadas no Dia C ainda priorizam o cunho social da sustentabilidade. Consequentemente,os instrumentos de acompanhamento dos resultados alcançados não conseguem medir adequadamente todos os aspectos relacionados à contribuição das cooperativas ao desenvolvimento sustentável local e nacional. É importante, portanto, trazer todos os eixos do desenvolvimento sustentável —– social, econômico e ambiental — para a realização das atividades do Dia C, além de pensar em mecanismos de mensuração capazes de verificar mais precisamente o impacto dessas ações no alcance dos ODS.

RN: O Dia de Cooperar impacta, em apenas um dia, até dois milhões de pessoas no Brasil. Na data que escolhemos para celebrar os resultados positivos que o programa proporciona, diversos serviços são oferecidos para a população. Mas, vale destacar: a maior parte das cooperativas oferece esse trabalho de forma sistemática e contínua em suas comunidades. Nosso trabalho, dentro da parceria com a ONU, é associar tudo que já vem sendo feito por nossa base quanto às metas das ODS.

Na minha avaliação, o Dia C é uma grande oportunidade de dar visibilidade — nacional e internacionalmente — às ações socioambientais realizadas pelas cooperativas brasileiras. Renato Nóbile

 

Existe um  ODS no qual o cooperativismo possa colaborar mais e no qual deva se concentrar?

HMF: Os 17 ODS são integrados e indivisíveis. Significa que eles não são independentes entre si e precisam ser implementados de forma integrada.  O ODS 17 reforça essa necessidade quando afirma que “os ODS só serão realizados mediante um compromisso renovado de cooperação entre a comunidade internacional e uma parceria global ampla que inclua todos os setores interessados e as pessoas afetadas pelos processos de desenvolvimento”.

A participação das cooperativas é, portanto, essencial para a implementação da Agenda 2030e o alcance dos ODS Haroldo Machado Filho.

RN: Na verdade, não. Desde a fundação do nosso modelo de negócios, ainda no século XIX, as cooperativas contribuem ativamente para o cumprimento de todos os 17 ODS. Então veja quão adiantado o cooperativismo está em relação à pauta da sustentabilidade. É evidente que, pela natureza de suas atividades, cada cooperativa consiga contribuir mais ativamente com um objetivo específico do que com outro. Mas, dentro de uma lógica sistêmica, conseguimos colaborar com o atingimento de toda a Agenda 2030 

 


Conheça os 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável propostos pela Agenda 2030da ONU

Existe uma parceria histórica entre o cooperativismo e a Organização das Nações Unidas (ONU). A Aliança Cooperativa Internacional possui uma cadeira no conselho consultivo da ONU desde a criação do organismo, em 1948. Desde 1995, o Dia Internacional das Cooperativas está inserido no Calendário Oficial das Nações Unidas, sendo observado por todos os  estados-membros. Além disso, 2012 foi reconhecido pela ONU como o “Ano Internacional das Cooperativas” — um reconhecimento pelopapel catalisador do cooperativismo em prol do desenvolvimento social e econômico inclusivo, por meio da geração de emprego e renda nas comunidades em que atua.


Essa matéria foi escrita por Paula Andrade e publicada na edição 29 da revista Saber Cooperar. Leia a reportagem na íntegra.

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