Caminho para um mundo melhor

Entenda como as cooperativas estão contribuindo para erradicar a pobreza e promover uma vida mais justa e sustentável para todos ao redor do planeta

Farol Conteúdo
04/07/2022

Em tempos de crise, as cooperativas confirmam sua vocação para construir um mundo melhor. Mais do que um modelo de negócios, somos um jeito diferente de gerar emprego, renda e novas oportunidade para quem coopera. 

As coops têm ajudado a promover o desenvolvimento sustentável das comunidades onde atuam, sem  deixar ninguém para trás. Esse, aliás, é um dos principais objetivos da Agenda 2030 da ONU – um plano global composto de 17 objetivos ambiciosos e interconectados, que buscam erradicar a pobreza e promover vida digna a todos, dentro das condições que o nosso planeta oferece e sem comprometer a qualidade de vida das próximas gerações.

São vários os atributos que fazem do cooperativismo um exemplo de construção de um mundo melhor para todos:  desde o jeito de trabalhar aos serviços oferecidos até o foco no cliente sem deixar de lado o próprio cooperado. 

Para conversar sobre os diferenciais do cooperativismo e sobre o que ele tem oferecer para o mundo, a revista Saber Cooperar entrevistou o embaixador do Cooperativismo pela Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO), Roberto Rodrigues, e a assessora responsável pela implementação de estratégia de cooperação descentralizada do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud) no Brasil, Ieva Lazareviciute.  

Saber Cooperar — Aproveitando o gancho do Dia Internacional do Cooperativismo 2022, como as cooperativas ajudam a construir um mundo melhor?

Roberto Rodrigues –  O cooperativismo é uma doutrina conhecida no mundo todo e, sem dúvida, é a doutrina que mais agrega pessoas no mundo inteiro. Nenhum partido político, nenhuma religião, nenhuma instituição, tem tamanha participação na atividade global do que o cooperativismo. E como é uma doutrina com princípios iguais em qualquer país do mundo, independente do regime de governo ou de opção religiosa, então ela tem realmente a condição de fazer o mundo melhor. Com uma das suas características principais: o cooperativismo é inclusivo. Ele inclui pessoas que estão fora do processo de desenvolvimento do mercado por condições econômicas, sociais ou políticas diferenciadas. Ora, pessoas excluídas, desesperadas, destroem a democracia, destroem a paz porque levam à revolução, ao descontentamento. Então, por ser um movimento inclusivo, o cooperativismo passa a ser um dos mais importantes fatores de defesa da paz social e da democracia. E hoje o que existe no mundo é uma certa erosão do processo democrático. É preciso resgatar isso e as cooperativas têm, pelo seu caráter inclusivo, uma condição notável para defender a democracia e a paz. 

Ieva Lazareviciute – Sem dúvida as cooperativas representam um mecanismo de atividade produtiva intimamente ligada aos conceitos da agenda 2030. Aos conceitos de um desenvolvimento mais holístico e um desenvolvimento que não deixa ninguém para trás. Digo isso porque as cooperativas, pela sua natureza, para palavra “cooperar”, já revelam uma construção conjunta. Uma construção conjunta no caso de bens econômicos que beneficiam todos os seus integrantes de uma forma mais direta. Esse é um aspecto. No segundo aspecto está o fato de as cooperativas estarem localizadas, muitas vezes, nos locais que estão mais distantes das grandes cidades, das grandes empresas. Estão nas áreas rurais ou olhando para uma parcela da sociedade que muitas vezes não possuem acesso aos serviços de grande porte, aos serviços mais complexos. Então, neste sentido, as cooperativas estão contribuindo para não deixar ninguém para trás, que o coração principal da agenda 2030. Dessa forma, as cooperativas, pelo seu jeito de trabalhar, e pela forma, pelo local, pelo tipo de serviço oferecido, pelo foco no cliente que está mais distante, elas representam exatamente um exemplo da construção de um mundo melhor para todos. 

Dentro do cooperativismo, fala-se muito que o coop é o modelo de negócios do futuro. Você concorda com essa avaliação? Por quê?

RR – O cooperativismo é o modelo de negócios do presente, pois inclui pessoas, reduz a concentração da renda, além de oferecer oportunidades e alternativas para os pequenos. Ele foi inovador no passado, é no presente e será no futuro novamente. A doutrina permite ao cooperativismo trazer para o mercado negócios inclusivos que melhoram as condições democráticas de participação de todos. Portanto já é um negócio importante e tende a ser cada vez mais um jeito diferente de fazer negócios, mais justo e mais ético, sobretudo em um mundo que sofre com a erosão do processo democrático. 

IL – Sim, eu concordo fortemente e acho que cada vez mais percebemos algumas tendências no mercado que reforçam a importância e a relevância do cooperativismo. Primeiro: a questão de princípios. A forma como as empresas atuam. Como o setor produtivo atua. Os valores que eles seguem, os princípios que embasam as atividades produtivas e que acabam virando fatores importantes além do lucro financeiro na avaliação dos investimentos, dos trabalhadores, dos clientes, de toda a cadeia. Com tendência de que aqueles que são mais sustentáveis, mais alinhados com princípios inovadores, princípios do futuro, acabam recebendo mais atenção de investidores e clientes que estão mais preocupados com as questões de sustentabilidade. E cada vez mais pessoas estão preocupadas com isso. 

Em segundo lugar, eu acho que também tem o fator da localização geográfica. Tem o aspecto de proximidade com as pessoas. Ter uma cooperativa na sua comunidade significa que, de um lado, tem um serviço de fácil acesso, e do outro mantemos os recursos na região, criando um movimento virtuoso de desenvolvimento regional. Neste sentido, acredito que as cooperativas fazem parte do modelo de negócios do futuro. 

Que paralelo podemos traçar entre os 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da ONU e o modelo de negócios cooperativista?

RR – Os ODS têm uma claríssima ligação doutrinária com o movimento cooperativista. Grande parte dos conceitos das ODS são parte integrante do DNA das cooperativas. Erradicação da pobreza, o cooperativismo trabalha intensamente a favor da erradicação da pobreza. Ou seja, está totalmente integrado. O segundo ODS, acabar com a fome, isso é o DNA do cooperativismo. Da mesma forma que o cooperativismo quer acabar com a pobreza, ele quer acabar com a fome, que é o maior flagelo universal e precisa ser eliminado. Então estamos integradíssimos. O terceiro ODS trata da defesa da saúde e do bem-estar, outro pilar de atuação das nossas cooperativas. Educação de qualidade também é um princípio do cooperativismo, assim como a igualdade de gênero. Há também nos ODS o fomento à energia limpa e acessível. As cooperativas fazem isso a todo tempo, em especial as cooperativas agropecuárias, que estão trabalhando a todo vigor com energia solar, eólica e biocombustíveis. O Brasil tem hoje 48% da sua matriz energética com energia renovável, enquanto a do mundo gira em torno dos 15%. Já o oitavo ODS fala em trabalho decente e crescimento econômico. O que propõem as cooperativas de trabalho? Exatamente o trabalho decente, de forma que haja um equilíbrio entre o trabalho e a qualidade de vida dos trabalhadores e das cooperativas. Resumindo, as cooperativas trabalham, hoje, com toda a Agenda dos ODS.

IL: Como falei anteriormente, o cooperativismo pensado bem, localizado bem, com produtos de qualidade, produzidos com tecnologia sustentáveis, inovadoras, trabalha para reduzir a pobreza por manter os recursos no local de produção, contribuem com a agricultura sustentável, que é uma ODS. Com segurança alimentar, as cooperativas podem contribuir com saúde, que é a ODS 3, podem contribuir com a educação, que é a ODS 4. Enfim, a gente pode listar todas as ODS. Podemos avaliar e identificar links muito diretos entre o modelo das cooperativas e as ODS. Claro que o escopo desse impacto positivo depende muito de como o negócio cooperativista é conduzido porque não basta ser só cooperativa para garantir que as tecnologias utilizadas sejam ambientalmente sustentáveis, ou que o produto será adaptado. De maneira em geral, o modelo cooperativista se aproxima do modelo de colaboração, cocriação, que é necessário para implementar a agenda 2030. 

 Na sua opinião, qual seria a receita para um mundo melhor?

RR – Essa pergunta é muito complexa. Eu diria que tem alguns valores essenciais na vida. Eu, durante um longo período da minha juventude, até da minha idade madura, tive muita dúvida sobre o sentido da vida. Claro que essa resposta nunca foi encontrada, nenhum grande filosofo encontrou. Na fé encontramos sentido para tudo, mas não havia uma resposta do ponto de vista social, econômico, político. Então deixei de olhar e buscar o sentido da vida e passei a ver as coisas com um viés contrário: diante do fato de que a vida é uma dádiva divina, que nos foi concedida por nossos pais, e que é tão espetacular que ao invés de procurar o sentido da vida decidir dar um sentido para a vida para justificar a dádiva que recebemos. E a resposta é simples: ajudando a fazer um mundo melhor. E como eu posso ajudar a fazer um mundo melhor, sendo apenas um agrônomo? Estudei um pouco mais e cheguei à conclusão que se todo mundo ensinasse o que sabe para todo mundo haveria um equilíbrio e o mundo passaria a ser melhor. Então ensinar passou a ser o meu objetivo. Então eu fui dar aula na universidade e com isso esperava estar dando um sentido para a minha vida. Isso fechou o clico virtuoso da minha vida: estamos aqui para aprender e, aprendendo, devemos ensinar a todos para que todos tenham a mesma informação. Ensinar a todos contribui para um mundo melhor. E fazer o mundo melhor é o meu sentido da vida. E esse é o caminho que tenho seguido até hoje, dando aulas nas universidades. 

Por outro lado, também me preocupei em buscar a felicidade. Qual seria o caminho da felicidade? Quais instrumentos deve-se buscar para ser feliz. Estudei muito e a conclusão que cheguei é que a felicidade é o canto de um pássaro que não se pode aprisionar. Mas que precisamos buscar ouvir o tempo inteiro. E depois de estudar muito, identifiquei que há dois caminhos pelo qual se pode chegar à felicidade. Um deles é o amor, e o outro é a justiça. E ambos no sentido mais geral possível. Praticar o amor e praticar a justiça. Cheguei a seguinte frase: a felicidade é uma viagem. Não é uma estação. É uma viagem dentro de um trem que anda sobre dois trilhos: do amor e da justiça. E o combustível do trem é a esperança de fazer um mundo melhor. A receita para um mundo melhor é procurar a felicidade coletiva. Na viagem da vida, sobre os trilhos do amor e da justiça, com a expectativa de fazer um mundo melhor. 

IL – não existe uma única receita para todo mundo. Cada país é diferente, cada cidade é diferente, cada empresa é diferente. Então a receita tem que ser customizada de forma mais adequada a cada situação para acelerar o desenvolvimento. Mas eu acho que existem alguns ingredientes em comum para o mundo inteiro como empatia, capacidade de analisar e aplicar as oportunidades de colaboração, respeito pelas diferenças, e o compromisso com uma mudança, com um mundo melhor, são absolutamente importantes. E, por fim, ousadia. Ousadia para inovar, testar soluções. Errar e procurar novos caminhos para chegar a soluções de funcionam e que mudem o jeito de atuar. 


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