Novas oportunidades para o mercado de peixe

Cooperativas se organizam para ampliar a produção e vendas de pescados. Melhorias na gestão de insumos e na logística de vendas ajudam a superar desafios

Farol Conteúdo
01/08/2022

O período de pandemia alterou nossa sociedade em muitos aspectos — entre eles, o perfil de consumo de alimentos da população mundial, que, diante do período pandêmico, se voltou para questões de saudabilidade, rastreabilidade e qualidade. Atentas a isso, as cooperativas da área de aquicultura estão investindo na cadeia produtiva e na prospecção de novos mercados. 

No Brasil, a tilápia é a espécie mais cultivada, por ser um peixe de água doce que se adapta muito bem em tanques. Os dados da Associação Brasileira da Piscicultura (Peixe BR), referentes a 2021, apontam que foram produzidas 534 mil toneladas, representando um aumento de 9,8% sobre o desempenho do ano anterior. A tilápia participou com 63,5% da produção nacional de peixes de cultivo. As exportações aumentaram em quase 50%, no ano passado, e em 30%, somente de janeiro a abril deste ano, na comparação com o mesmo período de 2021. Entre os países que mais consomem pescados brasileiros estão os Estados Unidos, o Japão e outras nações asiáticas.

Nos mercados interno e externo, a Cooperativa Agroindustrial Consolata (Copacol), do Paraná, é um dos grandes destaques do setor. Há 14 anos, os cooperados começaram a criar tilápia e a cooperativa passou a investir no processamento industrial. Atualmente, são cerca de 280 cooperados produzindo tilápias em 800 hectares de lâminas d´água. A média de peixes abatidos por dia chega a 170 mil, a maior produção na América Latina. Além do pescado, as duas plantas industriais da cooperativa trabalham com subprodutos como escamas, carcaça e vísceras, na produção de farinha de peixe.

 “Apoiamos os cooperados em todas as etapas da cadeia produtiva. Desde o melhoramento genético, passando pela assistência técnica e orientações sobre ração e transporte”, conta o presidente da Copacol, Valter Pitol.

Ele complementa que “a venda de tilápias juntamente com a produção do frango tem sido um diferencial, do ponto de vista de logística. Enviamos as tilápias para outros Estados no mesmo caminhão frigorífico que leva o frango. Isso nos permite reduzir o preço para o consumidor final”, pontua.

Pitol explica que o investimento em integração de culturas contribuiu para aumentar a renda dos cooperados e tem motivado uma nova geração a permanecer no campo. A cooperativa prioriza o cumprimento da legislação ambiental e está atenta aos critérios de sustentabilidade para garantir a ampliação desse mercado. 

CUIDADO COM A ÁGUA

A C.Vale Cooperativa Agroindustrial é outra coop paranaense bem-sucedida no setor da aquicultura. No ano passado, ela aumentou sua produção de tilápias em 20%. Atualmente, são 222 cooperados produzindo em 752 hectares de lâminas d´’água. 

“A demanda pela tilápia deve aumentar. O crescimento tem relação com a profissionalização da atividade, o desejo do consumidor por alimentos mais saudáveis e a capacidade da indústria em disponibilizar o produto cada vez mais fresco e em tempo recorde no ponto de venda”, avalia Paulo Roberto Poggere, gerente do Departamento de Peixes da C.Vale. 

De acordo com ele, a cooperativa incentiva os produtores a adotarem a automação no manejo alimentar e no monitoramento dos parâmetros de oxigênio e água. Com isso, é possível programar e executar a alimentação das tilápias em condições favoráveis à performance produtiva, além de reduzir os custos produtivos e a degradação da qualidade de água.

 “O auxílio da C.Vale no campo da inovação também se dá por meio de testes e análises técnico-financeiras preliminares, que comprovam os resultados de viabilidade de investimento na inovação, o que garante ao produtor retorno satisfatório na operação com o uso da tecnologia”, detalha Poggere.

A C.Vale recomenda procedimentos que visam a correção da qualidade de água e o uso racional do recurso hídrico, almejando, com o conjunto dessas ações, promover a conservação ambiental e a preservação do principal ativo ambiental para a aquicultura: a água. “Dessa maneira, promovemos a sustentabilidade da atividade, proporcionando a continuidade e o crescimento da produção”, conclui.

EM BUSCA DE NOVOS MERCADOS

No Distrito Federal, a Cooperativa Mista da Agricultura Familiar, do Meio Ambiente e da Cultura do Brasil (Coopindaia) assumiu há dois anos a gestão do principal mercado do peixe da cidade, localizado na Central de Abastecimento da capital, a Ceasa. Além de garantir o espaço de venda para os 60 cooperados, a Coopindaia investiu ainda em maquinário e câmaras frias para o armazenamento dos produtos. O próximo passo é produzir carne de peixe processada para abastecer o mercado de alimentação escolar. Luciano Andrade, presidente da Coopindaia, pondera: 

“Nossa expectativa é que a população compreenda cada vez mais a importância de se consumir produtos frescos e diretos dos produtores. Queremos contribuir para a saúde de todos e esperamos que haja mais apoio para o nosso modelo de organização produtiva”. 

Não há dúvidas de que a aquicultura oferece um oceano de possibilidades para o cooperativismo. A Organização das Nações Unidas para a Agricultura e Alimentação (FAO/ONU) aposta em um crescimento do consumo de pescados e aponta números otimistas. O relatório da FAO “Estado Mundial da Pesca e Aquicultura” (SOFIA), publicado em junho de 2020, estima que a produção total de peixes deve aumentar para 204 milhões de toneladas em 2030. Isso representa um incremento de 15% em relação a 2018, com a participação da aquicultura crescendo para além dos atuais 46%. De acordo com a organização, a aquicultura tem sido o setor de produção de alimentos que se expandiu mais rapidamente em todo o mundo nos últimos 50 anos, com crescimento médio de 5,3% ao ano, desde a virada do século. 

INCENTIVO À PRODUÇÃO COOPERATIVA

As entidades de representação do cooperativismo estão atentas às oportunidades abertas para o mercado de peixe. No estado do Paraná, o Sistema Ocepar realiza ações de fomento à sustentabilidade da produção aquífera junto às cooperativas locais. Em parceria com o órgão estadual de extensão rural (IDR), será lançado o programa de capacitação e atualização continuada dos técnicos de campo, para que possam otimizar a assistência aos produtores. 

“Um dos principais desafios do setor de aquicultura é o uso racional de água. A ração e a energia elétrica também pressionam as margens e fazem com que o manejo e a gestão da produção precisem ser mais eficientes, por parte do produtor”, explica Alexandre Monteiro, analista técnico da Gerência de Desenvolvimento Técnico da Ocepar. “Tecnologia para oferecer produtos que atendam à necessidade do consumidor é essencial, uma vez que o hábito de consumo está em constante evolução”, pontua. 

Em Minas Gerais, o Sistema Ocemg colocou a responsabilidade socioambiental como um norte para os projetos desenvolvidos com as cooperativas de aquicultura. A partir de uma parceria com o Sicoob Aracoop, que financia os cooperados, a Ocemg orientou processos de regularização fundiária, implementação de estratégias de marketing e otimização do uso de insumos. 

As compras coletivas de ração, por exemplo, possibilitaram a redução no preço final do pescado e ainda contribuíram para diminuir o desperdício desse insumo que tanto pesa nas contas dos cooperados, segundo Rouzeny Zacarias, analista de Educação e Desenvolvimento Sustentável da Ocemg. “Temos hoje uma rede de colaboração que não envolve apenas as cooperativas, mas também inclui agricultores familiares da região. O trabalho em grupo não é fácil, mas é fundamental para garantir o desenvolvimento local”, destaca. 

PESCA OU AQUICULTURA?

Essa é a pergunta que não quer calar: Qual é a diferença entre esses dois tipos de atividade? São sinônimos? A pesca é definida por legislação — Lei nº 11.959, de 29 de junho de 2009 — como toda operação, ação ou ato tendente a extrair, colher, apanhar, apreender ou capturar recursos pesqueiros; a aquicultura, é definida na mesma lei como atividade de cultivo de organismos cujo ciclo de vida em condições naturais se dá total ou parcialmente em meio aquático, implicando a propriedade do estoque sob cultivo, equiparada à atividade agropecuária. Com isso, a aquicultura permite a adoção de técnicas e tecnologias que garantem qualidade, padrão e maior escala para a produção. 

O Brasil possui condições favoráveis tanto para atividade pesqueira quanto para a aquicultura. São cerca de 8.500km de costa marítima e 12% da água doce do planeta correndo em território brasileiro. Estudos de instituições como a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) têm auxiliado pescadores e aquicultores a aproveitarem melhor esses recursos. 

A migração do modelo de pesca para aquicultura demanda investimentos, e uma boa opção para fazer essa virada é buscar o auxílio das cooperativas de crédito, cada vez mais atentas às potencialidades desse setor.

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6 MOTIVOS PARA INCLUIR O PESCADO NA SUA ALIMENTAÇÃO

 • Ajuda na prevenção de doenças cardiovasculares; 

• Contribui para o controle dos níveis de colesterol; 

• É rico em proteínas, vitaminas e minerais; 

• Possui alta proporção de gorduras saudáveis (gorduras insaturadas); 

• É fonte de ômega 3; 

• Auxilia na manutenção de níveis adequados de triglicerídeos.

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Esta matéria foi escrita por Juliana Nunes e está publicada na Edição 38 da revista Saber Cooperar. Baixe aqui a íntegra da publicação

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