Como inovar no cooperativismo?

Conheça as metodologias e ferramentas utilizadas por cooperativas que implantaram, com sucesso, programas de inovação

Farol Conteúdo
13/04/2022

O mercado está em constante mudança. Por isso, estar atento aos seus movimentos e, principalmente, trazer a inovação para dentro da cooperativa é um dos principais desafios para se manter competitivo no mercado. 

Mas afinal, o que é inovar? O presidente do Sistema OCB, Márcio Lopes de Freitas, está em contato constante com as principais cooperativas do Brasil e sabe da importância da inovação no setor.

Inovação não é inventar um chip novo de computador ou um novo aplicativo. Inovação está em tudo: está no simples e no óbvio. Está no social. E a relação é o grande mote para que [a inovação] aconteça”, afirmou durante a abertura da semana InovaCoop em setembro deste ano. 

Hoje grande parte das cooperativas já colocaram a mão na massa em projetos inovadores, utilizando ferramentas e metodologias imprescindíveis para se destacar no mercado. Uma pesquisa divulgada pelo Sistema OCB em março de 2021 trouxe perspectivas interessantes sobre a inovação dentro das cooperativas do país. A pesquisa mostra que, o que antes era visto como exclusividade nas indústrias ligadas diretamente à tecnologia, está sendo recebida com novos olhos pelo cooperativismo. Entre as quase 500 cooperativas que participaram da pesquisa, 84% afirmam que a inovação é importante para o crescimento e desenvolvimento do setor. 

As áreas em que as cooperativas mais inovaram, de acordo com a pesquisa, são, respectivamente, atendimento ao cliente (64%), marketing e comunicação externa (60%), tecnologia (53%) e comercial (45%). O impacto já foi sentido entre as cooperativas e cooperados: 88% delas obtiveram resultados positivos em 12 meses após implementarem projetos inovadores. Entre eles, destaca-se o aumento na agilidade dos procedimentos internos; maior crescimento na oferta de novos produtos e serviços; maior visibilidade e competitividade; e, claro, crescimento de faturamento – as cooperativas viram um acréscimento de 20%, de acordo com dados da pesquisa. 

Afinal, como inovar? 

Inovar está longe de ser uma missão impossível. Apesar de não existir uma fórmula específica, há muitas metodologias e ferramentas já testadas e aprovadas que podem impulsionar a inovação dentro de uma cooperativa. “Nós temos visto ao longo da história humana que fora da inovação não há solução durável. E, nas cooperativas, essa busca constante pelo aperfeiçoamento de seus processos, produtos e serviços é algo que faz parte do DNA delas. É isso que assegura que as nossas coops ampliem sua competitividade no mercado. Inovar é a resposta”, afirma Márcio Lopes de Freitas. 

Foi pensando nisso que o Sistema OCB preparou o livro Inovação no Cooperativismo, lançado em 2022. Um dos capítulos destaca as principais metodologias e ferramentas usadas dentro do setor, todas ao alcance de qualquer cooperativa que busque inovar. 

Dividido em Metodologias para Inovação, Ferramentas para Inovação e Ferramentas de Teste, o capítulo, estruturado por Samara Araújo, então coordenadora de inovação do Sistema OCB, surgiu da necessidade de adaptar instrumentos de gerenciamento à construção de novos projetos com agilidade, foco no cliente, flexibilidade e antecipação de estratégias.

Uma das metodologias mais importantes e que trouxe resultados satisfatórios no desenvolvimento de projetos inovadores entre as cooperativas é o Design Thinking (pensamento de design). Desenvolvida na década de 1990 na Universidade de Stanford, Estados Unidos, a metodologia possui três principais pilares (empatia, colaboração e experimentação) e quatro etapas principais, divididas no que ficou conhecido como Duplo Diamante: Descobrir, Definir, Desenvolver e Entregar. 

O primeiro passo, Descobrir, é onde se forma a estrutura do projeto. É aqui que se descobre o problema a ser solucionado e onde se pesquisa todas as informações necessárias para o desenvolvimento do projeto. No segundo passo, Definir, é preciso organizar e filtrar as informações coletadas na etapa anterior para se chegar a uma definição clara do problema. Em terceiro, já no segundo diamante, está a etapa mais prática: Desenvolver e criar a solução do problema identificado. Neste momento são feitas vários vários estudos de soluções até que uma seja selecionada, para então Entregar o produto na última parte, de preferência através de ferramentas de testes para corrigir erros que possam eventualmente surgir. 

Um case de sucesso com o uso do Design Thinking entre as cooperativas de crédito aconteceu na Sicredi Pioneira, em Nova Petrópolis, Rio Grande do Sul. Foi neste município de apenas 21 mil habitantes que um projeto inovador foi construído graças à junção dessa e de outras ferramentas de inovação. 

O gerente de negócios estratégicos do Sicredi, Jonas Rauch, destaca que a metodologia os ajudou a criar projetos que impactam diretamente na vida dos cooperados. Um exemplo é o Fidelidade Juntos, programa de fidelidade em que os associados adquirem pontos a serem trocados por brindes da cooperativa, isenção e descontos em serviços, e até por produtos da região, fomentando o comércio local.

Com o Design Thinking aumentamos o nível de engajamento, tivemos uma assertividade maior e conseguimos validar o projeto e ajustá-lo ao longo do processo”, diz Jonas. 

Para se chegar até o resultado final, a equipe de negócios da cooperativa uniu diversas metodologias e ferramentas de inovação além do Design Thinking, como o Design Sprint —uma forma de criar um projeto do zero e obter resultados em até cinco dias; e as ferramentas de testes, como Projetos Piloto, protótipos e o MVP (Mínimo Produto Viável), usadas para testar a solução antes de lançá-la definitivamente no mercado. 

Jonas explica que o olhar para o cliente, através do Mapa da Empatia, foi fundamental para construir o projeto em parceria com o cooperado.

Essas ferramentas e metodologias fazem parte da nossa caminhada para olhar a inovação de forma estruturada, pensar em como fazer diferença nos negócios e nos manter relevantes na nossa área de atuação. As empresas até então tinham o hábito de construir as soluções de forma mais fechada, olhando para dentro da cooperativa. Metodologias como o Design Thinking se propõem a trazer o associado ao centro da construção da solução”, explica. 

Outras cooperativas pelo Brasil também possuem cases de projetos inovadores. A Cocamar Cooperativa Agroindustrial, de Maringá, PR, foi apontada como uma das 10 mais inovadoras do sul do Brasil, segundo levantamento feito pela revista Amanhã em parceria com o instituto britânico IXL-Center. Para chegar a esse ponto, a cooperativa incorporou as ferramentas de inovação em programas de incentivo e ensino entre os colaboradores. O projeto Kaizen, por exemplo, foi criado utilizando o conceito do Lean Startup e Lean Six Sigma, ferramentas focadas na otimização do tempo e redução de custos ao elaborar soluções para determinados problemas. 

No dia-a-dia dos profissionais da Cresol, cooperativa de crédito presente em onze estados brasileiros,  termos como Business Model Canvas, Mapa de Stakeholders, benchmarking e Análise SWOT, além dos já citados Design Thinking e Design Sprint, são comuns. 

Business Model Canvas é uma ferramenta prática, em que se coloca em uma tabela informações essenciais da cooperativa, como palavras-chave, fontes de receita, principais parceiros e canais de comunicação, entre outros. Outra ferramenta muito utilizada pela cooperativa é a Análise SWOT (FOFA, em português), sigla para Strenghts (Forças), Weaknesses (Fraquezas), Opportunities (Oportunidades) e Threats (Ameaças). 

Buscamos, através da inovação, uma experiência do moderno. Apoiados em uma estratégia de negócios robusta e pautando as ações em nossos valores, através de processos, metodologias ágeis e do Laboratório de Inovação, impulsionamos a transformação digital e cultural com entregas de valor em todas as nossas esferas”, explica Andressa Bremer, gerente de projetos da área de MPS da Cresol Confederação. 

Andressa destaca projetos inovadores criados dentro da Cresol utilizando essas metodologias, como o lançamento de novos produtos de investimento (LCA), criação do Laboratório de Inovação dentro da cooperativa, melhorias no Seguro Prestamista e nos Produtos de Crédito, além de novos protótipos do Gerenciador Financeiro do Cooperado e da abertura de conta de forma totalmente digital.  

Para a Cresol, inovar constantemente não é benéfico somente para uma única cooperativa, mas para todo o setor. “A inovação no cooperativismo também desempenha um papel importante no crescimento econômico. A capacidade de resolver problemas críticos com inovações, especialmente em países em desenvolvimento, podem fazer toda a diferença em suas comunidades. Países com ecossistemas de inovação maduros desenvolvem-se mais rápido e tornam-se mais sustentáveis, têm a macroeconomia forte, reverberando o bem-estar em todas as camadas da sociedade”, afirma Andressa. 


Esta matéria foi escrita por Renato Crozzatti e está publicada na Edição 36 da revista Saber Cooperar. Baixe aqui a íntegra da publicação


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