Oásis Na Crise

Descubra como o cooperativismo financeiro consegue crescer três vezes acima da média nacional na oferta de novos empregos

Farol Conteúdo
06/10/2020

Existe uma ilha de oportunidades de trabalho em meio à crise econômica que atinge o Brasil. Enquanto o setor privado demite e o Brasil convive com um índice de desemprego de 12,5% — segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) —, as cooperativas financeiras abriram 20,5 mil novos postos de trabalho entre 2014 e 2018. Um crescimento de 19,7%, bem acima da média nacional para o período (5%), superando até mesmo a média geral do cooperativismo (17%), segundo o Anuário do Cooperativismo Brasileiro 2018. Hoje, o setor emprega 67,3 mil pessoas. Na contramão do desemprego, está contratando em vez de demitir.

Para a gerente técnica do Sistema OCB, Clara Máfia, o aumento do emprego nas cooperativas financeiras deve-se à expansão do setor e à abertura de novos postos de atendimento.

É um movimento interessante, pois, enquanto os bancos tradicionais estão caminhando no sentido da completa digitalização do relacionamento com o cliente, o cooperativismo financeiro — mesmo adotando a tecnologia —, faz questão de manter uma relação de proximidade,  de olho no olho com o cooperado”, observa.

Tal proximidade “gera um laço mais firme de confiança entre o cooperado e sua cooperativa financeira”, diz Clara.  Além disso, alinha-se aos princípios cooperativistas ao promover o desenvolvimento sustentável com a criação de postos de trabalhos para aquecer a economia local, gerando trabalho e renda para profissionais com perfis variados, como Jonathan Villalba, assistente financeiro do Sicoob Norte em Porto Velho (RO).

Contratado em maio deste ano, Jonathan sentiu na pele os efeitos da crise econômica ao ficar desempregado por seis meses. A empresa em que ele trabalhava como gerente administrativo, no Paraná, decretou falência, e ele se viu sem trabalho pela primeira vez, aos 34 anos. Incomodado, avaliou que a situação do estado não era boa e decidiu buscar novas oportunidades em Rondônia, onde viveu por alguns anos, anteriormente. Lá, não encontrou uma situação muito diferente. Muitas empresas recusavam-se a contratá-lo porque tinham um teto salarial incompatível com sua experiência. “Foi difícil, encontrei muita dificuldade em recolocação no mercado de trabalho”, lembra.

Desgastado pela busca, Jonathan optou por mudar a rota profissional e investir em um antigo sonho: trabalhar no mercado financeiro. Tirou uma certificação e partiu em busca de oportunidades na nova área. “No entanto, desta vez me deparei com outro obstáculo — a idade —, pois as grandes instituições financeiras no país costumam contratar assistentes de até 25 anos”, diz.

A oportunidade que ele buscava surgiu no Sicoob Norte. “Encontrei uma oportunidade de recolocação e a realização de um sonho de menino, de trabalhar de roupa social em uma instituição financeira. Foi uma oportunidade importante, pois o Sicoob não faz distinção de idade”, diz.

Hoje ele credita sua oportunidade ao mesmo fator apontado pela gerente do Sistema OCB: a capilaridade de um sistema que investe em contato presencial para se expandir. “Nosso sistema tem tudo para continuar crescendo, devido ao excelente atendimento, que é diferenciado justamente por ser personalizado”, afirma Jonathan.

 

GESTÃO PROFISSIONAL

Crédito: Pixabay

Crescendo em contratações, o sistema cooperativista tem atraído profissionais cada vez mais qualificados, como a gerente regional de investimentos do Sicredi Vale do Piquiri (SP/PR), Márcia Guerra.

Trabalhando na área de investimentos há 16 anos e com várias certificações, Márcia tornou-se alvo de recrutamento de diversas instituições quando decidiu sair do banco no qual trabalhava, em 2017, por conta de mudanças internas de gestão. Ela já tinha fechado uma proposta com uma grande instituição financeira quando foi contatada pelo Sicredi, que identificou seu currículo em uma plataforma on-line de empregos e vagas.

Eles me convidaram para que eu viesse conhecer a cooperativa e, até então, eu não conhecia bem o cooperativismo. Comecei a estudar a história e o modelo de negócios pelo mundo. Me encantei”, relembra Márcia.

Além disso, ela achou que a proposta de trabalho era mais desafiadora do que o que ela encontraria em uma instituição tradicional. “O Sicredi me oferecia um desafio maior, por atuar com uma marca nova em São Paulo, que é uma praça forte e consolidada. Inserir uma marca aqui é difícil e requer muito conhecimento técnico. E eu quis muito esse desafio.”

Em dois anos no cargo, Márcia e sua equipe conseguiram implantar uma assessoria de investimentos e entregar as metas inicialmente propostas. Ela também fez uma formação internacional em cooperativismo, na Alemanha. As propostas de trabalho continuam chegando (“o mercado assedia bastante, viu?”), mas o ambiente de trabalho saudável é, para ela, algo valioso. “O Sicredi me abraçou. A diretoria e a presidência entenderam as ideias que eu trouxe, a mudança de cultura na forma de ver investimentos que propus. Eles abraçaram a causa e me veem não como gestora, mas como pessoa. Sabe aquela coisa de assistir à televisão no domingo à noite com preguiça de vir trabalhar no dia seguinte? Comigo não tem isso: eu amo trabalhar aqui”, conta.

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Estados que mais empregam

ESTADO           NÚMERO DE EMPREGADOS     CRESCIMENTO ENTRE 2017 E 2018

Paraná                               12.055                                           21,1%

Minas Gerais                     11.439                                          14,5%

Rio Grande do Sul            10.719                                           11,4%

Santa Catarina                  9.519                                              15,3%

São Paulo                         6.860                                              7.7%

*Números absolutos de 2018. Variação percentual entre 2017 e 2018. Dados Anuário OCB 2010.

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Estados em que a empregabilidade mais cresce*

ESTADO           NÚMERO DE EMPREGADOS     CRESCIMENTO ENTRE 2017 E 2018

Amazonas                                   80                                196,3%

Tocantins                                    395                              59,9%

Sergipe                                        54                                38,5%

Ceará                                           273                              25,2%

Piauí                                             42                                23,5

* Números absolutos de 2018.Variação percentual entre 2017 e 2018. Dados Anuário OCB 2018.

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AGENDA BC#

Reconhecendo o potencial de crescimento, empregabilidade e inclusão financeira do cooperativismo financeiro, o Banco Central destacou a importância do setor no lançamento da Agenda BC#, em junho deste ano. “Mesmo durante as crises na década anterior, o cooperativismo manteve-se firme na trajetória de crescimento. A gente precisa agora consolidar essa atuação”, afirmou o presidente do Banco Central, Roberto Campos, no evento.

A Agenda BC# lista medidas para melhorar a saúde financeira do brasileiro e, por consequência, a economia do país, com foco em quatro pilares:

Inclusão — o foco dessa dimensão é facilitar o acesso ao mercado financeiro para todos: pequenos e grandes, investidores e tomadores, nacionais e estrangeiros. Entre as medidas para alcançar esse objetivo, estão plataformas digitais, menos burocracia e simplificação de procedimentos. É intenção do BC atuar para que fontes privadas de financiamento ocupem mais espaço no mercado, de forma que se permita a redução da participação do governo nesse segmento.

Competitividade — busca a adequada precificação por meio de instrumentos de acesso competitivo aos mercados. Há diversas inovações, impulsionadas por tecnologia, que incentivam a competição. Paralelamente, há desafios para reduzir barreiras, agilizar procedimentos e gerenciar riscos.

Transparência — nessa dimensão, trabalha-se para aprimorar o processo de formação de preço e as informações de mercado e do BC. Ela investe no incremento da comunicação, na avaliação de resultados e na simetria de informação. Para tanto, é fundamental o relacionamento com parlamentares, investidores e o grande público. O BC trabalha para que a informação flua transparentemente em todos os aspectos, como no direcionamento de crédito e nos serviços financeiros.

Educação — a dimensão Educação almeja conscientizar o cidadão para que todos participem do mercado e cultivem o hábito de poupar. Nesse sentido, é chave a participação de agentes de mercado, como cooperativas e distribuidores de microcrédito. Para atingir alta capilaridade, a dimensão prossegue também no esforço de plena implementação da Base Nacional Comum Curricular, de que consta a educação financeira como conteúdo programático elegível para escolas.


 


Esta matéria foi escrita por Naiara Leão e está publicada na Edição 27 da revista Saber Cooperar. Baixe aqui a íntegra da publicação