Pontes para o futuro

Parceria com startups pode ser atalho para a inovação cooperativista

Farol Conteúdo
27/01/2022

Não é novidade que o cooperativismo tem investido cada vez mais em inovação para modernizar e ampliar seus negócios. E 2021 termina com mais um passo importante do Sistema OCB para impulsionar a inovação dentro das cooperativas: segue em pleno vapor a primeira edição do Conexão com Startups, programa que está criando pontes entre cooperativas de diversos ramos e empresas inovadoras. A ideia é unir a força do cooperativismo com a agilidade das startups em busca de soluções para problemas comumente enfrentados por cooperativas de todo país. 

Todas as organizações, sejam pequenas ou grandes, tropeçam diariamente em problemas que  afetam seu funcionamento— seja a necessidade de uma nova ferramenta, o aprimoramento de um processo produtivo ou mesmo a busca por novas plataformas de vendas. Muitas vezes, um olhar externo, com uma pegada ágil e inovadora, pode ser muito mais eficiente do que a busca por soluções caseiras. É aí que entram as startups e o chamado modelo de inovação aberta, ou seja, aquele que busca parceiros fora do negócio para encontrar essas saídas. 

Quando fazemos uma conexão com startups, estamos aproveitando um conhecimento e experiência de um agente externo para realizar as inovações. Em geral, as startups são modelos de negócio ágeis, baseados em tecnologia e que já têm uma ferramenta desenvolvida que pode ser personalizada ou adaptada para conseguir entregar aquilo que a cooperativa precisa. Há um ganho de know-how e agilidade, que se a coop tivesse que entender e desenvolver aquilo do zero, ia demorar muito mais tempo e teria que ser investido muito mais recurso”, explica Samara Araújo, coordenadora de Inovação da OCB. 

Na primeira edição do programa,  54 startups se inscreveram para participar. Ao todo, 30 desafios foram inscritos pelas coops e 10 chegaram à fase final. A seleção levou em conta a relevância da solução do desafio para o ramo, a possibilidade de aplicação da solução em pelo menos cinco outras cooperativas, a disponibilidade de pessoal para desenvolver o piloto junto à startup e o perfil do desafio adequado para o ecossistema de startups. Mas o que seriam esses desafios? 

A Unimed Vitória, uma das participantes do Conexão, busca por exemplo uma solução para consolidar um prontuário eletrônico que funcione em tempo real e reúna informações de diferentes sistemas. Já as centrais Ailos e Sicoob Espírito Santo necessitam de uma ferramenta que permita registrar e mensurar ações sociais e de patrocínio. 

A experiência tem sido bem rica porque temos uma diversidade grande de ramos, modelos de negócios e desafios. Há alguns que atendem cooperativas, outros singulares ou federação. Além disso, há um aprendizado nessa própria conexão com as startups porque, para muitos participantes, é a primeira vez que está tendo contato com esse ecossistema de inovação e há muito aprendizado Tem sido bem didático para os participantes aprenderem na prática como a inovação aberta acontece”, destaca Samara.

Um dos diferenciais do programa é que o Sistema OCB está bancando 70% dos custos de desenvolvimento dos projetos piloto – o restante fica por conta das cooperativas. Era o impulso que faltava para que a Fetrabalho/RS pudesse desenvolver uma ferramenta que estava já há algum tempo entre as metas da organização: um aplicativo de oferta de serviços que servisse como portfólio das cooperativas para avançar no modelo de economia de plataforma. 

Nós começamos a estudar sobre o cooperativismo de plataforma e ainda em 2019 percebemos que esse era um mercado importante. Aí  veio a pandemia e nós estávamos com isso dentro do nosso planejamento, era uma necessidade para nós. Qual era o nosso desafio? O investimento. Nós já tínhamos entrado em contato com coops de tecnologia da informação, mas o custo era alto. Então surgiu o desafio, nós nos inscrevemos e o que nos deixa mais feliz é que fomos contemplados, a única cooperativa do Rio Grande do Sul que ganhou esse espaço”, afirma Margaret da Cunha, presidente da federação.

A dirigente conta que o contato com as startups tem sido muito enriquecedor. Um dos primeiros desafios foi que a maioria delas tinha um foco em e-commerce de produtos, e não de serviços. “Agora vamos estudar juntos como vender serviço. A Fetrabalho pode ser um piloto, mas nosso interesse é desenvolver essa plataforma para que possa servir de vitrine para as cooperativas do país inteiro”, explica Margaret. Em outubro, coops e startups fizeram um trabalho de imersão para detalharem o desenvolvimento das soluções e estão agora realizando o projeto piloto para que os trabalhos estejam concluídos até março de 2022. 

TECNOLOGIA PARA O CAMPO

Por mais tradicional que seja o negócio, como são algumas cooperativas do ramo agro, a inovação aberta pode trazer enormes contribuições. “Os programas de inovação aberta com startups, além das  próprias soluções, também trazem uma abertura de perspectivas, um banho de novas ideias. Essa dinâmica passa muito pela sensibilização da alta gestão das cooperativas em relação a esse processo de transformação que estamos vivendo hoje e por dar visibilidade às possibilidades que existem. Hoje, muitos gestores estão focados no seu negócio e não têm tempo de enxergar o que está acontecendo no ecossistema”, explica Felipe Scherer, fundador da InnoScience. 

A empresa de consultoria especializada em gestão da inovação foi parceira da OCB na formatação e implementação do programa. A partir de uma metodologia própria desenvolvida para potencializar a capacidade de uma organização em inovar, o objetivo foi  conseguir engajar e tirar o melhor da interação entre cooperativas e startups. 

Pela nossa experiência, o sucesso de uma iniciativa de inovação aberta e de uma conexão com startups, está relacionado no máximo 50% com a solução da startup propriamente dita. Eu diria que tem uma parcela no mínimo igual que está relacionada com essa mentalidade e a capacidade da cooperativa em absorver essas novas soluções”, aponta.

Segundo Felipe, a taxa de sucesso de uma solução aberta em cooperativas tem o potencial de ser ainda maior em justamente em razão do alto grau de envolvimento dos participantes da organização.

Isso em função de uma característica que é inerente ao cooperativismo que é o tema da colaboração e o envolvimento das pessoas com o projeto. Isso é fora da curva. As pessoas se envolvem mais, aquele sentimento de pertencimento é muito legal e aparece no relato das startups, elas percebem a diferença”, compara. 



AGRO


A primeira edição do Conexão com Startups se encerra em março, com a entrega dos pilotos para as cooperativas. Mas já está em andamento uma nova etapa do projeto, que terá como foco o ramo agro. A segunda edição está sendo desenvolvida pelo Silo, uma parceria com a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) e da Neoventures. Os desafios do programa já foram selecionados e neste momento as startups interessadas em ofertar soluções estão fazendo inscrição no programa.

Nessa relação, o ganho é em mão-dupla: para as startups também é enriquecedor – e possivelmente rentável – conhecer mais a fundo o sistema cooperativista brasileiro. “O mercado das coops é muito atraente porque tudo que uma startup quer é escalar seu negócio, oferecer uma solução para vários clientes e as cooperativas são ótimos clientes. Se ela desenvolve uma solução para uma cooperativa em determinado ramo, provavelmente essa dor também é a de várias outras coops e singulares ali dentro do sistema. A startup vai poder escalar e oferecer essa mesma solução que tinha desenhado para uma cooperativa pras outras similares”, explica Samara.

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Mas, o  que é uma startup?

Uma  startup pode ser definida como uma pequena empresa, com DNA inovador, custos baixos de manutenção e que consegue crescer rapidamente. É formada por um grupo de pessoas que procura um modelo de negócio ágil, enxuto e escalável. A tecnologia é sua principal ferramenta para oferecer soluções ao mercado e, por natureza, uma startup trabalha em condições de extrema incerteza: um dos lemas dessas organizações é “falhar rápido” para poupar tempo e dinheiro na busca de soluções que sejam efetivas.

De acordo com a Associação Brasileira de Startups, o país tem mais de 13 mil empresas com esse perfil, sendo São Paulo, Minas Gerais e Rio Grande do Sul os estados com maior concentração delas. O total  de startups no país cresceu 20 vezes entre 2011 e 2021. Educação, finanças, saúde e bem-estar e Internet são os principais ramos de atuação das startups brasileiras. 

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Esta matéria foi escrita por  Amanda Cieglinski e está publicada na Edição 36 da revista Saber Cooperar. Baixe aqui a íntegra da publicação


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