Conexão inovadora

Sistema OCB lança programa para conectar cooperativas a startups com os objetivos de fortalecer a cultura da inovação no cooperativismo e gerar novos negócios, com redução de custos, aumento de produtividade, eficiência e faturamento.

Farol Conteúdo
01/10/2021

Trazer o novo à tona requer muito mais do que talento, disposição e recursos. Gerar ideias, criar soluções inovadoras para os dilemas de qualquer tipo de negócio, passa inevitavelmente pelo compartilhamento de informações, conhecimento e experiências, ou seja, inovar é também um processo de cooperação. 

Pensando nisso, o Sistema OCB lançou o Programa InovaCoop Conexão com Startups, em parceria com a Innoscience — consultoria especializada em inovação corporativa. A iniciativa pretende encontrar startups que possam solucionar os desafios que foram selecionados e são enfrentados atualmente pelo cooperativismo, estimulando a parceria entre elas e as nossas cooperativas.

“Inovação não é feita por uma pessoa sozinha; ninguém inova sozinho, sentado da sua cadeira. Ela é feita no coletivo e, se possível, com bastante diversidade de pensamento, de bagagem cultural, racial, regional, porque só enriquece os processos e faz mais ideias diferentes circularem, e novas ideias surgem. O InovaCoop Conexão com Startups está focado na inovação aberta1, com objetivo de olhar para fora e trazer as startups para resolverem  os desafios do cooperativismo”, destaca Samara Araujo, coordenadora do Núcleo de Inovação da OCB.

Na prática, o programa foi desenhado para reunir desafios compartilhados por várias cooperativas, para que a solução encontrada possa beneficiar o maior número possível delas. Por isso, o principal critério de inscrição foi a apresentação de um problema comum ou similar às necessidades de pelo menos cinco cooperativas. 

Do total de 30 inscrições recebidas, foram selecionados nove desafios de cooperativas e um do próprio Sistema OCB. Entre os escolhidos, estão o desenvolvimento de: tecnologia para planos de saúde; aplicativos de serviços; gestão de dados; pesquisa de satisfação e relacionamento; e rastreabilidade da informação. 

Integram o grupo selecionado cooperativas dos ramos de Saúde, Transporte, Trabalho, Agro, Energia e Crédito sediadas em estados das regiões Centro-Oeste, Sudeste e Sul do país. Muitos desses desafios têm potencial para escalar e suas soluções podem servir para cooperativas de outras regiões.

“É um modelo que se agrega e consegue dar uma estrutura para que as cooperativas consigam participar e solucionar problemas que, às vezes, são dores de diferentes cooperativas. Então, ter a capacidade de chegar a mais pessoas, a mais cooperados e a mais estados é um papel importante que as cooperativas têm nesse processo de dar mais visibilidade e se introduzir nesse mundo da inovação, trazendo isso para os cooperados lá na ponta”, destaca a head de inovação da Innoscience, Julia Mariné.

DIFERENCIAL COMPETITIVO  

Um dos desafios selecionados pelo InovaCoop Conexão com Startups com potencial para resolver os problemas de um setor inteiro é da Federação das Cooperativas de Trabalho do Rio Grande do Sul (Fetrabalho), em parceria com a Cooperativa de Trabalho, Produção e Comercialização dos Trabalhadores Autônomos das Vilas de Porto Alegre (Cootravipa); a Cooperativa de Trabalho Educacional Cooperconcórdia (Cooperconcórdia); a Cooperativa de Trabalho dos Profissionais Liberais do Brasil (Cooplib), e a Cooperativa de Transporte de Produtos Líquidos (Cooper Líquidos).

Esse grupo pretende disponibilizar ao público todo o portfólio de serviços das cooperativas em uma única plataforma. O objetivo é facilitar — por meio de aplicativo ou outro espaço de whitelabel2 e marketplace3 — a oferta dos serviços prestados pelo cooperativismo. 

Segundo a presidente da Fetrabalho, Margaret Cunha, a criação de uma plataforma única no Ramo do Trabalho é um desafio que já se arrasta há alguns anos, ampliado durante a pandemia. Com as medidas de isolamento social, muitas cooperativas tiveram dificuldades para expor seus serviços e tiveram que se readaptar para manter os clientes. 

“Estou muito feliz por termos sido selecionados, e mais ainda por representar a Região Sul. Somos um sistema, temos uma divisão de ramos, mas temos de nos ajudar entre nós. É uma realização finalmente concretizar um sonho que já vem há mais de três anos e não tínhamos condições de fazer sozinhos. Se as cooperativas não abraçassem essa ideia, não teria como formatar”, relata Margaret.

O desafio apresentado pela Fetrabalho e por afiliadas consiste na construção de uma plataforma B2C — modelo caracterizado pela venda de um produto ou serviço da empresa diretamente para o consumidor final. As cooperativas integrantes do aplicativo poderão expor seus serviços aos clientes de forma conjunta e ter melhor remuneração em relação a modelos tradicionais, já que serão proprietárias da plataforma e poderão exercer a governança sobre os investimentos. 

O grupo brasileiro se inspirou em um projeto desenvolvido por um grupo de cooperativas de trabalho sediadas nos Estados Unidos e tem por meta inserir as coops envolvidas na chamada economia de plataforma4. Além disso, o desenvolvimento desta solução será escalável para cooperativas de trabalho de outras regiões do país. 

A expectativa é que a plataforma dê mais visibilidade aos trabalhos prestados não somente para o consumidor final, mas também para beneficiar outras cooperativas.  “Acho que o aplicativo vai servir para que as cooperativas se enxerguem no mercado. Tem atividades que são importantes para o setor público e para os clientes, mas é importante que as cooperativas olhem para dentro e vejam a gama de serviços que podem ser contratados no próprio cooperativismo”, destaca Margaret.

SEGURANÇA JURÍDICA

Essa é a primeira vez que a Federação busca aproximação com startups. A entidade projeta um aumento de 20% no volume de negócios a partir das potenciais parcerias que poderão resultar do programa. A presidente ressalta, no entanto, que “cada produto novo tem um tempo de maturidade” e que o grupo pretende alcançar os resultados de forma gradual, “com tranquilidade e segurança jurídica”.

“O pessoal das startups é jovem, com ideias, olhares diferentes que vão poder nos ensinar. A gente quer entrar com eles nesse mundo para evoluir e trazer para dentro das cooperativas a inovação, a tecnologia. O mercado mudou e precisamos nos adaptar; ver o que está surgindo de novo e as possibilidades de sermos inseridos” complementa Margaret.

Para lançar o desafio, o grupo contou com o apoio da unidade estadual do Sistema OCB no Rio Grande do Sul, o Sistema Ocergs, que, por meio da Faculdade de Tecnologia do Cooperativismo (Escoop), está desenvolvendo o projeto de pesquisa “Cooperativas de Plataforma e Ambiente Jurídico”. Segundo o coordenador do projeto e Diretor-Geral da Escoop, Mário de Conto, a pesquisa aponta a intercooperação como uma das alternativas para a implementação de plataformas cooperativas.

“Nesse caso, a análise de modelos internacionais que realizamos serviu como base ao desafio, que permitirá que cooperativas de trabalho brasileiras ingressem na Economia de Plataforma, de forma que a propriedade e a gestão sejam de seus próprios associados”, comentou De Conto.

O pesquisador também reforça que o programa da OCB contribuirá para o fortalecimento da cultura de inovação no meio cooperativista. “Como pesquisador e entusiasta da Inovação no Cooperativismo, entendo que iniciativas como o Programa InovaCoop Conexão com Startups  são fundamentais para a disseminação da cultura da inovação e a implementação de iniciativas inovadoras no cooperativismo brasileiro”, comentou o diretor da Escoop.

GERAÇÃO DE NEGÓCIOS

Passada a fase de encontrar os problemas, o programa da OCB se debruça na missão de atrair startups interessadas em resolver as dores apontadas pelas cooperativas. Serão em torno de dois meses para receber as inscrições e conhecer as propostas dessas empresas.

O processo de triagem será feito pelas cooperativas e finalizado no Pitch Day — evento on-line para o qual avançarão de uma a três startups para cada desafio. O objetivo do evento é filtrar apenas uma startup para cada missão.

“É o dia do match (conexão), em que as startups se apresentam para as cooperativas como potenciais resolvedoras daqueles desafios”, explica Samara Araújo.

Desse momento em diante, aumenta a aproximação das cooperativas com as startups. No processo de conexão e imersão, os desafios começam a ser lapidados aos poucos rumo à solução. É definido um escopo de ação e firma-se um acordo para o desenvolvimento de um projeto piloto.5

“O primeiro resultado esperado é o impacto cultural da inovação no setor, no ambiente do cooperativismo. Abrir os olhos, se aproximar dessa nova forma de ver as coisas, se relacionar, não precisa fazer tudo do zero sozinho. Afinal, dá para contar com empresas mais jovens e focadas para trazer conhecimento e novas formas de trabalhar”, comenta Julia Mariné, da Innoscience.

A consultora também destaca a troca que ocorre entre o que uma startup pode entregar para uma cooperativa, e vice-versa. “As cooperativas do programa têm mais recursos financeiros, mais experiência em gestão, um negócio mais maduro; já as startups estão iniciando, têm uma forma de pensar mais flexível, mais rápida. No fim das contas, essa relação é de ganha-ganha, o processo costuma ser bem proveitoso para ambos os lados”, completa.

Mas o maior impacto almejado, tanto pelas startups quanto pelas cooperativas, é a geração de negócios, com redução de custos, aumento de produtividade, eficiência e faturamento. Por isso, o programa foi todo estruturado para proporcionar que, ao final, a startup possa se tornar uma fornecedora ou parceira das cooperativas envolvidas naquele desafio. 

“No mercado em geral, temos uma taxa de conversão de pilotos em negócio por volta de 10% a 15%. Com a nossa metodologia, cerca de 70% dos projetos desenhados são executados. Desses, por volta de 45% são contratados no final. Essa é a média dos mais de 300 pilotos que já desenvolvemos com as empresas”, destaca a consultora.

BONS FRUTOS

Essa é a primeira edição do programa realizado em parceria com a OCB, e a expectativa é de que as cooperativas cheguem ao fim do programa, previsto para fevereiro de 2022, com novo mindset (modo de pensar) e, principalmente, novos parceiros de negócios.

Algumas cooperativas já participaram de programa similar com a Innoscience e ainda colhem os frutos da parceria firmada com startups. É o caso da Unimed Vales do Taquari e Rio Pardo (VTRP), que atualmente tem parceria com nove startups, todas firmadas durante o programa de conexão. 

A cooperativa de saúde lançou seus desafios por meio do Projeto Innovation Unimed, desenvolvido com a Innoscience para selecionar startups de todo o Brasil que possam resolver diferentes problemas do Ramo Saúde. O projeto teve início em 2019 e já está na terceira edição. 


Entre os desafios lançados este ano pela Unimed VTRP, estão: 

  • acompanhamento, em tempo real, das solicitações dos clientes; 
  • gestão on-line da comercialização; 
  • inteligência na análise de laudos e exames;
  • tecnologias vestíveis para monitoramento da saúde dos clientes; 
  • soluções digitais em saúde; remuneração por performance de colaboradores; 
  • inteligência de dados para geração de oportunidades; e 
  • inovações na saúde.

Na primeira edição do Innovation, cinco startups fecharam negócio. Uma delas permitiu o desenvolvimento da telemedicina, antes mesmo da pandemia — o que levou a cooperativa ao pioneirismo nesse tipo de atendimento. A solução altamente escalável foi adotada por várias cooperativas da região e de outros estados.

Outro negócio fechado que rendeu bons frutos permitiu a otimização do contato com clientes inadimplentes — demanda que também cresceu muito durante a crise do coronavírus. E uma das soluções mais recentes desenvolvida por startup e utilizada atualmente pela Unimed é a Robô Laura, que auxilia, por meio de inteligência virtual, no pronto atendimento virtual de pacientes com sintomas gripais e de dengue. 

A cooperativa lançou ainda um hub de inovação que tem dois programas de aceleração e mentoria de startups com soluções em saúde. “Os maiores resultados não são mensuráveis. A solução em si é o maior ganho. Hoje temos maior agilidade nos processos, escalabilidade nas soluções e atingimos um ganho de marca enorme”, comenta a superintendente executiva Rosilene Knebel.

Segundo a superintendente, em 2020, 42% dos investimentos feitos pela Unimed VTRP foram para projetos de inovação. Em 2021, até o mês de julho, o percentual investido em inovação chegou a 24%. O volume investido e os resultados alcançados renderam à Unimed VTRP o título de cooperativa mais inovadora do ramo e da região. 

NA ORIGEM

A experiência da Unimed VTRP com startups foi inspirada na ação do Sicredi, que participou do programa da Innoscience em 2018 e 2019. Entre os desafios do Sicredi naquele momento estava iniciar o processo de transformação digital de seus processos e serviços.

“Esse programa de conexão de startups foi um dos primeiros movimentos da nossa transformação digital. Sabendo de todas as nossas dores internas, naquele momento a gente entendeu que uma das alternativas era se aproximar do ecossistema de startups, entender o modo como elas funcionavam, sua capacidade de adaptação, de aprender coisas novas todos os dias, para buscar soluções para o nosso negócio, entregando valor para o nosso associado”, conta Rodrigo Murari, especialista de Inovação do Centro Administrativo do Sicredi.

Inicialmente, os desafios lançados pelo Sicredi eram relacionados a questões internas, mais administrativas. Na primeira edição do programa, a cooperativa fechou negócio com cinco startups, de nove experimentos analisados; n. E na segunda edição, de onze pilotos, foram fechadas três conexões com startups

Hoje, o Sicredi tem estratégia própria de inovação com o já conhecido Programa Inovar Juntos e integra o AgTech Garage — considerado um dos maiores hubs de inovação focado no agronegócio da América Latina. A cooperativa parte também do hub de inovação do Instituto Caldeira, em Porto Alegre. 

“Foi com os bons aprendizados no programa que a gente passou a ter capacidade para aprender e experimentar sozinhos. Paramos de fazer eventos e passamos a disponibilizar o modelo como uma ferramenta customizada para as diferentes áreas de negócio da empresa, sob demanda dos times”, explica Murari.

Desde o início da jornada com as startups, em 2018, algumas conexões entre o Sicredi e essas empresas foram concluídas com sucesso, e outras continuam até hoje. Uma delas viabilizou a análise de perfil do associado no Sicredi Mob. A funcionalidade foi lançada em fevereiro do ano passado, antes da pandemia, e já atraiu muitos associados que tinham investimentos em outras instituições financeiras. Desde o início da parceria, a cooperativa já contabilizou mais de R$ 150 milhões transacionados por meio dessa funcionalidade.

A conexão com startups também rendeu otimização de processos internos, inclusive incluindo na área jurídica, que tem cláusulas bem rígidas. Ainda na área administrativa, o desafio de alcançar maior eficiência no registro de despesas com viagens de colaboradores do Sicredi foi solucionado pela startup Paytrack. A parceria tem rendido ao Sicredi em torno de R$ 1 milhão em economia por ano, sem contar os ganhos de uma experiência mais simplificada para o colaborador. 

“Antes, era feito tudo por e-mail e um sistema de requisição. Levava dias para ter o ressarcimento das despesas com hotel, passagem aérea, alimentação. Tinha inconsistências nos dados e era um trabalho bem moroso para ambas as partes, tanto para o colaborador, quanto para o time responsável. AE a Paytrack automatizou e digitalizou todo esse processo”, conta Rodrigo Murari.

A Paytrack está com a cooperativa desde a primeira edição do programa de conexão. E, como a relação é de ganha-ganha, a startup também relata os bons frutos que já colheu depois da aproximação com o cooperativismo. 

“Esses programas são oportunidade para as empresas que estão começando e querem se aproximar de grandes corporações. É quando as empresas estão abertas para algo novo ou têem necessidade de mudar algum processo”, disse Daniele Amaro, CEO da Paytrack.

Daniele reforça que o desafio das despesas e viagens corporativas trouxe melhor visão de produto, e que a parceria permitiu o desenvolvimento dos negócios da startup. Atualmente, o Sicredi é o terceiro maior cliente da Paytrack e cerca de 5% do faturamento total da empresa resultam do contrato com a cooperativa.

“Além de novas funcionalidades de produtos, o aprendizado está associado ao desafio de levar nossa tecnologia para inúmeras cooperativas na ponta, com suas próprias especificidades. Pretendemos criar novos produtos e serviços juntos, alinhados à gestão e ao pagamento de despesas corporativas.”, completa Daniele.

Para conhecer melhor o Projeto Conexão com Startup, assista ao vídeo que preparamos especialmente para você.

1 A inovação aberta é aquela realizada de forma colaborativa, com o envolvimento não apenas dos profissionais de uma empresa, mas de agentes externos, como clientes, fornecedores, institutos de pesquisa, órgãos públicos, startups e outras organizações.

2 Modelo de negócio no qual uma plataforma ou um serviço desenvolvido por uma empresa é revendido por outras empresas sem divulgação dos direitos autorais, ou seja, como se a inteligência por trás do produto fosse da marca que o revende.

3 plataforma de vendas que reúne produtos de diversos fornecedores em um mesmo local. 

4 Modelo econômico baseado em plataformas digitais, ou seja, em  ferramentas ou softwares disponibilizados na internet. A maioria delas funciona como um negócio colaborativo, onde, graças à participação massiva de usuários ou conexão de rede, um produto ou serviço é  trocado, comprado, vendido, alugado ou acessado. Entre as principais plataformas que hoje movimentam a economia estão a Uber, o IFoods e o Airbnb.

5 O MVP é a versão mais simples e enxuta de um produto ou serviço. A lógica é entregar a principal proposta de valor idealizada com o mínimo possível de recursos

Leia outras notícias da revista Saber Cooperar

  • 2020 © Somos Coop. Todos os direitos reservados.