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Mesmo com mudanças no mercado, a pista está livre para as cooperativas de transporte

Farol Conteúdo
07/07/2020

Peça a um economista para descrever um mercado em profunda mudança, no Brasil e no mundo dos últimos anos, e é grande a chance de ele citar o ramo de transporte —  sobretudo, o de passageiros — como exemplo. Aliás, para qualquer um que já chamou um carro por meio de aplicativo de celular, parece claro que nada será como antes nesse tipo de serviço. 

Do ponto de vista das cooperativas de transporte, que possuem presença significativa no setor, o cenário é igualmente desafiador. Ainda assim, elas têm conseguido manter um bom ritmo de crescimento nessa nova estrada. De acordo com o Anuário do Cooperativismo Brasileiro — produzido pelo Sistema OCB —, houve alta de 16% no número de cooperativas de transportes, que subiram de 1,1 mil, em 2014, para 1,3 mil, em 2018. Um sinal de que a cooperação é um dos caminhos escolhidos por quem opta por ficar (ou entrar) nesse negócio. 

O mercado de transportes é muito veloz e competitivo, mas ele beneficia quem está preparado para oferecer os melhores serviços”

A avaliação acima é de Tiago Barros, analista econômico da OCB para o Ramo Transporte. Segundo ele, as cooperativas do ramo precisam compreender que existe uma solução para enfrentar esse cenário de profunda mudança e disrupção. “Em vez de lutar contra a entrada de novos atores no mercado, é preciso entender o que está mudando, pensar e se reposicionar. Quem estiver preparado e for competente, obterá resultados. E eles serão grandes.” 

De fato, de acordo com o Anuário do Cooperativismo, em 2018, as cooperativas de transportes movimentaram R$ 4 bilhões, garantindo o emprego e a renda de 98,8 mil cooperados. Ainda não estão disponíveis dados que permitam uma comparação com a receita de anos anteriores, mas Barros — que acompanha diariamente o mercado desde 2013 — avalia que “a tendência é de aumento em relação ao faturamento” em todos os segmentos. 

OTIMISMO

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Mesmo em um cenário de baixo crescimento econômico, Evaldo Matos, diretor-geral da Federação das Cooperativas de Transporte de Cargas e Passageiros de Minas Gerais (Fetranscoop-MG) enxerga com bons olhos o futuro das cooperativas de transporte. Ele não hesita em afirmar que o setor vinha crescendo antes da pandemia e pode inclusive aproveitar o momento para se reinventar. Parece otimismo em exagero? Não é! 

Uma pesquisa assinada pelo economista-chefe do Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade), Guilherme Resende, dá uma pista relacionada ao mercado de transporte de passageiros. Com base em dados coletados entre 2014 e 2016, em 590 municípios brasileiros — incluindo as 27 capitais —, o estudo mostra que a chegada da Uber, por exemplo, provocou, em um primeiro momento, queda de 56,8% nas corridas aferidas por aplicativos exclusivos de táxi. Entretanto, com o passar do tempo, tal redução caiu para 26,1%, em média, nas capitais das regiões Sul, Sudeste e Centro-Oeste, indicando uma reação dos taxistas. 

Entre as razões para a recuperação de terreno, avalia Resende, está a adaptação dos motoristas de taxi à nova realidade. Se por um lado a competição aumentou e os preços da corrida caíram em média 12%, por outro, aumentou-se significativamente  o público consumidor. O especialista defende: 

Ao darem descontos e praticarem preços mais acessíveis, em termos absolutos, os taxistas conseguem ter até mais corridas do que antigamente”.

Há espaço para todos nesse mercado mais amplo, desde que cada um saiba aproveitar suas vantagens competitivas, resume Resende. “Como sobreviver? Como se manter nesse mercado? Cada um, a seu modo, vai ter de ser mais eficiente”, assevera o economista-chefe do Cade.   

VANTAGENS E DESAFIOS

Crédito: ShutterStock

 

Na nova realidade do mercado de transportes de passageiros, as cooperativas já encontraram soluções inteligentes para se diferenciar.  Se o motorista de carro particular tem a seu favor uma estrutura extremamente enxuta, com poucas exigências e baixos custos regulatórios para circulação, os cooperados contam com um forte poder de negociação junto aos fornecedores.

“Dentro de uma cooperativa do ramo de transporte, seja de carga ou de passageiros,  é possível adquirir  insumos a custo menor, como pneus, peças, acessórios ou, até mesmo, gasolina”, explica o  líder cooperativista Evaldo Matos. “Além disso, a contratação de seguro é mais barata, com apólices coletivas. Sem falar que a aquisição de crédito é diferenciada, por meio de bancos conveniados”.

Quer mais? As cooperativas oferecem, ainda, suporte contábil, tributário e burocrático aos cooperados, um enorme diferencial na avaliação de Guilherme Resende, do Cade, especialista em competição de mercado. Ainda de acordo com ele: 

Se o preço da corrida está baixo para todo mundo, quem for mais eficiente conseguirá os melhores resultados. E as cooperativas, nesse sentido, costumam ser mais eficientes”.

Ouvido o conselho dos especialistas, cabe às cooperativas aproveitar essas vantagens para garantir maior participação de mercado no Ramo Transporte. “Nós precisamos criar estratégias para concorrer e simultaneamente investir cada vez mais em uma gestão eficiente. Afinal, muitas cooperativas correm risco de descontinuidade”, completa Matos. 

5 PRIORIDADES ESTRATÉGICAS DO RAMO

 


Esta matéria foi escrita por Felipe Teixeira e está publicada na Edição 29 da revista Saber Cooperar. Baixe aqui a íntegra da publicação 


 

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