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Globo Repórter destaca força da cooperação

“A força coletiva impulsiona e muda a vida da gente”. Assim, a jornalista Sandra Annemberg iniciou o programa Globo Repórter de sexta-feira (16/12), que trouxe como tema principal os benefícios que o modelo de negócios cooperativista representa para a sociedade e comunidades onde está presente. “Há um ditado popular que diz, se quiser ir rápido, vá sozinho. Mas, se quiser ir longe, vá acompanhado”, complementou Sandra, ao anunciar as histórias detalhadas ao longo do programa. Durante os intervalos, também foi veiculado vídeo da Campanha SomosCoop, que tem como embaixador do movimento, o tenista Guga Kuerten, ídolo do esporte brasileiro.

A trajetória da Cooperativa Justa Trama, de Porto Alegre (RS), foi o primeiro destaque. Formada por mulheres e homens agricultores, fiadores, tecedores, costureiras, artesãos, coletores e beneficiadores de sementes, a Justa Trama é uma cadeia produtiva que inicia seu processo no plantio do algodão agroecológico e vai até a comercialização de peças de confecção produzidas com o insumo. Nasceu em 1996 com um grupo de 35 costureiras e hoje agrega mais de 600 cooperados em cinco estados: Rio Grande do Sul, Mato Grosso do Sul, Minas Gerais, Ceará e Rondônia.

Quando começamos, éramos apenas um grupo de mulheres que buscava alternativas de trabalho para melhorar as condições de vida das nossas famílias. Juntas, dividíamos tudo. Tivemos vários prejuízos, mas um dos momentos mais felizes da nossa história foi quando começamos efetivamente a gerar renda. Podíamos ter nos acomodado, mas queríamos mais e continuamos lutando para chegar aonde estamos e ir ainda mais longe”, afirmou Nelsa Inês Fabiano Nespolo, presidente da Justa Trama.

Hoje, a Vila Nossa Senhora Aparecida, localizada na Zona Norte de Porto Alegre e sede da cooperativa, conta até mesmo com uma moeda local, o Justo, utilizada pelos moradores para a compra de produtos e serviços no comércio da região.  “Nós escolhemos o caminho do coletivo, da união, para transformar a vida das pessoas. Nada nos traz mais felicidade do que ver que quem está à nossa volta também está feliz”, complementa Nelsa.

Arte que constrói

A história do espetáculo Encantado, encenado pela Companhia de Dança Lia Rodrigues, grupo com vários bailarinos formados no Centro de Artes da Maré, localizado na Nova Holanda, uma das 16 favelas do Conjunto da Maré, na Zona Norte do Rio de Janeiro, mostrou como a força do coletivo contribui para alimentar relações e construir o futuro de jovens que unem diferentes talentos para garantir oportunidades para todos. “Fazemos a diferença na vida um do outro”, afirmou a bailarina Carolina da Silva Pinto, que já viajou o mundo com sua dança e também coordena o Centro de Artes.

“O Encantado fala um pouco dessa possibilidade de convivência e mostra como é possível a gente crescer, se desenvolver colaborando, vivendo junto com as nossas diferenças. A força do coletivo me inspira e está muito presente nesse centro de artes. Eu sinto ação, movimento, construção. Todo mundo é importante”, destacou a coreógrafa Lia Rodrigues. O Centro de Artes da Maré é um dos cinco pilares da ONG Rede das Marés que atua em defesa dos direitos básicos dos moradores do complexo de favela por meio de parcerias.

Rede empreendedora

Acreditar em uma ideia, unir forças e trabalhar para que ela se torne realidade. Esse tem sido o propósito da investidora social Aline Odara, uma paulista que começou fazendo vaquinhas para ajudar empreendedoras negras e hoje conta com o apoio de investidores do maior centro financeiro da América Latina. “A ideia inicial foi unir 20 amigos que doassem 20 reais todo mês durante um ano. Para nossa surpresa, em cinco dias já tínhamos 60 doadores recorrentes e em três meses, quase 300 doadores. Foi assim que nasceu o primeiro fundo filantrópico de mulheres negras do Brasil, a Agbara”, contou Aline.

Hoje ela se reúne com representantes de bancos e investidores que liberam recursos para pequenos negócios de mulheres negras e periféricas. “Batemos um milhão de reais recentemente e já atendemos 2 mil mulheres. Para nós é um resultado extremamente significativo”, acrescentou Aline. A única contrapartida solicitada, segundo ela, é a de fortalecer a ideia de rede, de que uma ajuda a outra crescer. “Quando a gente avança quer levar toda a comunidade junto. Nunca é só sobre a gente”, conclui.

Ensinar a pescar

No Sul de Sergipe, em Santa Luzia do Itanhy, a pesca era a única forma de sobrevivência de seus moradores. Até que, em 2009, a cidade recebeu de volta um sergipano que estudou em São Paulo e começou a desenvolver um projeto que transformou o local em um centro de referência em Ciência, Educação e Tecnologia. Saulo Barreto é engenheiro e co-fundador do Instituto de Pesquisa em Tecnologia e Inovação (IPTI), uma instituição sem fins lucrativos que busca gerar inovações capazes de promover o desenvolvimento humano, a partir da criação de tecnologias sociais nas áreas de educação básica, educação empreendedora e saúde básica.

“Todo lugar tem uma potência, o que falta é a oportunidade adequada. O que buscamos aqui foi transformar a cidade em uma referência global que pudesse também inspirar essas pessoas que têm dinheiro e querem ajudar, a repensar o modelo de filantropia social que elas fazem. O que fazemos aqui não é nada além do óbvio que é trabalhar para criar condições para que todas as crianças possam ter um desenvolvimento pleno até chegar na alfabetização e depois todas elas consigam encontrar um ambiente empreendedor para que tenham qualidade no trabalho e renda, mesmo morando em Santa Luzia do Itanhy”, explicou Saulo.

Hoje já são mais de 20 projetos interligados em um modelo que começa a se espalhar pelo Brasil e estão presentes em 28 municípios de quatro estados. Como lema, o fato de que ninguém constrói nada sozinho e que o trabalho coletivo é a base de tudo. “É revelar o potencial criativo e transformador que as pessoas têm de fato, mas na condição de que ela efetivamente consiga exercer isso. E ela ganha essa generosidade de compartilhar isso, atuando em rede, de maneira coletiva. Só assim a gente consegue superar os problemas que o mundo precisa tão urgentemente”, completa Saulo.

Frutos da caatinga

No sertão da Bahia, o destaque foi para a valorização dos moradores das pequenas cidades e da terra. Em comunidades de fundo de pasto, existentes em munícipios como Uauá, a força do coletivo transformou a paisagem e a vida de pessoas que estabelecem como meio de vida a caatinga. Com o tempo, o bioma começou a se degradar, e as mulheres locais perceberam que o Umbu, um fruto nativo saboroso, estava perdendo força, com baixa produtividade e até morrendo. Nasceu então o Projeto Recaatingamento, que tem como base a preservação do meio ambiente em parceria com a comunidade. O resultado é uma caatinga forte onde as frutas trouxeram o verde de volta para a paisagem.

O projeto é guiado pela comunidade de Ouricuri, junto com o Instituto Regional da Pequena Agropecuária Apropriada (IRPAA), uma ONG baiana que promove a convivência com o semiárido. Tudo é pensado coletivamente e realizado em sistema de mutirão. São famílias que trabalham a terra e devolvem a ela a capacidade de produção, plantando espécies perdidas e delimitando áreas de proteção. “Cada um participando faz a diferença. A gente vê a empolgação das pessoas chegando e se empolga ainda mais”, diz uma produtora rural da comunidade.

Hoje, o Umbu voltou a florir assim como outras culturas como a Jurema, espécie nativa da região rica em proteínas e muito apreciada pelos animais, e o Maracujá do Mato, que antes não tinha função específica e agora é transformado em diversos produtos comercializados para todo o Brasil e exterior, por meio da Cooperativa Agropecuária Familiar de Canudos, Uauá e Curaçá (Coopercuc). A associação nasceu da união de 44 pessoas, sendo 24 mulheres e 20 homens que desejavam organizar sua produção e comercialização e, atualmente, já reúne mais de 300 cooperados.

“Se fosse para uma pessoa só fazer, não teria como. Então, com os mutirões, nosso trabalho vem se fortalecendo. A gente sente o entusiasmo da pessoa em querer ver, em conhecer e saber que ali tem um resultado”, contou o vice-presidente da Associação Agropastoril de Ouricuri, José Adailton de Souza Nascimento. “Antes eu sonhava em manter a caatinga em pé. Hoje me sinto realizado e aprendi muito no coletivo. Ele é a força de todo esse universo”, completa Alcides Peixinho, produtor de Maracujá do Mato.