Revolução feminina no campo

Conheça a corajosa história da primeira mulher a participar de uma cooperativa de produtores de leite do estado do Mato Grosso

Farol Conteúdo
23/06/2020

“Onde a mulher tem dignidade, respeito, voz e vez é na cooperativa. É também o local onde é possível encontrar justiça para o produtor rural.” A frase de Maria Gonçalves Nunes, moradora de Colíder, no Mato Grosso, é um retrato da história de luta e liderança da agricultora em busca de tratamento digno para os produtores de leite da cidade.

Há 14 anos, Maria liderou um grupo de 80 produtores de leite, da comunidade rural de Sol Nascente, que, insatisfeitos com o tratamento dado pela empresa de laticínio que comprava toda a produção, fez uma verdadeira revolução no campo.

“Não sei de onde arrumei tanta coragem, acho que era do espírito de justiça que eu tinha. Na igreja, aprendi que os grandes profetas lutavam pela justiça do seu povo”, afirma.

Maria lembra que os produtores deixavam seu leite em tambores, na entrada das pequenas propriedades, que eram recolhidos por caminhões e levados direto ao laticínio. Mas ninguém nunca conheceu “a cara do patrão”. Mudanças eram feitas sem comunicado prévio aos produtores que eram pegos de surpresa, inclusive com a troca de um laticínio por outro.

“Um dia, eu fui lá na estrada para pegar o tambor [de leite] e o talão para ver a medição do leite [papel em que eles indicavam quantos litros tinham sido recolhidos naquele dia]. No papelzinho que eles deixavam, eu vi que tinha mudado o nome do laticínio. Não era mais o mesmo de antes. Eu fui pra casa, revoltada, e no dia seguinte fui lá pra beira da estrada pra esperar o leiteiro. E falei pra ele: o que aconteceu? Quem é o nosso patrão agora? Quem vai pagar o leite?”

O responsável pelo transporte do produto disse apenas que a linha de leite tinha sido vendida e que  um outro laticínio tinha assumido o controle. Maria mandou um recado pedindo para que o proprietário fosse ao campo conversar com os pequenos produtores. Mas ninguém nunca apareceu.

Revoltada com a situação, ela decidiu que faria uma reunião com os produtores rurais para discutir os próximos passos da comunidade. No primeiro encontro, 80 produtores locais compareceram. “Eu até me assustei”, relembra Maria afirmando que foi sozinha ao local. “Meu marido não gostava de reunião, nem foi”, completa.

No encontro, no qual foram discutidos os caminhos para a produção de leite da região, Maria se colocou à disposição para se reunir com a Cooperativa Agropecuária Mista Terra Nova (Coopernova) – que poucos produtores conheciam, mas cujo trabalho tinha fama de ser honesto, sério e transparente.

 

PROTAGONISMO FEMININO

Na primeira reunião com a cooperativa, Maria conseguiu convencer o dirigente a pegar a produção leiteira dos pequenos produtores. Mas, para isso, seria necessário que, por 15 dias, eles jogassem fora todo o leite produzido – uma forma de mostrar insatisfação com o antigo laticínio.

“Havia uma briga muito grande pelo leite na época, era uma queda de braço. O antigo laticínio não queria que a gente vendesse para outra pessoa. Até então, não tinha concorrência. Foi difícil convencer os produtores, mas conseguimos”, relembra.

Na reunião seguinte com o dirigente da Coopernova, Maria já apareceu ao lado de 29 produtores que se mostraram interessados em fazer negócio com a cooperativa. Apesar de ser dezembro, um mês que tradicionalmente não há compra de leite pela entidade, os dirigentes resolveram ajudar os produtores liderados por Maria.

“A cooperativa só pega leite de maio a outubro, mas a gente não sabia disso na época, não era cooperada”, afirma.

“Eu sei que, no dia seguinte, arrumei um caminhão de puxar leite de um produtor, passamos de casa em casa, colocando o leite nos tambores e depois no caminhão. Eu ia passando, pegando nome e CPF do produtor e catando o leite. No primeiro dia, levamos 2,4 mil litros de leite para a Coopernova”, lembra, orgulhosa, a produtora.

Hoje, 14 anos depois, os produtores cooperados entregam, diariamente, mais de 9 mil litros de leite à Coopernova. Satisfeita com os resultados, Maria recorda:

“Eu era a única mulher do grupo e estava liderando tudo aquilo. Foi difícil no começo, mas conseguimos. A comunidade continua animada e ninguém quer sair. Sempre digo que temos de dar valor ao nosso pedaço de terra e de ser cooperativista”.

Nossa líder cooperativista se diz feliz e realizada com as escolhas que fez ao longo da vida. Ela diz que repetiria tudo outra vez e incentiva outras mulheres a seguirem o caminho do cooperativismo.

“O cooperativismo é muito importante e apóio que outras mulheres entrem. Falo a elas que vale a pena ser cooperativista, investir na sua propriedade e produção. O trabalho desenvolvido pela Coopernova é honesto e sério. Tem 14 anos que a gente entrega leite lá. E nunca ficamos um mês sem receber”, afirma.

Maria, mãe de cinco filhos homens, elogia a capacidade de organização das cooperativas e faz uma analogia sobre esse processo e o que aprendeu ao longo dos anos na igreja que frequenta.

“A cooperativa é uma instituição organizada e transparente. Eu vejo o cooperativismo como a primeira multiplicação de pão e peixes que Jesus fez. Ele pediu que fosse organizado em grupos de 50, de 100. Essa organização que Jesus fez para a partilha do pão é o cooperativismo”.


Esta matéria foi escrita por Lílian Beraldo e está publicada na Edição 29 da revista Saber Cooperar. Baixe aqui a íntegra da publicação


 

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