Qual será o legado desta pandemia?

Convidamos dois presidentes de cooperativas, de ramos diferentes, para analisar os impactos temporários e permanentes da Covid-19 no Brasil, no mundo e no cooperativismo

Farol Conteúdo
25/08/2020

Tudo aconteceu muito rápido. Começamos 2020 ouvindo falar de um novo vírus que estava matando pessoas lá na China. Aparentemente, algo muito distante da nossa realidade. Em março, esse mesmo vírus tinha atravessado todas as fronteiras, se espalhou pelo mundo e mudou a rotina e as relações de trabalho de todo o planeta.

Preparados ou não, em questão de dias, todos fomos impulsionados para a Era Digital. Empresas, governos, pessoas físicas e, claro, as cooperativas, tiveram que se adaptar ao mundo virtual e se relacionar via internet.

Segundo os especialistas, as chances de voltarmos a ver o mundo como era antes da pandemia são pequenas. A maior parte das mudanças que se impuseram vieram para ficar. Mas, como será esse futuro? Em especial, o futuro das cooperativas? Convidamos dois líderes cooperativistas de áreas fortemente afetadas pela pandemia — Saúde e Crédito — para conversar sobre o “novo normal”: Orestes Pullin, presidente da Unimed do Brasil; e Eledir Pedro Techio, presidente da Sicredi Ouro Verde MT. Confira!

Revista Saber Cooperar: Sua cooperativa estava preparada para enfrentar uma pandemia ou teve de correr para se adaptar às demandas de uma quarentena?

Oreste Pullin: O Sistema Unimed possui a inovação em seu DNA; então, já vínhamos investindo em novas tecnologias e modelos de atendimento. Obviamente, um contexto de pandemia, com esta escala global, exigiu adaptações e novos investimentos para aperfeiçoar a capacidade de atender às mais diferentes necessidades das comunidades onde estamos presentes. No entanto, as Unimeds têm demonstrado grande competência em fazer a leitura correta dessa demanda, e temos conseguido resultados satisfatórios neste momento desafiador.

Eledir Pedro Techio: Creio que ninguém estava preparado, por ser algo que nenhum de nós tinha vivido até aqui. Tivemos que nos adaptar e ir descobrindo as respostas às angústias dia após dia. A comunicação precisou ser constante e próxima; tivemos que nos reorganizar para nos comunicarmos de forma ainda mais clara e mantermos todos os públicos alinhados.

Acredito que o maior aprendizado que tivemos é de que é possível estar próximo sem estar perto. E, quando percebemos isso, ganhamos muito em objetividade e em eficiência. Descobrimos que nem tudo precisava ser realizado de forma presencial, como normalmente fazíamos. Entendemos que o trabalho em home office pode ser produtivo e que dá sim para equilibrar melhor as questões “pessoais e profissionais”. Aliás, na minha avaliação, isso hoje é algo integrado, sem mais separação.

Quais são os principais impactos da pandemia na sua cooperativa?

OP: O Sistema Unimed possui abrangência nacional, atendendo pacientes inclusive em localidades em que, muitas vezes, a rede pública de saúde não está presente. Temos, portanto, uma grande responsabilidade para com a sociedade brasileira neste momento desafiador que estamos vivendo. Nesse sentido, desde que a pandemia eclodiu, buscamos aumentar nossa capacidade de assistir às populações em suas mais diferentes necessidades, reforçando nosso princípio fundamental, que é cuidar das pessoas.

Passados quatro meses, temos demonstrado grande capacidade de resposta à pandemia da Covid-19. Nossas cooperativas em todo o Brasil têm investido não só na expansão de suas infraestruturas, como também no aumento de suas equipes médicas, em ações de prevenção, responsabilidade social e educação nas comunidades nas quais estão inseridas.

EPT: Nosso ramo de negócio, por integrar o segmento financeiro, foi bastante afetado pela pandemia. Como o Sicredi é composto por associados de diferentes setores da economia, pudemos sentir as diferentes realidades vividas neste período da pandemia. O ramo mais afetado, sem dúvida, foi o das micro e pequenas empresas — especialmente aqueles relacionados a vertentes do comércio, como turismo, hotelaria, restaurantes, bares, salões de beleza, academia, entre outros. Também foram bastante afetados profissionais liberais e microempreendedores que atuam com serviços que foram — ou ainda estão sendo — limitados durante a pandemia.

Por outro lado, percebemos setores que cresceram nesse período, como supermercados, deliveries, farmácias e, em nossa região, o agronegócio, que registrou uma safra recorde, com preços que garantiram uma boa rentabilidade.

Em função do histórico da cooperativa, que construiu uma relação de confiança com seus associados ao longo dos seus 30 anos, nós percebemos também que muitos associados preferiram deixar seus recursos investidos na instituição neste momento de pandemia. Isso também se somou ao fato de que muitas pessoas e empresas estão segurando alguns investimentos em expansão ou em novos negócios, optando por manter os recursos investidos, o que fez com que a cooperativa alcançasse um recorde no volume de depósitos neste período.

Como sua cooperativa tem apoiado seus colaboradores e cooperados neste momento de crise?

OP: Todas as Unimeds estão amplamente engajadas no combate à pandemia em ações das mais variadas. Entre elas, estão: a distribuição de máscaras e EPIs gerais para os colaboradores envolvidos no combate direto e indireto à pandemia; o apoio psicológico para os profissionais da linha de frente do atendimento a pacientes; a preparação de materiais orientativos à população, médicos cooperados, funcionários e clientes; criação de e-books, FAQs e políticas ativas de home office para os colaboradores que estiverem em condições de executarem suas atividades remotamente.

Especificamente na Unimed do Brasil, com sede em São Paulo, estruturamos o regime de home office em tempo recorde e todos os colaboradores estão trabalhando seguros, de suas casas. Esse plano de contingenciamento foi compartilhado com todo o Sistema Unimed, de modo a auxiliar localmente nossas cooperativas nessa demanda.

 EPT: Uma das primeiras ações que tomamos foi criar um Comitê de Contingência, e a partir de então começamos a realizar reuniões diárias com nossos líderes e reuniões quinzenais com todos os colaboradores. Definimos como prioridade o “cuidar das pessoas”, tendo sido necessário, em certo momento, até mesmo suspender o atendimento presencial, como forma de proteção aos colaboradores e aos associados. Este processo de comunicação mais próxima com as lideranças foi essencial, até porque, no início, não se sabia ao certo a melhor decisão a ser tomada, pois o cenário era totalmente novo e exigia decisões rápidas.

Adotamos todas as práticas recomendadas pelas autoridades de saúde, como higienização dos ambientes, disponibilização de máscaras e outros equipamentos de proteção individual, exames para quem apresentasse sintomas. Também organizamos escalas de home office como forma de promover o distanciamento social e como segurança para suportar a operação.

SC: De todas as iniciativas tomadas nesta quarentena, quais foram as mais marcantes dentro do seu sistema?

OP: Um grande exemplo a ser citado é o trabalho feito em Fortaleza, onde a Unimed inaugurou um hospital de campanha com 44 leitos adicionais às unidades próprias da cidade para aumentar a capacidade de atendimento em um momento em que os casos de contágio aumentavam consideravelmente no Ceará. No fim de junho, no entanto, graças aos esforços não só da Unimed, como também do poder público, foi possível manter a demanda sob controle e, com isso, esta unidade de campanha começou a ser desmontada. Em Porto Alegre, a cooperativa local é cofinanciadora de um estudo pioneiro da Universidade Federal de Pelotas (RS), que realiza um trabalho de testagem da população gaúcha, visando estimar o percentual de infectados pelo novo coronavírus no estado. O levantamento, ainda em andamento, visa entender a evolução do vírus para oferecer direcionamentos para seu combate.

Ainda, para ajudar os profissionais de saúde a entenderem melhor as metodologias de atendimento para telemedicina — que foi reconhecida durante o distanciamento social por conta da pandemia da Covid-19 —, a Unimed do Brasil, em parceria com a Associação Paulista de Medicina (APM) e a Federação das Unimeds do Estado de São Paulo (FESP), elaborou o curso online de Capacitação Básica em Telemedicina.

Trata-se de uma excelente oportunidade para divulgarmos os preceitos que acreditamos para a prática da telemedicina de maneira ética e segura. As aulas estão de acordo com o princípio cooperativista que defende a educação, formação e informação de todos nossos profissionais, proporcionando o entendimento de como se relacionar com o paciente a distância e gerar confiança.

EPT: Entre as experiências positivas que tivemos estão as formações a distância — como as do Programa A União Faz a Vida, que é o nosso programa de educação cooperativa para a comunidade: já foram realizadas 134 lives de formação, envolvendo 2.400 participantes. Agora estamos iniciando também as formações de Educação Financeira e do nosso programa de formação de associados (o Crescer), também em formato on-line.

Destaco ainda que as reuniões a distância nos aproximaram de toda a equipe e permitiram encontros com entidades sociais que apoiamos, com sindicatos e entidades representativas que são parceiras em outros programas. Realizamos também nossa Assembleia Geral Ordinária em formato on-line, o que foi uma quebra de paradigma.

A Covid-19 fez muitas empresas aderirem ao home office e à “informatização do trabalho”. Você acha que essa mudança é positiva ou negativa? Ela veio para ficar?

OP: Na Unimed do Brasil, temos verificado resultados preliminares satisfatórios. Uma pesquisa interna observou que as práticas de home office têm obtido aprovação de 94% dos colaboradores, o que mostra que as soluções para este fim foram desenvolvidas de maneira acertada.

Ainda é cedo para fazermos uma previsão mais assertiva de escala, mas, com certeza, o trabalho remoto tem sido positivo e, provavelmente, é um recurso que deve ganhar espaço nos próximos anos.

De qualquer maneira, estamos confiantes de que — quaisquer que sejam as circunstâncias que se desdobrarão nos próximos anos — as empresas e cooperativas se adaptarão de maneira satisfatória, e as relações de trabalho tendem a se aperfeiçoar em todos os níveis hierárquicos, com uma grande preocupação, também, com a qualidade de vida das pessoas.

EPT: Penso que essas mudanças são extremamente positivas e vieram para ficar: nossa vida profissional e pessoal a partir de agora serão únicas, integradas, uma fazendo parte da outra. É como discutirmos os pilares econômico e social nas cooperativas: o que vem primeiro? Qual é mais importante? Nenhum e, ao mesmo tempo, os dois. Um depende do outro. Um não existe sem o outro. Seremos seres únicos, onde trabalharemos, curtiremos, conviveremos, tudo ao mesmo tempo. Nós nos permitiremos ir à apresentação da escola do filho ao meio da tarde, sem problemas, passando a importar mais o quanto eu contribuo para minha família, para a cooperativa e para a sociedade. O horário e de onde estou contribuindo não importarão tanto.

Acredito que novas competências já foram criadas. É uma nova dinâmica, que nos demanda sermos produtivos, mesmo com as equipes não estando lado a lado. Novas posições já foram criadas; algumas rotinas operacionais já estão sendo substituídas por automatização, muitas outras funções deixarão de existir. É uma grande mudança de mindset, e os que não permitirem estas mudanças no modelo mental possivelmente ficarão pelo caminho. Porém, precisaremos evoluir muito nosso modelo de leis trabalhistas para que isso aconteça de forma mais efetiva, já que algumas têm quase um século e não preveem esta nova realidade.

 

 E as relações de consumo, como ficam?

OP: As restrições na circulação humana e o isolamento social inauguraram uma tendência de as pessoas se voltarem mais para a comunidade, consumindo produtos e serviços locais. Creio ser este um aspecto que pode influenciar o comportamento dos consumidores. Ainda, este processo deve ocorrer bastante por via remota, cujo desenvolvimento é evidente durante esta pandemia. Na saúde, por exemplo, a telemedicina teve um enorme salto de desenvolvimento e, com aperfeiçoamentos técnicos e legais, tende a se consolidar como um recurso complementar ao atendimento presencial que, na medicina, não pode, evidentemente, ser negligenciado.

EPT: Nós percebemos que a pandemia fez com que muitas empresas tivessem que se reinventar; muitos empresários estão tendo que posicionar seu negócio de forma diferente. As vendas on-line, por exemplo, vieram contribuir com a economia nesse sentido e as plataformas digitais se firmam como um carro-chefe no consumo. No Sicredi, nós também buscamos apoiar a viabilização dessas novas relações econômicas, por meio de uma plataforma de marketplace disponibilizada de forma gratuita para os associados: o Sicredi Conecta.

Esse novo cenário provocou um movimento de olhar mais para o local. Muitas pessoas passaram a perceber a importância de valorizar o comércio local para manter a economia girando. E, paralelamente a isso, a sociedade passa a exigir maior compromisso das organizações sobre o que elas fazem pelas comunidades.

Diante desse cenário, nós, como instituição financeira cooperativa, que já temos esta atuação local como parte do nosso dia, buscamos desenvolver um movimento nacional chamado Eu Coopero com a Economia Local, que veio justamente com o objetivo de promover essa maior consciência na população sobre como podemos contribuir com a economia da nossa região e como isso beneficia a toda a sociedade.

A pandemia fortalece ou enfraquece o modelo cooperativista? Por quê?

OP: O elo das cooperativas com a sociedade é muito forte. Seu modelo econômico é baseado na união das pessoas com um mesmo objetivo. Destacam-se principalmente por atuar em favor da sustentabilidade e do desenvolvimento econômico e social da comunidade. Todas as cooperativas, independentemente de seus ramos, devem investir, por meio de políticas aprovadas por seus membros, no desenvolvimento sustentável das cidades e regiões nas quais estão inseridas. Preza-se essencialmente por aportes em projetos economicamente viáveis, ambientalmente corretos e socialmente justos. No contexto da saúde, isso significa zelar pela integridade das populações locais ao mesmo tempo em que se contemplam projetos para aumentar o acesso às principais inovações da assistência médica, entendendo e levando em consideração as necessidades específicas de cada localidade. E isso, no cenário atual de pandemia, nunca foi tão vital.

EPT: Nós acreditamos que fortaleceu muito. Nunca o modelo cooperativo fez tanto sentido. Em todos os lugares, fala-se em trabalhar junto para gerar um impacto positivo nas comunidades. A cooperativa, por ser local, tem essa relação de proximidade maior, e também de credibilidade. Um exemplo vivido pela nossa cooperativa foi que, logo no início da pandemia, identificamos a necessidade de apoiarmos as instituições de saúde da nossa região, e assim nos organizamos. Destinamos recursos do nosso Fundo Social para a compra de respiradores, desfibriladores, monitores cardíacos e outros equipamentos hospitalares em diferentes municípios, além de testes rápidos, máscaras, luvas, álcool gel e EPIs para profissionais da saúde e policiais militares. Também tivemos um olhar para as entidades sociais, que estavam passando por dificuldades na medida em que sobreviviam, em grande parte, de recursos arrecadados com eventos, que não puderam mais ser realizados. Com essas duas ações, destinamos R$ 950 mil para apoiar 105 projetos na nossa área de atuação. Esse sentimento de fazer juntos, de estar próximo, de contribuir para que a sociedade possa superar seus desafios, aproxima ainda mais as cooperativas e o cooperativismo dos seus valores e das comunidades.

Qual será o legado desta pandemia para o Brasil e para o mundo?

OP: Uma lição que o país deve levar da pandemia é como definir novas políticas públicas no pós-crise. Para que outra crise como esta seja evitada, é preciso planejamento. E prever e prevenir uma pandemia passa por um grande investimento em saúde pública, condições sanitárias básicas e educação em saúde para a população. Acreditamos que este debate se intensificará, e é muito importante que os diversos atores sociais — como governos, empresas, organizações não governamentais e sociedade civil — cooperem entre si para que possamos formular essas políticas que sirvam aos maiores interesses dos países e das pessoas.

EPT: Acreditamos em uma sociedade menos individualista, e com um pensar mais coletivo, com menos política partidária e com mais política solidária. Teremos um sentimento de dor; já estamos tendo, com a perda de muitas pessoas, mas o aprendizado será semelhante a atravessarmos uma guerra: em todas as guerras, aprendemos; foram acelerados processos de tecnologia, deixamos o passado para trás e aprendemos com o novo. E é isso que eu acredito que vai ficar: uma preocupação maior com as pessoas.


Esta matéria foi escrita por Paula Andrade e publicada na edição 30 da revista Saber Cooperar. Confira! <