Abaixo o achismo

Entrevistamos dois especialistas em gestão de dados, um do coop e outro do mercado. Ambos concordam: decisões baseadas em números serão sempre melhores e mais precisas

Farol Conteúdo
26/12/2022

O mercado brasileiro parece ter aceitado a máxima de que “os dados são o novo petróleo”. A pandemia certamente acelerou mudanças, mas a busca pela utilização de dados para tomadas de decisões rápidas e precisas já vinha crescendo. Hoje, a gestão guiada por dados (data driven management) consolida-se como estratégia eficiente de negócios em diversos setores da economia, impactando também o cooperativismo. 

Para melhor entender os resultados e os desafios trazidos pela decisão de gerir um negócio guiado por dados, a Saber Cooperar convidou dois especialistas no assunto: Danielle Franklin, diretora comercial da Scala — empresa do Grupo Stefanini com foco na implantação de abordagens tecnológicas que exigem alto grau de especialização em negócios —, e Robson Mafioletti, superintendente do Sistema Ocepar, Unidade Estadual do Sistema OCB que é referência no trabalho com dados. 

Confira os melhores momentos  da entrevista:

Robson Mafioletti, superintendente do Sistema Ocepar e Danielle Franklin, diretora comercial da Scala


Qual é a diferença entre uma gestão tradicional e uma gestão guiada por dados?

Danielle Franklin: Quando uma empresa ou organização consegue transformar dados em informações relevantes para o negócio, está fazendo uma gestão orientada por dados. Por exemplo: se eu quero saber como divulgar uma determinada campanha de marketing, com foco na sensibilização de um determinado público, eu deveria consultar meu histórico de vendas antes de tomar qualquer decisão. Fazer escolhas baseadas e guiadas por dados é exatamente isso: o gestor não toma decisões baseadas em achismo. Ele faz isso baseado em uma ou mais informações, construídas a partir de dados e estatísticas históricas, que facilitam a tomada de decisões futuras. 

Robson Mafioletti: A gestão guiada por dados é a que, do nosso ponto de vista, dá certo; é a gestão profissional. Não é possível tomar nenhuma decisão importante sem levar em conta uma série de dados, números e estatísticas. É certo que decisões tomadas por feeling [intuição] ou baseadas em experiências anteriores fazem parte do dia a dia de um executivo. Mas, quando essa decisão é tomada com base em dados, via de regra, ela é muito mais assertiva. Aqui no Paraná, as cooperativas que trabalham com a gestão de dados são as que obtêm os melhores resultados. 

Em quais setores da economia esse modelo de gestão tem sido utilizado com maior êxito?

DF: Há setores que estão muito mais avançados na gestão guiada por dados, como a indústria financeira. Tecnologicamente falando, a indústria financeira é o que chamamos de early adopter, ou seja, foi a primeira a adotar uma tecnologia de ponta. O varejo também largou na frente, até porque depende muito de dados para tomar decisões sobre o que comprar, quando comprar, quando mudar o preço etc. Mas, de uma forma geral, o mercado brasileiro já entendeu que “os dados são o novo petróleo”. O problema é que, para ser uma empresa com a cultura data-driven [guiada por dados], é preciso fazer investimentos que algumas instituições ainda estão receosas em fazer.

RM: Dentro do cooperativismo, os ramos Crédito, Saúde e Agropecuário são destaque. Nas cooperativas de crédito, todas as decisões são baseadas em dados — dos cooperados e do mercado; no ramo Saúde acontece o mesmo. O Sistema Unimed tem trabalhado muito com Inteligência Artificial (IA) e uso de dados para obter melhores resultados. Nas cooperativas do agronegócio, os dados são fundamentais para viabilizar a agricultura de precisão.  

O uso de dados também cresceu muito em diversas áreas internas das cooperativas, como na pesquisa e assistência técnica para os nossos cooperados. A área comercial é outra que utiliza bastante números e indicadores. Elas acompanham o mercado e as bolsas internacionais (Chicago, Nova York, B3, em São Paulo) para tomar decisões mais assertivas.  

Como saber se está na hora de investir em dados para melhorar a gestão de negócios? 

DF: A pergunta que o negócio tem que se fazer é: que tipo de informação eu gostaria de ter para tomar melhores decisões? Essa informação é essencial para o meu negócio? Se a resposta for sim, essa empresa ou cooperativa deveria investir em dados, com certeza.

RM: Negócios mais complexos, que precisam tomar decisões com mais informações, vão ser mais beneficiados pela gestão guiada por dados. Temos aqui, no Paraná, muito trabalho de agricultura de precisão. As cooperativas do Ramo Agropecuário têm de pôr a semente adequada, no local adequado, com a quantidade certa de  fertilizante e defensivo agrícola. Um negócio como esse com certeza vai se beneficiar de dados para a tomada de decisão. Já os negócios mais físicos, que têm mais atividades corriqueiras, via de regra, terão menos benefícios. Falo de atividades mecânicas, rotineiras, como o pessoal que cuida do cafezinho da empresa. 

Como agir em situações de contextos complexos, cujos dados não são conhecidos ou não há dados suficientes para uma análise completa da situação?

DF: O que fazemos como consultoria: entramos nas empresas fazendo o que chamamos de Assessment [um tipo de avaliação interna, que envolve relatórios, reuniões etc]. Nesses eventos,   sentamos com todas as áreas da organização — vendas, marketing, logística, contabilidade, entre outras — e entendemos o que essas áreas gostariam de ter como informações para insights; o que gostariam de saber. 

Depois, apontamos para eles que tipos de dados seriam necessários para ter aquela informação e mostramos como implementar a solução. Em seguida, cria-se um repositório que permita guardar e consultar esses dados facilmente. Ele precisa oferecer visualizações do passado e visões do futuro, usando estatística e matemática, ou seja, a famosa Ciência de Dados.

RM: Isso é um problema sério, mas acaba acontecendo. Até pela aceleração dos processos, com tomadas de decisão rápidas, é um problema não ter dados completos. Nesses casos, temos de usar o que têm [de dados] e buscar novas informações. No ambiente cooperativo, dialogamos muito.  Usamos a experiência de quem tem mais vivência no mercado como uma fonte de informação para tomar decisões mais assertivas, mas esse não é o melhor caminho. O ideal seria construir uma base de dados.

Visualizar dados e informações nem sempre é o suficiente, na hora de tomar uma decisão. É sabido que eles podem “mentir”, se não forem coletados e analisados da forma correta. Diante desse problema,  como transformar dados em conhecimento?

DF: Esta é uma pergunta excelente. Muitas empresas nos chamam para construir relatórios, dashboards, ou até para montar modelos matemáticos e estatísticos que ajudem a prever o futuro. O que muitas esquecem é que, antes de qualquer coisa, é preciso garantir que eles estejam visualizando um dado correto, realmente fidedigno ao histórico dos fatos. 

Muito antes de pensar em visualizar, é preciso pensar no que chamamos de governança de dados — uma política de controle que garanta que esses dados são verdadeiros, têm qualidade e estão seguros, já que refletem as informações sensíveis da sua empresa. 

Somente depois de construir essa governança, é possível ter certeza de que os dados são confiáveis e capazes de antecipar futuros. Uma empresa que fizer qualquer visualização ou previsão em cima de dados não organizados e sem qualidade pode prever algo completamente errado e levar o negócio ao caos. 

RM: Se você tomar uma decisão baseada em dados com dados ruins, sua decisão será ruim. É aí que entram os engenheiros, administradores, cientistas de dados e economistas. Eles precisam checar esses dados e organizá-los de forma lógica. Não dá para gastar energia, capital com dados se não forem confiáveis. É preciso realmente checar as fontes e a precisão dos dados. Esse é um desafio que temos. Nessas horas, um bom gestor, com experiência no setor onde  atua, faz muita diferença, pois se alguém mandar dados muito estranhos ou fora da curva, ele perceberá logo que a informação não está correta. 

Como o cooperativismo pode beneficiar as cooperativas e seus cooperados com ferramentas de inteligência de mercado (BI) e gestão guiada por dados?

DF: Uma boa prática de mercado é o compartilhamento de dados. Todas as cooperativas deveriam compartilhar os dados dos setores nos quais atuam entre si. Dessa maneira, elas estarão gerando informações capazes de beneficiar todo o cooperativismo.  

RM: O trabalho com dados pode beneficiar o cooperativismo de diversas maneiras. Analisando uma grande base de dados, teremos condições de tomar decisões mais precisas e acertadas, gerando melhores e maiores resultados para os nossos cooperados. Além disso, usando ferramentas de inteligência de mercado, podemos tomar decisões mais rápidas e efetivas, profissionalizando a gestão cooperativista. 

Estamos avançando na construção de uma base de dados unificada para as cooperativas do Paraná. Montamos uma Cooperativa Central de TI, chamada Uni-TI [criada em dezembro do ano passado], para que as cooperativas compartilhem o que for possível de informações, e façam uma gestão mais adequada de seus dados.

Existe algum campo econômico no qual a gestão guiada por dados não se aplique ou não seja viável? 

DF: Sinceramente, acredito que em todos os setores da economia existam dados que possam virar insight [inspiração] para decisões estratégicas de negócio. Tudo o que tem a ver com entender o comportamento de alguém tem a ver com dados. E em todas as áreas essa realidade se aplica. 

Vou dar um exemplo: será que o pessoal que cuida da limpeza não precisa saber a hora de comprar  material para o próximo mês? Como fazer uma previsão correta para não comprar nem a mais, nem a menos? Outro problema comum nesse segmento: quantas pessoas é preciso colocar dentro de um shopping na época do Natal para limpá-lo? Baseando-se no fluxo de pessoas e no histórico de consumo dos produtos de limpeza, é possível tomar decisões mais assertivas. E tudo isso são dados.

RM: Que eu saiba, não. Em qualquer campo do conhecimento ou da economia, é difícil tomar decisões sem estar baseado em dados. Isso vale tanto para a parte econômica quanto para a parte social de um negócio.

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