É possível ser competitivo e cooperativo ao mesmo tempo?

A saber cooperar foi atrás da resposta à pergunta que traz reflexões para cooperativas no Brasil e no mundo

Farol Conteúdo
12/09/2022

Competitividade: embora seja uma derivação da palavra competição, termo tem um significado bem diferente no mundo dos negócios. Ele trata da capacidade de uma empresa (no nosso caso, uma cooperativa) formular e implementar estratégias que lhe permitam obter e manter, a longo prazo, uma posição sustentável no mercado. E sustentabilidade econômica e social, como vocês sabem, tem tudo a ver com o coop.


Cooperativa competitiva é aquela que se vale da estrutura do modelo de cooperativa, que tem governança e gestão próprias, para concorrer no mercado, para agregar valor ao produto e para se tornar ainda mais atraente ao público externo”, explica Débora Ingrisano, gerente de Desenvolvimento de Cooperativas do Sistema OCB.

Ser competitivo no cooperativismo, na avaliação de Débora, é colocar no mercado um produto orientado para os desejos e anseios do consumidor. É ter um olhar estratégico e inovador, com foco em resultados, sem deixar de lado valores como a ética, a transparência e o cuidado com a comunidade.
O segredo para ser competitivo, sem deixar de ser cooperativo, está em reconhecer a linha tênue que separa a competitividade da competição.


Somos competitivos quando geramos resultados compatíveis tanto com os nossos valores quanto com as oportunidades disponíveis no mercado. Entrar na lógica da competição seria fazer de tudo para suplantar a concorrência, sem considerar os impactos dessas ações na vida das pessoas, no meio ambiente ou na economia local. E esse tipo de comportamento está totalmente desalinhado em relação aos valores do coop.

RITMO ACELERADO

As cooperativas estão inseridas em um mercado cada dia mais competitivo, no qual os consumidores estão mais informados, conectados, exigentes e conscientes do seu papel na cadeia de valores. Nesse contexto, quem gerar maior valor para o cliente terá as melhores chances de sobreviver.


Naturalmente, o modelo de negócio cooperativo, pautado pela colaboração e pelo compartilhamento, já carrega características de diferenciação”, considera o diretor-geral da Faculdade de Tecnologia do Cooperativismo (Escoop), no Rio Grande do Sul, José Máximo Daronco.


No entanto, salienta Daronco, é primordial avaliar até que ponto a cooperativa tem condições de responder às expectativas e preferências dos seus clientes e cooperados, comparativamente às novas soluções que se apresentam no mercado.


O aumento crescente da participação do comércio digital, e do uso de diferentes plataformas e tecnologias são exemplos de mudanças que aconteceram em ritmo mais rápido do que muitas coops conseguiram acompanhar”, argumenta.


Para o diretor da Escoop, o principal diferencial competitivo das cooperativas está no fortalecimento da sua identidade e do seu DNA, com foco nas pessoas e no relacionamento mais próximo com a comunidade e com os cooperados. Débora Ingrisano, gerente de desenvolvimento de cooperativas do Sistema OCB, concorda e acrescenta:

precisamos mostrar que somos éticos e sustentáveis, não apenas internamente, dentro do cooperativismo. Precisamos mostrar esse nosso jeito diferente de fazer negócios para toda a sociedade.”

FORÇA FÔLEGO

No Paraná, segundo maior produtor de grãos do país, 62% de toda a safra produzida passam pelo sistema cooperativo local. O estado é também líder na produção e exportação nacional de frango, respondendo por quase 40% desse setor, em que as cooperativas do Paraná são responsáveis pela metade desse montante. Só no setor agropecuário, o estado conta com 20 cooperativas, que, juntas, faturaram cerca de R$ 150 bilhões no ano passado.


Esse desempenho é resultado de um planejamento estratégico com alicerces e pilares que incluem os princípios do cooperativismo e estratégias de mercado, explica o superintendente do Sistema Ocepar, Robson Mafioletti. “Daí desenvolvemos vários projetos”, conta.

Faz parte do mapa estratégico do sistema paranaense um intenso investimento em centros de pesquisa e experimentação agrícola financiados pelos cooperados com o objetivo de encontrar o que há de melhor e de mais avançado em tecnologias para as propriedades rurais.

Nós estamos totalmente alinhados ao mercado. Não podemos cooperar se não tivermos conhecimento do objeto com que estamos trabalhando”, afirma Mafio-letti. “Trabalhamos de uma forma transparente, para ser firme hoje e lá na frente. A livreiniciativa tem competição, mas o nosso alicerce central é a cooperação, e nunca vamos nos desviar disso. Somos competitivos, sem renunciar aos nossos valores e princípios”, revela.


Questionado se o jeito cooperativista de fazer negócios — pautado pela ética e sustentabilidade — diminui a competitividade das cooperativas do estado, Mafioletti responde com tranquilidade: “cooperando, você pode até ir mais devagar, mas vai com mais força e fôlego.”

BONS EXEMPLOS


A cooperativa Castrolanda, uma das mais tradicionais no setor agropecuário do Paraná, mantém seus resultados a partir da integração dos valores de competitividade e dos princípios éticos de trabalho. Com mais de mil cooperados e 3,7 mil colaboradores, a empresa faturou, em 2021, R$ 5,9 bilhões em receita bruta, nos mercados de carne, batata, leite e agrícola.


É necessário entender que competitividade e cooperativismo não estão em polos distintos. A competição no mercado é, sim, necessária para o desenvolvimento, mas ficar refém exclusivamente dela pode trazer problemas enormes em longo prazo. Justamente por isso, as cooperativas vêm se mostrando como um excelente modelo a ser seguido pelas empresas tra-dicionais”, acredita Willem Berend Bouwman, diretor- presidente da Castrolanda.


Para ele, uma prova definitiva de que é possível ser competitivo sem deixar de ser cooperativo foi a criação da marca Unium — projeto de intercooperação que alavancou a participação de mercado de três grandes cooperativas do estado: Castrolanda, Frísia e Capal.


Da porteira para dentro, cada cooperativa tem uma característica específica no seu processo de produção e competitividade. Quando chegam na indústria, elas se unem para se tornar ainda mais fortes em relação ao mercado, sem perder a essência e os valores individuais de cada uma”, explica Bouwman.


Sempre em busca de maior competitividade, o diretor-presidente da Castrolanda conta que a cooperativa passou por um processo de reestruturação de seu plano estratégico em 2019. Estudos indicaram a necessidade de investir em gestão interna para crescer de forma ordenada e sustentável.


“Isso envolve, principalmente, ampliar ainda mais a relação com nosso produtor, fortalecendo nossos valores e permitindo que todos tenham as mesmas condições de desenvolvimento. Essa padronização é o que chama atenção do mercado, na minha visão”, conclui.

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CONHEÇA OS PILARES DA COMPETITIVIDADE COOPERATIVISTA

7 princípios

  • Adesão livre e voluntária
  • Gestão democrática
  • Participação econômica dos associados
  • Autonomia e independência
  • Educação, formação
  • e informação
  • Intercooperação
  • Interesse pela comunidade

Vetores de competitividade

• Capital humano qualificado
• Inovação
• Relacionamento próximo com o consumidor/cooperado
• Gestão otimizada
• Atenção aos movimentos de mercado


Esta matéria foi escrita por Janaína Camelo e está publicada na Edição 39 da revista Saber Cooperar. Baixe aqui a íntegra da publicação


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