Lição de resiliência

Entenda quais mudanças vieram para ficar no ensino fundamental, na opinião de dois presidentes de cooperativas que estão lidando de perto com os desafios trazidos pela pandemia da Covid-19

Farol Conteúdo
02/06/2021

A educação a distância, ao que tudo indica, continuará a fazer parte das escolas de todo o Brasil — ainda que em menor proporção — quando conseguirmos controlar a disseminação do novo coronavírus. As novas tecnologias ganharam maior importância nas vidas de alunos e professores, especialmente na rede privada de ensino, que, dificilmente, conseguirá retroagir a um modelo de aulas 100% off-line, feitas com o apoio apenas de quadro-negro e giz. 

Essa é uma das poucas mudanças trazidas pela pandemia de Covid-19 consideradas positivas pelos professores, pedagogos e especialistas em educação. Via de regra, eles percebem que a suspensão das aulas presenciais ampliou as desigualdades do ambiente escolar, criando um fosso entre os alunos com acesso às novas tecnologias e aqueles que sequer têm conexão com a internet. Outro problema complicado: conscientizar as famílias da importância de participar ativamente da vida escolar de meninos e meninas não apenas agora, durante a crise sanitária, mas durante todos os ciclos de ensino (infantil, fundamental e médio). 

Uma pesquisa da Secretaria de Política Econômica do Ministério da Educação estima que o fechamento das escolas durante a pandemia da Covid-19 pode trazer consequências por 15 anos na economia brasileira. Para conversar sobre esse tema, trouxemos duas referências dentro do cooperativismo educacional:  Elizeth Pelegrini, presidente da Cooperativa Educacional Magna (CEM), de Santa Catarina;, e Alaerte Martins, presidente da maior cooperativa de ensino da Bahia, a Cooperativa de Trabalho Educacional de Irecê (Coperil).; Confira!

Saber Cooperar: Como a sua cooperativa está lidando com os impactos da pandemia de Covid-19?  Vocês estavam preparados para as mudanças que ocorreram?

Elizeth Pelegrini: O ano de 2020 foi desafiador, comparado a todos os demais vividos, por conta da pandemia dae Covid-19. O segmento Educacional foi diretamente impactado;, os processos de prestação de serviço foram reestruturados, descobrimos o universo das ferramentas tecnológicas, incorporamos novas didáticas e metodologias de ensino. Os profissionais da educação se transformaram. Entendo que as cooperativas provaram mais uma vez sua eficiência, acompanharam as mudanças inovando e gerando crescimento para os associados e clientes.

Alaerte Martins: Nossa cooperativa vem lidando com muita perseverança, serenidade, busca de conhecimento e parceria entre os nossos cooperados e a sociedade. A pandemia foi algo inesperado, que trouxe situações desconhecidas. No entanto, apesar de ser algo novo, contamos com uma estrutura e gestão administrativa que nos permitiu enfrentar este momento.

Havia uma expectativa de que, em 2021, a pandemia se resolvesse, mas isso não aconteceu.  Você acha que as cooperativas estavam mais preparadas nessa segunda onda do que na primeira vez?

EP: Entendo que não só as cooperativas, mas os demais segmentos empresariais, aprenderam a trabalhar com o cenário de 2020 e se fortaleceram. As vivências e o conjunto de esforços que foram dispensados nos primeiros meses da pandemia causaram o amadurecimento e, consequentemente, o enfrentamento de problemas no futuro. Sem dúvida, ficamos mais resilientes e aprendemos a lidar com as incertezas.

AM: O que causou a maior dificuldade para o enfrentamento da pandemia foi o desconhecimento. Em que pese a segunda onda tenha surgido de forma mais agressiva, já temos mais de experiência, o que nos permite enfrentar 2021 com um pouco mais de tranquilidade. Tratando especificamente do Rramo Eeducacional, não tivemos mudanças, tendo em vista que as aulas presenciais ainda não foram autorizadas em nosso município. Então, seguimos com as metodologias e dinâmicas de educação aà distância,  mas aperfeiçoando cada dia mais essa nova forma de ensinar.

A importância da educação, da presença das escolas na vida das crianças e jovens, nunca foi tão debatida como agora no Brasil. Como você enxerga esse debate?

EP: Educação é o input para o crescimento do ser humano. Sem educação, as pessoas não se desenvolvem. Promover debates sobre a importância da educação é importante, porém não menos do que pensar e adotar mudanças no comportamento social dos profissionais da área, dos alunos e familiares. Trabalhar as políticas públicas para maior engajamento para desenvolver efetivamente a educação. A educação é fator preponderante para o crescimento das pessoas, das cooperativas e da sociedade como um todo.

AM: Esse é um debate necessário, porém tardio. Foi preciso perder para se falar, defender e mensurar a significância do processo de aprendizagem para o ser humano. Lamentável. E, apesar de o debate existir, percebemos ainda muita ignorância da população sobre o verdadeiro papel e importância das escolas na vida das crianças, o que se mostra em números:  muitas famílias tiraram os seus filhos das instituições de ensino e muitas estão mantendo essas crianças sem vínculo escolar, apesar de ser ilegal. E issto está sendo pouco divulgado pelos órgãos competentes.

O estudo on-line veio para ficar? Quais são as vantagens de desvantagens dessa modalidade de ensino aà distância?

EP: A pandemia corroborou para que o ensino remoto se consolidasse na rotina dos educandários. Observo que esse modelo elevou o aprendizado, promovendo o crescimento do desempenho cognitivo dos alunos. Em contrapartida, observamos que houve a perda no desenvolvimento das inteligências sociais e emocionais.

AM: O estudo on-line sempre existiu, apenas não dávamos a ele a importância devida. As vantagens são sempre a flexibilidade de horários e o desenvolvimento da autonomia. As desvantagens são a falta de interação com colegas e professores, além de que o acesso a determinadas ferramentas, em certas idades, deve sempre ser supervisionado, considerando os riscos oferecidos.

Você acha que haverá um déficit de aprendizado nas crianças e nos adolescentes nesses dois anos de pandemia? Se sim, como podemos minimizar esse dano e quais são os impactos que ele pode trazer no futuro do País?

EP: Do ponto de vista das cooperativas educacionais, entendo que houve evolução no desenvolvimento cognitivo dos alunos. Porém, o desenvolvimento social e emocional ficou deficitário. Devemos dispensar parte da nossa energia em trabalhos e projetos de estudos de meio que estimulem o desenvolvimento dessas habilidades de convivência social e o fortalecimento emocional dos educandos.

AM: O impacto de uma pandemia não poderá ser mensurado em tão curto espaço de tempo, pois em pouco mais de um ano ainda não conseguimos sair dela. No entanto, já existem pesquisas que apontam para possíveis danos em diversos aspectos na vida das crianças e dos adolescentes, e a falta da escola é um desses impactos. Inicialmente, a forma de minimizar esstes danos é por meio através do acolhimento socioemocional e da busca da recuperação da aprendizagem nesse período. Mas, apenas com o tempo, ao termos real conhecimento dos danos e de suas extensões, poderemos também traçar melhores estratégias de minimização desses impactos.

O que as cooperativas escolares têm feito para garantir a segurança dos colaboradores e dos alunos que estão optando pelo ensino presencial?

EP: As cooperativas aderiram aos planos de contingenciamento dos seus estados, obedecendo às especificidades dos protocolos de biossegurança.

AM: Os nossos colaboradores que estão atuando de maneira presencial seguem o nosso protocolo de biossegurança, estudado e aprovado pela Vigilância Sanitária do município. Nossa estrutura física passou por adaptações para adequação após a vistoria realizada por esse órgão. Além disso, promovemos oficinas de conhecimento e treinamento.

Não existem alunos no ensino presencial em nossa cooperativa. Todos estão em ensino remoto. No entanto, acreditamos que uma das formas de enfrentamento da pandemia é a conscientização e o conhecimento. Dessa forma, já estamos trabalhando com os nossos alunos, para que, quando estivermos autorizados a recebê-los presencialmente, estejamos todos mais adaptados ao que a realidade requer.

Você acha que a relação família/escola/professor vai mudar depois da pandemia?

EP: Percebo que a nossa sociedade, de forma geral, está se adequando a um novo modelo de comportamento social, revendo valores e posicionamentos. Nada como a adversidade para nos ensinar.

AM: Sim, e para melhor. A comunicação entre família e escola aumentou muito durante a pandemia, pois foi preciso estar mais próximo delas. A família se abriu mais para a escola, dividindo com ela seus medos, suas dificuldades e suas angústias.

Muitas famílias não estão conseguindo conciliar o ensino on-line com o home office. Que recado você daria para elas?

EP: O ensino remoto exige muita disciplina e precisa que os pais ou responsáveis criem uma rotina de estudos para seus filhos. Ressalto a importância de incentivar a autonomia dos seus filhos.

AA: Eu diria que é preciso ter calma e compreender que, on-line ou presencial, acompanhar os filhos sempre foi uma atribuição da família. A escola faz a parte dela, mas o acompanhamento de uma rotina eficaz de estudos depende da orientação e da parceria da família, sempre.

Quais são as suas expectativas para o futuro do cooperativismo na educação?

EP:  Todos os segmentos do cooperativismo estão radicados e em franco crescimento.

Considero algumas tendências no universo educacional. S, são elas: promoção do conhecimento através de metodologias que utilizam as tecnologias como cooperadora nesse processo; aprendizagem mais acessível, envolvente e personalizada; currículo mais flexível, que proponha o engajamento dos estudantes e, por fim, foco na educação inovadora, que leve em conta o contexto no qual os alunos estão inseridos e os prepare para os desafios do mundo.

AM: O cooperativismo, em todos os ramos, é um modelo de negócio em constante ascensão. Acredito que, no segmento da Eeducação, estamos enfrentando grandes desafios, pois ele foi muito impactado pela pandemia. Mas, como uma das características do cooperativismo é assumir o ônus e o bônus, estamos lidando com essas dificuldades. Esta realidade propõe aos cooperados aumentar o senso de pertencimento, lutar pelo seu negócio, e buscar a sua permanência e a conquista de mais espaço no mercado. Dessa forma, acredito que teremos uma nova realidade, ainda melhor, para o cooperativismo escolar quando essa crise sanitária for controlada.  


Esta matéria foi escrita por Paula Andrade e está publicada na Edição 33 da revista Saber Cooperar. Baixe aqui a íntegra da publicação


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