Mão dupla

Cooperativas do Paraná vestem a camisa da intercooperação e fortalecem o setor em diferentes ramos.

Farol Conteúdo
30/09/2021

O paranaense Aucenir Ribeiro de Assis largou o campo para virar motorista autônomo há 10 anos. Morador de Jesuíta, município no interior do Paraná, precisou viajar por todo o Brasil levando diferentes tipos de carga. Na última década, precisou fazer diversas manutenções caríssimas no veículo. Mas, no ano passado, a situação apertou: depois de milhares de quilômetros rodados país afora, estava na hora de aposentar seu companheiro de estrada e adquirir um caminhão novo. Foi graças à intercooperação entre a cooperativa em que é associado — a Cooperativa de Transporte de Cafelândia (Coopercaf) — e o Sicredi Nossa Terra que essa troca foi possível.  

De acordo com a Federação das Empresas de Transporte de Cargas do Estado do Paraná (Fetranspar), mais de 18 mil caminhoneiros passam pelas estradas do estado durante o ano. Tal qual seu Aucenir, muitos deles precisam trocar peças, o caminhão e/ou a carreta por uma versão mais atual para continuar trabalhando. A burocracia e as altas taxas de juros de muitos bancos poderiam tornar o crédito inviável para um motorista autônomo. Mas, graças à intercooperação entre cooperativas de transporte e de crédito, esse empréstimo é possível – e acessível. 

“A intercooperação facilita muito o acesso e as oportunidades para o associado”, diz Aucenir. As duas principais vantagens desse tipo de parceria para o cooperado são a facilidade para negociar o crédito e os juros mais baixos. “Uma pessoa como eu, de baixa renda, não conseguiria se enquadrar para conseguir o crédito que precisava em um banco tradicional. Graças à minha cooperativa e ao Sicredi, consegui o empréstimo que precisava, a juros acessíveis. É uma grande parceria e uma grande oportunidade para todos nós”, relata.  

APOIO MÚTUO

A Coopercaf congrega, hoje, centenas de motoristas como Aucenir. Ela tem a intercooperação como um de seus princípios para o crescimento, tanto da cooperativa como para os cooperados. Prova disso é que presta serviços de transporte, principalmente, para cooperativas, como a Copacol, localizada na região sudoeste do Paraná.

Aliás, foi dentro da Copacol que a Coopercaf foi fundada, há cerca de 25 anos. Hoje, a cooperativa de agronegócio é responsável por mais de 80% do serviço de transporte fretado, segundo o presidente da empresa, Edson Zonta. Ele relata que, de 1998 pra cá, sempre houve essa parceria entre as duas cooperativas. “A intercooperação estimula um maior faturamento dos associados e a Copacol não precisa correr atrás de ninguém para fazer o transporte dos produtos”. 

Segundo o contador da Coopercaf, Marcelio Koehler, antigamente, os motoristas autônomos sofriam para arranjar trabalho na região durante a entressafra. A situação mudou com a chegada da Coopercaf e das demais cooperativas de transportes. 

“Nossa região é totalmente agrícola. Se o motorista era daqui, precisava buscar trabalho em outros estados para conseguir manter a renda quando terminava a safra daquele ano”, diz Koehler. “Antes, a demanda era de um ou dois meses no ano. O benefício de se associar a uma cooperativa é que tem trabalho o ano todo.” 

A parceria entre as duas cooperativas tem gerado inúmeros frutos, inclusive para a Copacol. Fundada em 1963 no interior do Paraná, a cooperativa reúne os principais produtores de frango e peixe do estado. Atualmente, conta com 6 mil cooperados e exporta os produtos para todo o Brasil e mais de 50 países. 

De acordo com o superintendente de logística da Copacol, Itamar Ferrari, esse número só foi alcançado graças à cooperação entre cooperativas. “A intercooperação nada mais é do que ser atendido por uma cooperativa de uma área ou de um ramo que não é o meu. Serve para que elas, cada uma no seu segmento, se fortaleça ainda mais”, diz, destacando a parceria de décadas com a Coopercaf. “Antigamente, eram motoristas individuais que trabalhavam conosco. O que viram lá atrás foi a necessidade de criar uma cooperativa de transporte, para atender a Copacol e os próprios cooperados.” 

ALIANÇA NO SUL

A intercooperação da Copacol se estende a outras cooperativas do Paraná. Além da Coopercaf, tem forte parceria com a Cotriguaçu, focada em contêineres; com a Frimesa, maior central de cooperativas de abate e processamento de suínos do Paraná e uma das maiores empresas do Brasil de recebimento de leite; e com a Coagru, da agropecuária. 

Ferrari destaca, ainda, a intercooperação feita com as cooperativas de crédito. “A Sicredi Nossa Terra, de Cafelândia, iniciou suas atividades como um braço financeiro dentro da Copacol”, diz o superintendente, salientando que a maioria dos associados da Copacol também são associados de alguma instituição de crédito, como Sicoob, Cresol e Sicredi. 

O Sicredi, por sua vez, possui cooperativas entre as 10 maiores de crédito do Brasil, como Sicredi Central PR/SP/RJ, Sicredi Vanguarda PR/SP/RJ e Sicredi União PR/SP.  O Sicredi Nossa Terra PR/SP, braço sudoeste paranaense da cooperativa, surgiu em 1988 com o nome de Cooperativa de Crédito Rural (Credicopa), formado por 47 agricultores da Copacol. Em 1999, se desvinculou da cooperativa-mãe e, em 2008, passou a se chamar Sicredi Nossa Terra. Hoje, além da região de Cafelândia, atende cooperados de outros 13 municípios do Paraná e de São Paulo, tanto da agropecuária como do transporte. 

Maura Carrara, presidente do Sicredi Nossa Terra, destaca a importância da intercooperação com cooperativas do interior do Paraná, com destaque para as cooperativas de consumo, canavieiro e de transporte, para um efeito dominó na expansão das demais cooperativas locais.

“A intercooperação sistêmica assegurou especialmente o fortalecimento, o ganho de escala e a segurança que o setor exige. E, na soma de tudo isso, quem ganha são os associados e as comunidades com cooperativas pujantes”, afirma. 

ROTA DE CRESCIMENTO

Já em Curitiba, um trabalho de intercooperação entre cooperativas de transporte e de crédito tem rendido frutos importantes para os trabalhadores autônomos. A Transpocred, cooperativa de crédito de Santa Catarina, chegou ao Paraná em 2018 e, até o ano passado, já se expandiu para municípios do interior, como Cascavel, Londrina e Maringá, com previsão de começar a operar em Foz do Iguaçu ainda este ano. 

Focada em crédito para cooperados do Ramo Transporte, a Transpocred abriu um posto de atendimento junto ao Sindicato das Empresas de Transporte de Cargas no Estado do Paraná (Setcepar). Além de atender seus associados, tem feito um trabalho conjunto com os motoristas autônomos ligados à Federação das Empresas de Transporte de Cargas do Estado do Paraná (Fetranspar). 

Mas o foco está entre as cooperativas de transporte do estado. O gerente da Transpocred em Curitiba, Jacson Melo, destaca o desejo de ampliar ainda mais o alcance entre os associados paranaenses. Hoje, atua fortemente com três cooperativas de cargas e transporte rodoviário no Paraná: Cooperleste, em Piên; Cooplog, em Maringá; e a CTA, em Astorga. “Mas o desejo é expandir cada vez mais no estado, e queremos nos aproximar das outras 32 cooperativas de transporte”, diz Jacson.

Atualmente, a cooperativa conta com 2.258 cooperados (pessoas física e jurídica) em todo o Paraná. Desde 2018, já liberou mais de R$ 67 milhões em operações de crédito no estado, relacionados a empréstimos e financiamentos. Segundo Jacson, cooperativas de crédito como a Transpocred “são importantes porque são segmentadas, ou seja, nascemos dentro da área de transporte e sabemos como o negócio funciona. Temos conhecimento dos produtos e serviços que casam com eles, como os tipos e preços de caminhões novos e usados, como funciona o capital de giro, assim por diante. Por isso conseguimos oferecer créditos a valores mais baixos para os motoristas”. 

EM ALTA

Apesar da pandemia de Covid-19, o ano de 2020 trouxe alguns resultados benéficos para as cooperativas paranaenses. De acordo com levantamento feito pela área de monitoramento do Sistema Ocepar, no Paraná, as 59 cooperativas agropecuárias do estado tiveram um crescimento de 36,7% no ano passado, com valor que superou R$ 100 bilhões — número alcançado graças à intercooperação.

A intercooperação é considerada o sexto princípio fundamental do cooperativismo, segundo o congresso coordenado pela Aliança Cooperativa Internacional (ACI). De acordo com o superintendente do Sindicato e Organização das Cooperativas do Estado do Paraná (Ocepar), Robson Mafioletti, a intercooperação é fundamental para o ganho em escala. “Quanto mais cooperativas estiverem juntas, maior é a quantidade produzida, e até mesmo a aquisição de insumos e matérias-primas. Isso reflete na qualidade e no valor dos produtos e serviços ofertados pelos cooperados”, diz ele. 

Mafioletti destaca o trabalho feito pela Transpocred, de Santa Catarina, e a parceria com a Fetranspar e Setcepar; e a Evolua, cooperativa de crédito de Francisco Beltrão, no sudoeste paranaense, trazendo inúmeros benefícios para seus associados.  “[A intercooperação] foi importante para trazer crédito. Afinal, esse é o insumo de qualquer negócio e qualquer empreendimento”, afirma. 

O superintendente ainda ressalta a intercooperação entre outras cooperativas agropecuárias do estado, como Castrolanda, Frísia e Capal — responsáveis por leite, carne suína e trigo, respectivamente —, e que formaram a Unium. Com menos de quatro anos de existência, o faturamento em conjunto das três cooperativas cresceu 21,6% e o número de cooperados aumentou em 45,5%, se comparado com 2014, segundo relatório da própria marca. Outro destaque é a Cotriguaçu, central logística ferroviária formada por Coopavel, Copacol, Lar e C. Vale, que investiu R$ 300 milhões para a construção do novo corredor de exportações no Porto de Paranaguá.  

BRASIL MAIS COOPERATIVO

Na manhã de 25 de junho de 2021, lideranças cooperativas das regiões Sul e Nordeste se reuniram com técnicos de entidades; com o presidente do Sistema OCB, Márcio Lopes de Freitas; o representante do Instituto Interamericano de Cooperação para a Agricultura (IICA), Cristian Fischer; e o Secretário de Agricultura Familiar e Cooperativismo no Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, Fernando Schwanke, para debater o Projeto Eixo Intercooperação do Programa Brasil Mais Cooperativo. 

O projeto é um exemplo de como a intercooperação pode ajudar as cooperativas de diferentes regiões e áreas, inclusive do outro lado do país. Liderado pela OCB e pelo Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa), foram reunidas 24 cooperativas de sete estados do Nordeste com nove cooperativas dos três estados do Sul. Segundo o superintendente da Ocepar, Robson Mafioletti, as reuniões já estão avançadas e esperam que os trabalhos de intercooperação do projeto comecem em breve. “Temos várias possibilidades de parcerias. São cooperativas agropecuárias e que poderão comercializar os produtos do Paraná para a Região Nordeste, incluindo hortifrúti, queijos, carnes e mel”, diz. 

De acordo com o presidente do Sistema OCB, essa é uma iniciativa importante de incentivo à intercooperação. “Não será fácil, mas valerá a pena quando cumprirmos com esse processo de integração. Uniremos esforços para que as cooperativas possam trocar informações e se desenvolver de forma conjunta. Precisamos de resiliência, e o apoio do governo é fundamental como alavanca, além da parceria com o IICA, que poderá abrir portas para outras integrações. Agradeço a cada uma das cooperativas que aceitaram o convite desta parceria”, frisou o dirigente.

Apesar de o programa não contar com cooperativas de crédito da Região Sul, quem trabalha no setor vê a iniciativa com otimismo. Jacson Melo, gerente da Transpocred, afirma que tanto as cooperativas de transporte como as de crédito serão beneficiadas indiretamente. 

“O Brasil Mais Cooperativo é focado nas cooperativas agrícolas. Mas, a partir do momento em que aumentarem o rendimento graças ao incentivo de programas como esses, os motoristas terão mais trabalhos, terão uma demanda ainda maior por novas peças e veículos, e, consequentemente, aumentará a busca por crédito”, completa. 

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Esta matéria foi escrita por Renato Crozatti e está publicada na Edição 34 da revista Saber Cooperar. Baixe aqui a íntegra da publicação

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