De amor e de sonhos

Conheça a história de Celma Grace, fundadora da cooperativa Bordana, que superou a dor da perda para construir um projeto coletivo de empoderamento e geração de renda para mulheres bordadeiras, em Goiânia

Farol Conteúdo
19/11/2020

No momento mais difícil de sua vida, Celma Grace de Oliveira, 51 anos, buscou ajuda e inspiração nas duas figuras femininas mais importantes de sua jornada: a filha Ana Carolina, vítima de uma leucemia aos 10 anos; e a mãe, Maria José de Oliveira, hoje com 72 anos, uma apaixonada por trabalhos manuais. Com base na força dessas mulheres, ela criou e fundou a Bordana, cooperativa de bordado em Goiânia.

Tudo começou em 2007, após a morte de Ana Carolina, filha caçula de Celma. “Fui buscar nos sonhos dela, na minha história de vida, na história da minha mãe e das mulheres que admiro um novo significado para minha vida. Tenho uma longa trajetória ligada aos movimentos sociais, de resistência, de lutar por um mundo melhor para diminuir as desigualdades e contribuir para melhorar a qualidade de vida das mulheres”, lembra.

Antes de adoecer, Ana Carol acalentava o sonho de ser designer de moda, sempre gostou de artes manuais e tinha como brincadeira preferida fazer roupas para as bonecas. Uma paixão herdada da avó. E foi pensando nelas que Celma decidiu convidar outras mulheres para criarem —com ela — novos contornos, pontos e tramas para suas vidas.

 

MAIS INCLUSÃO

 

Crédito: Arquivo Pessoal

 

O embrião da Bordana surgiu como um projeto social de geração de renda para as mulheres, em especial mães solteiras e donas de casa. Celma convidou um grupo de moradoras do bairro de Caiçaras, onde ainda mora, em Goiânia, e começou a empreitada que mudaria a sua vida — e a de muitas mulheres — para sempre.

Eu queria me transformar, mantendo viva a memória da minha filha, mas fazendo algo que fosse bastante significativo. Porque eu tenho certeza de que era isso o que ela gostaria que eu fizesse”, completa. Uma ideia que foi amadurecendo e crescendo até chegar ao formato de cooperativa.

Desde o início, a intenção da Bordana era atender mulheres com dificuldades de se inserir no mercado de trabalho, que encontrariam no bordado uma oportunidade de trabalho e renda. Para levar o projeto adiante, Celma fez uma parceria com a incubadora social da Universidade Federal de Goiás (UFG) e recebeu apoio para estudar e dar início à cooperativa.

Quando começaram as atividades, a Bordana era formada por 10 mulheres. Já na fundação oficial, em 2011, eram 34. Atualmente, a cooperativa goiana conta com 21 mulheres e um homem. “Muitas mulheres acabaram saindo, porque mudaram de bairro”, conta.

 

DESAFIOS

 

Celma Grace, fundadora da Bordana

 

Hoje, com a cooperativa consolidada, Celma afirma que o desafio é incluir mais mulheres – em especial, as mais jovens. Segundo ela, muitas das cooperadas ainda são as fundadoras, com idade  média de 75 anos.

“Queremos repassar essa técnica do bordado manual — que é milenar — para mais mulheres, em especial às mães solo, que podem ter dificuldade no mercado de trabalho ou até mesmo de encontrar creches. As cooperativas oferecem oportunidade de trabalho e renda de forma muito digna para que a mulher possa conciliar as atividades laborais com o cuidar de si e da família”, afirma.

Um outro desafio da Bordana, na visão de sua fundadora, é alcançar melhores resultados financeiros.

A Bordana faz um trabalho belíssimo de inclusão social, e isso está sendo cumprido de forma muito concreta. O impacto na vida delas é muito grande. Mas o impacto econômico ainda é um desafio. Nós precisamos avançar”, afirma, destacando que o bordado, assim como o artesanato em geral, é um produto muito complexo de ser comercializado, precificado e de gerar maior produtividade. Outro problema é o reconhecimento, por parte do consumidor, do esforço e do trabalho para a geração do produto.

Queremos introduzir novas técnicas na cooperativa, com foco em um maior resultado financeiro”, diz, sobre o futuro.

Atualmente, a Bordana mantém uma loja no Shopping Bougainville, localizado em um bairro nobre da capital goiana. Com a pandemia e a consequente queda nas vendas, a cooperativa buscou formas de se manter no mercado por meio das redes sociais – em especial, o Instagram – e também fez parcerias com grandes marcas, como o Magazine Luiza, onde hoje mantém uma loja virtual.

 

PAIXÃO PELO COOPERATIVISMO
 
Crédito: Arquivo Pessoal
 

Celma destaca que, no meio da caminhada de construção da Bordana, descobriu sua paixão pelo cooperativismo. Ela acredita, entretanto, que muita coisa ainda pode (e deve) ser melhorada em nosso movimento – em especial, a intercooperação.

É preciso que as maiores [cooperativas] olhem mais para as menores e ajudem a fortalecer a ideia de cooperativismo enquanto modelo de negócio, para que mais pessoas possam participar e se beneficiar desse que é o modelo do futuro”, aposta.

“A gente já viu que, de forma individual e com base em um capitalismo ganancioso e sem escrúpulos que passa por cima de tudo, nossa sociedade não vai crescer.  É preciso pensar um novo modelo de negócios que faça inclusão social e econômica; que pense nas pessoas de verdade. E o cooperativismo faz isso.”

 

 DIVISOR DE ÁGUAS

É com essas palavras que Rosenelia Theiss, 65 anos, define a sua relação com a Bordana, de quem é cooperada desde a primeira reunião, em 2008.

Eu era muito tímida; não conseguia falar em público, sempre muito retraída. Na Bordana, nós fizemos vários cursos, fizemos exposições e, com isso, a vida foi mudando bastante. Pra mim, foi uma diferença da água pro vinho: antes e depois da Bordana. Aliás, não só para mim, como para a maioria das nossas cooperadas”, revela.

Na avaliação de Rosenelia, que não sabia a arte do bordado, a cooperativa foi uma “superação coletiva” para as mulheres que resolveram abraçar o projeto. “Para mim, foi uma válvula de escape. Fiz cursos, gostei muito de bordar. Agora, o bordado faz parte da minha rotina. Aliás, nessa pandemia, o trabalho manual foi a minha salvação, porque ele é terapêutico. Não podia sair de casa, então, eu ficava bordando.”

A cooperada Gleidy Marques, 53 anos, afirma que, antes de entrar para a cooperativa, bordava por conta própria, quando recebia encomendas. Agora, entretanto, a palavra-chave é união. “A gente trabalha juntas, unidas. Sou uma das donas da cooperativa, mas esse trabalho é em união. Fica mais fácil para lidar com as coisas. Você sempre tem ajuda. É muito aprendizado”, destaca.

Sócia fundadora da Bordana, Gleidy conta que, no início, as mulheres se reuniam, mas não sabiam direito o que queriam fazer. A partir das discussões em conjunto, chegaram ao consenso de criar uma cooperativa de bordado.

“A gente queria resgatar os pontos da vovó, que hoje em dia quase não se faz mais. E queríamos fazer o resgate do bioma Cerrado. Unindo as nossas ideias, chegamos a essa conclusão. Eu amei a ideia [de criar uma cooperativa] porque eu já bordava [ponto cruz], mas quase não trabalhava com o bordado livre.”

Para dar conta da missão, ela conta que, ao lado de outras cooperadas, foi buscar capacitação em bordado em uma associação na capital goiana. “O que a gente aprendia lá, trazia e ensinava na cooperativa”, revela.

E não foi só sobre linhas e pontos que Gleidy procurou saber mais. Foram nove meses de aulas sobre cooperativismo, com a ajuda da UFG; inúmeras palestras sobre gestão de negócios; atualização sobre ferramentas e programas de computador (como o Excel), e de conhecimento sobre o mercado e a concorrência.

A gente vai crescendo, como cooperado e como pessoa”, garante.

 

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 Vitrine nacional

O trabalho feminino e manual com linhas e agulhas desenvolvido pela Bordana foi destaque no Relatório de Gestão 2019 da OCB, que contou com os bordados feitos pelas mãos talentosas das cooperadas de Goiânia. O intuito era mostrar que os resultados do nosso sistema são como um grande bordado, feito ponto a ponto, com suor, risos, lágrimas e paixão.

Para Celma, foi um orgulho ilustrar um dos mais importantes documentos da OCB. “Eu tenho certeza de que esse é o caminho. Achei superbacana a OCB procurar uma cooperativa para fazer o trabalho [de ilustrar], especialmente o relatório, que é um momento tão importante e tem tanta visibilidade. É essa intercooperação que tem de existir e se fortalecer cada vez mais”, destaca.

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 Inspiração para livro

A história de vida de Celma virou inspiração e se transformou em livro. Um sonho feito de linhas é uma narrativa baseada em histórias reais de consultoras de uma empresa de cosméticos. De autoria da psicóloga e escritora de obras infantojuvenis Ana Carolina Carvalho, o livro foi lançado em setembro – mês em que se celebra o Dia Mundial da Alfabetização e da Educação Básica no Brasil. As ilustrações são de Andreia Vieira.

A autora ouviu muitas mulheres desbravadoras que superaram desafios, em diferentes partes do país, e escreveu a obra, uma espécie de “colcha de retalhos” feminina. Celma destaca que a empresa que escreveu o livro teve um papel muito importante de apoio à Bordana, em diferentes momentos. Em 2013, o cooperativa recebeu o Prêmio Acolher, destinado a apoiar consultoras que desenvolvem ações sociais. Além de R$ 15 mil para o projeto, Celma recebeu um ano de consultoria técnica como premiação. “Foi muito importante, porque a gente estava começando e aprendi muito sobre gestão e empreendedorismo social”, afirma.

Também por indicação dessa empresa, Celma chegou a ser finalista do Prêmio Mulher, da Revista Claudia, em 2015, destinado a contar a história de mulheres inspiradoras.

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Esta matéria foi escrita por Lílian Beraldo e está publicada na Edição 31 da revista Saber Cooperar. Baixe aqui a íntegra da publicação 


 

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