Fazendo do limão uma limonada

Em entrevista exclusiva, dois expoentes do cooperativismo falam sobre as perspectivas do mundo pós-pandemia e sobre os desafios que serão enfrentados (e vencidos) por nossas cooperativas

Farol Conteúdo
25/02/2021

O ano de 2020 passou como um verdadeiro tsunami mundial. Varreu economias, empregos e até a vida de bilhões de pessoas em todo o mundo. As expectativas para 2021 são grandes: vacinas, reorganização, reconstrução. Porém, ainda haverá muita ressaca para ser curada e dificilmente a vida em sociedade será como era antes.

Grandes mudanças vieram como o teletrabalho, a digitalização dos processos e os novos hábitos de convivência social. O universo virtual chegou para ficar em todos os setores da vida em sociedade. Será que as cooperativas estão preparadas? O Brasil está preparado? O que podemos esperar?

Para responder essas e outras perguntas, convidamos dois expoentes do sistema cooperativo: o presidente do Sistema OCB, Márcio Lopes de Freitas, e o presidente da Organização das Cooperativas do Estado de Minas Gerais (OCEMG), Ronaldo Scucato. Confira:

Qual é a sua expectativa para 2021, em termos econômicos e políticos, tanto para o País como para as cooperativas?

Márcio Lopes de Freitas: Eu não tenho dúvidas de que o ano que vem será de grandes oportunidades. Não vamos nos iludir que teremos uma volta para a humanidade antiga, porque o que está acontecendo é uma transformação nos tecidos fundamentais da sociedade.  Ocorreram mudanças de valores, de princípios, instituições perderam força e houve um  fortalecimento da economia participativa. Eu antevejo o surgimento de uma nova humanidade, com novos interesses e novas oportunidades. E acho que o cooperativismo tem tudo a ver com essa nova humanidade, com essas novas gerações. Eu acredito muito nisso e acredito que nós — sabendo nos organizar e trabalhar com integridade, inovação e sustentabilidade — vamos continuar avançando no pós pandemia.  

Ronaldo Scucato: As expectativas são sempre as melhores. Como sempre digo, sou um incorrigível otimista. 2020 foi um ano desafiador, com dificuldades no ambiente político, queda no PIB e uma pandemia mundial. Apesar do agronegócio ter sobressaído, muitos empreendimentos sofreram demais com a crise. Contudo, a economia já começa a dar sinais de recuperação. Acreditamos que a tendência é de que tenhamos um pouco mais de estabilidade em 2021, na certeza de que o país voltará a crescer, apoiado pelo desenvolvimento das cooperativas. Esse é um setor que tem mantido crescimento mesmo diante de cenários improváveis, como os que estamos vivenciando. De nossa parte, continuaremos atuando incansavelmente em prol do desenvolvimento do setor, sabendo que com isso milhares de pessoas e a própria economia serão beneficiadas. Afinal, o cooperativismo é, de fato, a suprema esperança daqueles que sabem que há uma questão social a resolver e uma revolução a evitar. 

Quais deveriam ser as prioridades das cooperativas em 2021?

MLF: A principal prioridade é continuar trabalhando bem, como as cooperativas fizeram em 2020, sendo capazes de liderar com confiança e superação, fatores que ajudaram a mitigar os efeitos da pandemia. Então, acho que o primeiro esforço é no sentido de continuar com a cabeça erguida, com a certeza de que somos capazes de superar desafios, e encarar o ano de 2021 como o ano de superar os desafios. Tem muita coisa para ser feita. Não será um ano fácil, mas se as cooperativas permanecerem organizadas, unidas, vamos conseguir superar esses desafios e atravessar  2021 melhor do que como atravessamos 2020.

RS: As prioridades continuam sendo atuar pelo crescimento e desenvolvimento. Cada ramo tem suas peculiaridades, mas todos estão se organizando para continuar avançando também em 2021. De maneira geral, todas as cooperativas estão atentas às oportunidades advindas da profissionalização da gestão e adaptabilidade em relação às adversidades de mercado.

Quais desafios as cooperativas podem esperar para 2021?

MF: Eu acho que as ressacas da pandemia terão um efeito muito forte. Talvez a questão sanitária seja parcialmente resolvida, com as vacinas e com os erros e acertos das politicas públicas. Mas vai ficar para nós uma ressaca de um país que já vinha com uma dificuldade econômica e teve de gastar algumas centenas de bilhões de reais para se manter em pé durante 2020. Essa conta vai chegar e, não tenha dúvidas, de que ela será despejada na sociedade. Temos de estar preparados para isso. Temos de estar confiantes, mas preparados para um ano duro. Devemos ter menos crédito rural na praça, teremos que criar novos mecanismos para financiar a agricultura. Precisaremos  ter uma operação mais criativa e inovadora nas cooperativas de crédito para superar essa nova geração de startups e fintechs que estão surgindo. O cooperativismo terá de estar muito pronto e preparado técnica e profissionalmente para superar isso. 

RS: As cooperativas conseguiram enfrentar as incertezas de 2020 e vencer grandes obstáculos. No caso dos ramos Agropecuário e Transporte, especialmente o de carga, registramos crescimento acentuado. Outros ramos como o Crédito e a Saúde conseguiram se manter estáveis, fruto de gestões austeras e cautelosas. Já o ramo Trabalho, Produção de Bens e Serviços talvez tenha sido o que mais foi impactado pela pandemia, em virtude do ambiente do mercado de trabalho desfavorável. Por isso, creio que os obstáculos para 2021 tendem a ser menores, pois a estimativa para o PIB é positiva e a inflação, que cresceu em 2020, deve cair para a casa dos 3%. Somado a um maior controle das contas públicas, acredito que o ambiente de negócios tende a ser mais favorável para todos os segmentos da economia, considerando a possibilidade da implementação do plano de vacinação em todo o país. O grande desafio das cooperativas será exatamente se ajustar à nova ordem econômica e social, decorrente da pandemia.

Podemos esperar algum avanço em termos de políticas públicas para as cooperativas em 2021 ou ainda estaremos sofrendo com a ressaca econômica de 2020?

MF: Eu gostaria de falar que vamos ter progressos nas políticas públicas, mas vai ser um ano de jogar muito mais na retranca do que no ataque. Não que os avanços estejam descartados. Estamos prontos para as oportunidades e o Sistema OCB está muito organizado institucionalmente para defender a pauta cooperativista.

RS: Este ano teve um papel importante no tocante à percepção e constatação por parte do poder público e da sociedade brasileira em relação à importância do cooperativismo para o nosso país. É inegável a contribuição do ramo Agropecuário, responsável por mais de 50% da produção do país; o ramo Crédito socorreu as pequenas e microempresas com muito mais intensidade e agilidade do que os bancos. Acredito que esse contexto contribuirá para reforçar a inserção e ampliação do cooperativismo nas políticas públicas, com maior atenção aos agricultores familiares no setor agropecuário. O próprio ambiente político ficará, na minha opinião, mais favorável ao cooperativismo, por se tratar de um setor estratégico para o desenvolvimento econômico sustentável do país.  

Em quais projetos tramitando no legislativo vocês estarão de olho em 2021?

MF: Teremos uma conta econômica a pagar em 2021 e quem primeiro vai querer recompor o seu caixa será o governo, o Executivo Federal. Então me preocupa, em primeiro lugar, a Reforma Tributária. Temos que fazer um esforço muito grande, não para que a gente tenha um tratamento diferenciado, mas para que o ato cooperativo, a relação entre a cooperativa e o cooperado, tenha o adequado tratamento tributário, com justiça. Muitas vezes o poder público não reconhece o fato de a cooperativa ser parte do cooperado, então ele tributa duas vezes. Por isso, a preocupação pontual seria a Reforma Tributária e tudo que advém disso.

Além dessa, hoje acompanhamos pelo menos 800 projetos em tramitação no legislativo que influenciam a vida das cooperativas. Desses, nós elencamos na nossa agenda prioritária em torno de 60 projetos, em que o principal é a Reforma Tributária, mas que tem outros como a Reforma Administrativa, a possibilidade de as cooperativas participarem um pouco mais da força de trabalho nos processos de privatização, nos processos de “desinchaço” do Estado. Estamos acompanhando e preparados para esse jogo. 

RS: A atenção especial deverá ser dada à Reforma Tributária, uma vez que ela terá impacto em todo o setor produtivo, e não será diferente com o cooperativismo. Neste sentido, temos que estar atentos para que o previsto na Constituição Federal, ou seja, o adequado tratamento tributário ao ato cooperativo seja de fato implementado. Os projetos de lei que compõem e/ou comporão todo o processo da reforma tributária merecem não só nossa atenção, mas nossa atuação através da interlocução com o parlamento apoiada sempre pela Frencoop.  Aqui em Minas Gerais, estamos em permanente diálogo com os parlamentares, em todos os níveis, pois ainda que a legislação federal seja preponderante, ela influencia e impacta as legislações dos estados e dos municípios.

Dentre os segmentos das cooperativas, quais setores terão mais espaço para avançar em 2021 e por quê?

MF: Acho que todos os setores continuarão se desenvolvendo, com destaque para três ramos:  Agropecuário, Crédito e Saúde.  As cooperativas, hoje, são responsáveis por cerca de 54% da produção agropecuária brasileira. Outro setor com desempenho consagrado é o Crédito, que em 2020 cresceu acima dos bancos comerciais, e deve continuar assim em 2021. Afinal,  as cooperativas continuam inspirando confiança, tratando o cooperado como pessoa e não como número, e isso é um diferencial incrível nesse momento de crise.

Mais um segmento que já está se destacando é o da Saúde. Essas cooperativas estão no olho do furacão, passaram por problemas econômicos, por conta da pandemia e do cancelamento de contratos, já que muitos trabalhadores perderam sua fonte de renda. Só que, durante todo o ano de 2020,  nunca se ouviu uma queixa dos usuários desses sistemas. O profissionalismo com o qual nossas cooperativas de saúde lidaram com a pandemia superou todas as dificuldades econômicas e elas acabaram se fortalecendo.

RS: Acredito que os setores mais organizados e verticalizados, como é o caso de Crédito e Saúde, seguirão despontando na oferta de produtos e serviços de qualidade que trarão ainda mais segurança à população. O ramo agropecuário deve ter um bom ano, mas os resultados não devem alcançar as margens de crescimento históricas de 2020. Some-se a isso o fator seca, que pode impactar em até 30% os resultados da safra do café em 2021. Já as cooperativas de transporte de carga continuarão firmes, viabilizando as entregas e a logística em nosso país. Para os demais segmentos, será um ano de retomada, mas também considero que de boas perspectivas de modo geral.

Enquanto milhares de empresas fecharam suas portas, por conta da pandemia, as cooperativas continuam sendo constituídas e gerando emprego. Por que isso aconteceu?

MF: Na verdade, as cooperativas precisaram se manter muito ativas porque nossa principal responsabilidade é cuidar bem do nosso cooperado. Enquanto um banco comercial se preocupa em garantir o seu capital, uma cooperativa coloca como prioridade as pessoas. Por isso, elas continuam emprestando e criam produtos para ajudar seus cooperados a superar esse momento de crise.  Outro exemplo do cuidado das cooperativas com as pessoas é o setor agrícola. Em um frigorífico comercial, se o consumidor para de comprar frango, ele simplesmente para de comprar esse produto. Na cooperativa não. Afinal, o frango vem do cooperado e, se ela parar de comprar o produto, o cooperado ficará sem renda, e ele é o dono do negócio. Por isso, as cooperativas fazem tudo o que está ao seu alcance para  arrumar mercado para esse frango e manter a renda dos cooperados. Esse compromisso do cooperativismo com as pessoas é que torna o nosso modelo de negócios tão humano e sustentável.

RS: As cooperativas são empreendimentos sólidos, bem geridos e administrados de maneira coletiva e cautelosa. Nossas cooperativas seguiram se profissionalizando, buscando oportunidades em meio à crise e se destacando especialmente em função de sua proximidade com as comunidades locais. As cooperativas de crédito, por exemplo, em muitos municípios, sustentaram os comerciantes locais viabilizando linhas de crédito especiais para amenizar a crise econômica. O trabalho não parou, pelo contrário, tivemos que nos reinventar para seguir dando resultados. Por isso, em vez de demitir, seguimos admitindo e dando exemplo para o país.

Como as cooperativas podem ajudar na recuperação da economia do Brasil em 2021?

MF: As cooperativas têm um papel fundamental na economia e hoje já respondem por aproximadamente 8% do Produto Interno Bruto (PIB). Além disso,  elas têm um papel fundamental na disseminação de uma economia mais justa, por conta do seu compromisso com o desenvolvimento das comunidades onde estão localizadas. Onde existe uma cooperativa, o IDH [Índice de Desenvolvimento Humano] é maior. Afinal, a renda gerada por ela é utilizada na própria comunidade, realimentando a economia local de uma forma mais justa e sustentável.

RS: Fazendo o que elas sempre fizeram: seguir produzindo, atuando junto às comunidades, promovendo a distribuição de riquezas, a inclusão e o desenvolvimento de forma participativa. Dessa forma os resultados acontecem e são compartilhados com todos os membros que fazem parte do cooperativismo, beneficiando ainda todo o seu entorno. 

Na sua opinião, o cooperativismo soube administrar bem os obstáculos e mudanças impostas a todos em 2020?

MF: O ano foi complicadíssimo, mas as cooperativas deram conta do recado. É claro que muitas pessoas do nosso movimento estão com a asa quebrada, com feridas que ficaram da pandemia, mas não tenho dúvidas de que elas tiveram uma capacidade de superação muito forte. E isso foi motivado, em grande parte, nos princípios e nos valores do cooperativismo.

RS: Sim, tanto que os resultados foram favoráveis. Obtivemos destaque em diversos setores, inclusive segurando a balança comercial do país para que a queda na economia não fosse ainda maior.

O que levaremos de legado positivo de 2020 para 2021?

MF: Nossos legados serão união e organização. A cooperativa que soube cativar e unir os seus cooperados teve mais sucesso. E organização, ter processos, estratégia, ter planejamento. Esses dois fatores ficam como legados importantes nas cooperativas para o ano que vai chegar.

RS: Nosso legado é (e sempre será) o de colocar as pessoas sempre em primeiro lugar. Outro legado é o da adaptabilidade em qualquer contexto, graças a nossa capacidade de aprender, desaprender e reaprender, aprimorando e contribuindo para o desenvolvimento do país por meio da união e da cooperação.


Esta matéria foi escrita por Paula Andrade e está publicada na Edição 32 da revista Saber Cooperar. Baixe aqui a íntegra da publicação


Leia outras notícias da revista Saber Cooperar

  • 2020 © Somos Coop. Todos os direitos reservados.