O que vem pela frente na economia?

Convidamos dois especialistas — o economista-chefe de um dos maiores bancos do país e o diretor de uma das maiores consultorias de risco político do mundo — para analisar as oportunidades e os desafios do Brasil pós-pandemia. E eles têm um recado importante para o coop. Vale conferir!

Farol Conteúdo
23/09/2022

Depois de dois anos de pandemia e recessão econômica, a razão terá de falar mais alto que a intuição. Para encontrar alternativas em meio a cenários econômicos incertos, será necessário se mexer. Além de uma dose extra de coragem, é preciso encarar o problema com postura crítica e curiosidade. Uma análise minuciosa da questão também pode ajudar a tomar decisões mais seguras, com base em dados. Aqui, vale mais uma dica: deixar as emoções de lado é primordial.

Se quiserem sobreviver, as cooperativas devem entregar valor aos clientes, que cobrarão uma postura mais sustentável dos negócios. Nisso, o cooperativismo sai na frente, já que é um modelo de negócios que atua pelo bem-estar das comunidades em que está inserido. 

Para falar um pouco sobre tendências econômicas, oportunidades no mercado interno e externo, e desafios futuros, a revista Saber Cooperar conversou com o economista-chefe do Banco do Brasil, Marcelo Rebelo Lopes, e com o diretor para o Brasil de uma das maiores consultorias de risco político do mundo, a Eurasia Group, Silvio Cascione. Confira!

Marcelo Rebelo Lopes, economista-chefe do Banco do Brasil

Acreditamos que as cooperativas podem se beneficiar nos próximos anos com a ampliação dos negócios com o mercado internacional. Na China, nosso maior parceiro comercial, a migração da população do campo para os grandes centros urbanos ampliou a renda das famílias e permitiu o acesso a bens e serviços com maior valor agregado (…) O destaque seriam os produtos e subprodutos de origem animal, inclusive pescados.  Marcelo Rebelo Lopes, economista-chefe do Banco do Brasil

Saber Cooperar: Quais são as tendências econômicas para o Brasil nos próximos anos?

Silvio Cascione: Olhando para o Brasil, existem algumas oportunidades interessantes, mas o cenário é bastante desafiador. A economia está em um processo de recuperação depois da pandemia, depois de vários anos de recessão. A gente está vendo o mercado de trabalho voltando com mais força, mais emprego sendo oferecido, muitas empresas que tiveram de ficar fechadas durante a pandemia voltando para as atividades. Para os próximos anos — especialmente para o ano que vem —, poderá haver uma pausa nesse processo de recuperação por causa da necessidade de controle da inflação, que subiu muito no começo do ano. Mas, se houver uma política econômica em 2023 que traga mais previsibilidade para as contas públicas e dê mais confiança às empresas, aos investidores e aos consumidores, é possível que essa pausa para reduzir a inflação seja temporária e, depois, a gente tenha um ciclo mais positivo de crescimento. O importante é cumprir com essa condição: uma política econômica que seja previsível e passe credibilidade para cumprir com os compromissos com as dívidas que o Brasil assumiu nos últimos anos. 

Marcelo Rebelo Lopes: Ao longo dos próximos anos, projetamos uma lenta e arriscada travessia em direção a patamares mais baixos de taxas de juros e de inflação, em comparação com os níveis com que convivemos no período pós-pandemia. A crise sanitária e o esforço fiscal derivado parecem ter deslocado a taxa de juros neutra do país para patamares mais altos do que os que prevaleciam no último ciclo econômico. Nesse sentido, atualmente, estimamos com um juro real de equilíbrio da ordem de 4%-4,5% e uma taxa Selic que se estabiliza ao redor dos 7,25%-7,50% no médio/longo prazo.  

O potencial de crescimento econômico brasileiro parece situar-se na faixa 1%-1,5%. A aceleração em direção a níveis de 2%-2,5% demanda medidas para elevar a produtividade, que tende a ser uma das pautas mais relevantes para os próximos anos. Ademais, a discussão em torno da necessidade de retomar os investimentos públicos também deve estar presente, e deve envolver um grande debate em torno da rigidez do orçamento público e discussões mais amplas sobre regras fiscais.  

Como as pessoas/cooperativas podem se preparar para os desafios atuais e futuros da nossa economia?

SC: Para se preparar para os desafios atuais e futuros da economia, é importante ter bastante agilidade para se adaptar às mudanças, desde as tecnológicas até as mudanças de condições de mercado.

MRL: O caminho passa pela análise da conjuntura atual e das megatendências futuras. Para o momento atual, marcado por juros altos e inflação pressionada, entendemos que as instituições devem inovar e buscar entregar valor para os clientes, para se destacar e sobreviver no mercado. Além disso, os clientes cobram uma postura mais sustentável dos negócios, que alie preservação do meio ambiente, responsabilidade social e governança, que valorizem a diversidade, a equidade e inclusão. Para o futuro, em meio a um cenário de crescimento potencial baixo e reduzido espaço para investimentos públicos, as empresas devem se adaptar e criar soluções customizadas para atender aos anseios dos clientes. 

Em relação ao mercado internacional, quais são as principais oportunidades para as empresas/cooperativas nos próximos anos?

SC: O mundo hoje está passando por uma transição importante nas cadeias de fornecimento. Há conflitos internacionais fazendo muitas empresas/coops revisarem os seus fornecedores, as suas relações comerciais, e isso é uma oportunidade para nós, do Brasil, porque muitas outras empresas na Europa, nos Estados Unidos, em outros lugares, vão procurar diversificar suas cadeias, e a gente tem um potencial, aqui, de abrir novos mercados. Mas é preciso estar pronto, ter muita agilidade para agarrar essas oportunidades. E as pessoas, da mesma forma: precisam aproveitar as mudanças tecnológicas e se atualizar para poder se posicionar em um mercado de trabalho cada vez mais globalizado.

MRL: Acreditamos que as empresas/cooperativas podem se beneficiar nos próximos anos com a ampliação dos negócios com o mercado internacional. Na China, nosso maior parceiro comercial, a migração da população do campo para os grandes centros urbanos ampliou a renda das famílias e permitiu o acesso a bens e serviços com maior valor agregado. As empresas poderiam se beneficiar da mudança do padrão de consumo das famílias, ampliando o leque de produtos exportados — em especial, os produtos agrícolas. O destaque seriam os produtos e subprodutos de origem animal, inclusive pescados.  

Mas o caminho de oportunidades para as empresas no comércio exterior passa pelo estabelecimento de acordos comerciais vantajosos e pela discussão de questões sanitárias e fitossanitárias. Em alguns países, como na Coreia do Sul, consumidores se mostram contrários ao consumo de produtos de origem animal sem um devido cuidado sanitário e há forte resistência internas/lobbies em favor de produtos locais.  Neste momento, acordos com organismos internacionais vêm sendo firmados para o financiamento de iniciativas e/ou projetos no setor de energia renovável, visando colaborar com as metas globais de redução de emissão de efeito estufa, o que abre oportunidades de expansão de negócios associados com a economia limpa.  

Silvio Cascione, diretor da Eurasia Group Brasil

O mercado de créditos de carbono tem um potencial muito grande e é parte da solução que o mundo vai dar para a questão climática. Claro que isso exige tempo de implementação e muitos desafios, mas o Brasil, com as florestas que a gente tem, com a matriz energética limpa, está muito bem-posicionado para receber recursos do mundo inteiro para compensar a emissão de carbono de outros lugares. A gente pode ser muito bem remunerado por isso.” Silvio Cascione, diretor da Eurasia Group Brasil

Como o senhor enxerga o mercado de créditos de carbono e qual é o potencial brasileiro para ingressar nele?

SC: O mercado de créditos de carbono tem um potencial muito grande e é parte da solução que o mundo vai dar para a questão climática. Claro que isso exige tempo de implementação e muitos desafios, mas o Brasil, com as florestas que a gente tem, com a matriz energética limpa, está muito bem-posicionado para receber recursos do mundo inteiro para compensar a emissão de carbono de outros lugares. A gente pode ser muito bem remunerado por isso. Qual é a lição de casa a ser feita? Ter credibilidade, passar confiança para quem está disposto a pagar para a gente cuidar das nossas florestas. Mostrar que cada crédito vendido tem validade, que ele está representado por um pedaço de terra onde a floresta está de pé, e vai continuar de pé. Esse é o grande desafio. O desmatamento ilegal no Brasil ainda está em grande escala, ele não está sob o controle do governo. Os mecanismos de controle ainda são falhos, o que prejudica o nosso esforço de receber por esse crédito de carbono. 

MRL: Segundo estudo da WayCarbon, em parceria com a ICC Brasil, o país tem capacidade de gerar até R$ 100 bilhões em receitas com créditos de carbono nos setores do agronegócio, florestas e energia até 2030. Isso representa atender de 5% a 37,5% da demanda de créditos de carbono no mercado voluntário global. Já no mercado regulado, essa proporção varia entre 2% e 22%. Com os crescentes compromissos das empresas em se tornarem neutras em carbono, a procura por créditos de carbono tem aumentado, o que contribui para fomentar a atividade econômica em bases sustentáveis. Vale destacar que, no Brasil, 27% das empresas já assumiram algum compromisso net zero [zero emissões líquidas de carbono], enquanto a média global é de 22%, segundo a 25ª edição da Pesquisa Anual Global com CEOs, da PwC, realizada em outubro de 2021.  

Para entendermos o potencial desse mercado: de acordo com levantamento da Reuters, o mercado global de carbono cresceu 164%, apenas em 2021, atingindo cerca de US$ 851 bilhões transacionados. No contexto do Brasil, vejo grande potencial de exploração. E todo esse potencial se materializa através de oportunidades com projetos de reflorestamento, infraestrutura urbana, mobilidade, geração descentralizada de energia, eficiência energética e cadeias produtivas sustentáveis em atividades agrícolas e pecuárias, o que constitui um amplo campo de atuação no mercado de carbono. 

As pessoas estão cada vez mais dispostas a consumir de empresas que adotem boas práticas ESG. O senhor percebe essa mesma preocupação com o ESG dos investidores e dos governos? 

SC: Os investidores, os governos têm bastante preocupação com ESG e estão, há anos, tentando incluir isso nas decisões de investimento. É importante reconhecer que, no contexto atual de maior desafio — pós-pandemia, inflação mais elevada, custo de vida mais elevado em todos os países —, os governos e as empresas também estão tentando conciliar essa agenda com demandas de curto prazo. Às vezes, fica caro demais pagar o custo da transição. A gente vê a própria Europa, por exemplo, voltando a usar o carvão com um pouco mais de intensidade aqui, nesse curto prazo, para poder sustentar sua população sem colocar um custo exorbitante nas contas de energia. Como conciliar essa agenda de sustentabilidade com o bem-estar da população em geral? Esse é o grande desafio que se colocou neste último ano. 

MRL: Esse é um tema que veio para ficar, tanto pelo lado da sustentabilidade dos negócios —que consiste, entre outros, em gerenciamento de risco e alocação de capital — quanto por uma questão geracional, em que as demandas dos grupos mais jovens da sociedade estão cada vez mais conectadas com os aspectos que norteiam o ESG. Nesse sentido, conciliar rentabilidade com investimentos sustentáveis é uma tendência cada vez mais presente no dia a dia dos negócios. Hoje, os principais gestores de fundos no mundo incentivam e apoiam a adoção de práticas de investimento responsável. No caso do Brasil, pesquisa da Anbima [Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais] mostrou que cerca de 30% das gestoras avaliam entre 80% e 100% de seus ativos considerando os critérios ESG. Assim, vejo que o tema é uma tendência que deve se consolidar e crescer cada vez mais no Brasil e no mundo. 

Quão importante é investir em educação e inovação para alavancar a economia de um país?

SC: Muito. Qualificando a nossa mão de obra, a gente se torna mais produtivo; então, consegue produzir mais valor e isso se transforma em riqueza para o país, de uma maneira geral. A gente compete com outros mercados e eles também estão investindo. O Brasil não pode ficar atrás nessa corrida. 

MRL: Os investimentos em educação refletem diretamente na produtividade e qualidade da mão de obra, no mesmo sentido em que os investimentos em máquinas e infraestrutura contribuem para a formação do estoque de capital físico. Diante disso, as externalidades positivas geradas pelo investimento em educação e inovação se materializam, por exemplo, na melhora do capital humano e, consequentemente, na melhora da renda per capita. Portanto, ganho de produtividade é um elemento-chave para o aumento da renda e da competividade de um país. Para ficar mais clara a importância do tema, o relatório do Banco Mundial Emprego e Crescimento: a agenda da produtividade, de março de 2018, mostra que, se o Brasil fizesse uso de seus ativos com o mesmo nível de produtividade que os EUA, a renda per capita do país aumentaria 2,7 vezes. Dito isso, conseguimos perceber que o papel da educação no crescimento econômico é relevante, mas o avanço rápido não é nada trivial. 

Existe um segredo (ou uma receita) para enxergar oportunidades em meio a um cenário de crise?

SC: Não existe um segredo ou uma fórmula pronta para enxergar oportunidades, mas é sempre muito importante não se deixar levar por ideias preconcebidas ou por algum viés na forma de encarar o mundo ou os problemas. Encarar os problemas e as crises com uma postura crítica, uma atitude curiosa, é uma maneira mais inteligente de encontrar alternativas, caminhos para achar oportunidades.

MRL: Em geral, o conceito de crise está associado a momentos de intensa dificuldade ou perigo, que nos tira da zona de conforto e nos coloca em situação de alerta. Quando aplicada ao cenário econômico, a crise pode ser vista como uma situação de desequilíbrio, seja na produção, comercialização ou no consumo, bem como de colapso dos fundamentos econômicos. Em muitas situações de crise, a dinâmica negativa sobre os preços dos ativos é exacerbada, o que leva a um descolamento do real valor em relação aos seus fundamentos. Daí surgem as oportunidades. Para conseguir identificá-las, entendo que a receita é ter um bom arcabouço analítico e manter-se alheio às emoções do momento, de modo que tenhamos segurança suficiente para tomar decisões baseadas nos dados. 

Como manter a economia brasileira competitiva nos próximos anos?

SC: Além de seguir com reformas que têm sido feitas para dar mais espaço para o investimento e investir em educação, acho muito importante cuidar da questão tributária, pois esse é um grande problema que ainda trava os investimentos. Se isso for feito nos próximos anos, se houver uma reforma tributária que simplifique nosso sistema, isso vai ajudar muito a tornar o Brasil mais competitivo.

MRL: Além dos pontos elencados em relação ao papel do investimento em educação e seus reflexos na produtividade, uma agenda de reformas estruturais que ajude a retirar entraves do ambiente de negócios e que aumente a competitividade das empresas é fundamental para uma trajetória de crescimento consistente da capacidade competitiva do país. Estar atento e preparado para o uso de novas tecnologias e conseguir antecipar tendências no mercado global também são fatores que trazem maior potencial para a economia brasileira.  


Esta matéria foi escrita por Lílian Beraldo e está publicada na Edição 39 da revista Saber Cooperar. Baixe aqui a íntegra da publicação


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