Semeando eletricidade

Cooperativas de energia do Rio Grande do Sul se destacam como as melhores do Brasil no índice de aprovação e satisfação do usuário e mostram como a força do cooperativismo e a parceria entre elas são um negócio que tem tudo para dar certo

Farol Conteúdo
26/04/2021

A vida no escuro pode ser assustadora. Viver, hoje, sem energia é algo que está fora de cogitação nas grandes cidades, mas ainda é a realidade em algumas regiões do Brasil. Dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) de 2019 estimam que 99,8% dos domicílios têm energia elétrica, seja fornecida pela rede geral ou por fonte alternativa. Apesar da estimativa, o último Censo do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) mostra que 2,5 milhões de domicílios brasileiros não têm acesso a energia elétrica.

Para mudar esse cenário e levar energia a todo o território nacional, diversas cooperativas de infraestrutura têm procurado investir nesses serviços e fazer parcerias para atender cada vez mais pessoas, principalmente as que moram em áreas mais afastadas dos grandes centros.

Não é à toa que das dez melhores empresas do Brasil no ranking feito, em 2019, pela Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel), nove são cooperativas. E isso não é só de agora. Nos últimos dez anos, as cooperativas marcam presença no ranking geral do Índice ANEEL de Satisfação do Consumidor mostrando que o cooperativismo só tende a melhorar com o passar do tempo.

A pesquisa aponta como o cooperativismo tem dado espaço às melhorias, para um melhor resultado. As cooperativas buscam o equilíbrio, sempre com o objetivo de fazer a diferença na vida das pessoas”, explica o presidente da Confederação Nacional das Cooperativas de Infraestrutura (Infracoop) e da Coprel Cooperativa de Energia (RS), Jânio Vital Stefanello.

Para o presidente da cooperativa Ceriluz (RS), Iloir de Pauli, as notas das cooperativas nas pesquisas de satisfação do consumidor valorizam o trabalho prestado por cada uma e são a prova da excelência do serviço.

Mais difícil do que alcançar uma boa nota, é mantê-la e evitar acomodação. Isso nos mobiliza a fazer sempre o melhor trabalho e manter a qualidade se faz com investimentos, principalmente, valorizando o colaborador, pois é ele quem realmente faz acontecer. É ele quem planeja, define e coloca a infraestrutura de pé. É ele que está mais próximo do nosso associado”, pondera Iloir.

Das dez melhores empresas do Brasil, cinco são cooperativas gaúchas.

INVESTIMENTO NA INFRAESTRUTURA

Investir para continuar entregando um serviço de qualidade à população é o lema das cooperativas gaúchas, que hoje atendem centenas de municípios. Uma delas, a Coprel, atende áreas urbanas, distritos industriais, loteamentos residenciais e turísticos, mas tem um olhar mais cuidadoso com as regiões do interior, principalmente, a área rural, onde o acesso a energia é mais difícil.

Com mais de 17 mil quilômetros de rede e 180 mil postes instalados, a cooperativa conta com Centrais Hidrelétricas próprias e tem planos para instalação de novas usinas para continuar levando energia limpa aos cooperados. Uma das metas é a criação de uma Pequena Central Hidrelétrica (PCH), em conjunto com a Ceriluz.

Para Jânio, além do investimento na parte de infraestrutura, o trabalho de intercooperação é essencial para que o serviço prestado esteja de acordo com os anseios dos cooperados. Já Iloir de Pauli defende que as parcerias “ampliam significativamente a capacidade de investimentos”, fazendo com que muitos projetos não fiquem apenas no papel.

Das mais de 56 mil famílias que a Coprel atende, a dos irmãos Francisco e Dorvalino Longaretti é umas das beneficiadas. No interior do estado, no município de Muliterno, cidadezinha com quase 2 mil habitantes, os Longaretti fizeram questão de seguir o trabalho rural do pai, que atua na área leiteira e no plantio de grãos.

Com o sucesso do negócio e as novas tecnologias do campo, os irmãos decidiram fazer mudanças na propriedade para promover o bem-estar dos animais, aumentar a produção do leite e facilitar o trabalho, investindo na instalação de um compost barn e na troca da ordenhadeira elétrica. Para que tudo isso desse certo, era preciso ter certeza de que a energia chegaria com sucesso à área rural

“O trabalho de energia que vem sendo feito às famílias do meio rural é o nosso braço direito e oferece qualidade de vida, além do conforto”, comenta Francisco.

PLANO CONJUNTO

Berço do trabalho em equipe, a intercooperação reacende o espírito cooperativo e traz à tona a solidariedade e o comprometimento para melhorar o desempenho de atividades em comum de cooperados e cooperativas.

No Rio Grande do Sul, 15 cooperativas de energia se uniram para melhorar os serviços prestados e atuar em conjunto semeando os bons frutos. Em uma extensão de 281.748 km², a região gaúcha é uma área afetada por vendavais, que acabam resultando em constantes picos de energia, principalmente em zonas isoladas.

Na tentativa de amenizar o problema da falta de eletricidade em situações chuvosas, foi criado o Plano de Operação e Manutenção para Dias de Contingência . De acordo com o presidente da Fecoergs, os resultados do plano têm sido positivos, principalmente aos associados, que ganham agilidade no retorno da luz.

“Graças a esse trabalho de anos entre as cooperativas, a relação entre diretores, engenheiros e técnicos é muito próxima, o que facilita a comunicação. Havendo necessidade, as cooperativas trocam informações e aquela que tiver a possibilidade auxilia a outra que foi mais duramente atingida pelos temporais”, explica Iloir de Pauli.

Em 2018, segundo Jânio Stefanelli, houve um grande temporal na região que levou à   destruição de muitas casas em pequenas cidades do estado. À época, a Coprel registrou a queda de 1.400 postes de concreto. Para solucionar o problema de forma ágil, a cooperativa acionou o plano de contingenciamento e contou com a ajuda de oito cooperativas para reconstrução da rede. Em um dia e meio, cerca de 70 quilômetros de linhas de transmissão foram reconectadas.

As cooperativas que não foram afetadas pela tempestade conseguiram mandar as equipes para a reconstrução. Foi terrível! Mas, até o outro dia, conseguimos restabelecer a energia. Escutamos muito dos cooperantes que a água ainda não havia voltado, mas a energia sim. Nós conseguimos fazer antes dos outros serviços essenciais, mas porque as outras cooperativas nos ajudaram. Então eu fico muito feliz, porque o plano dá certo, ainda mais em momentos emergenciais, que é onde os nossos associados mais precisam”, relembra o presidente da Coprel.

Atualmente, 400 mil famílias são beneficiadas pelas cooperativas de energia do Rio Grande do Sul. E o plano de contingência beneficia as 15 cooperativas!

DIFERENCIAL

Para Iloir de Pauli, o grande diferencial das cooperativas em relação às concessionárias está na proximidade com o associado. Como a área de ação é menor e os gestores fazem parte do grupo de associados, isso facilita a troca de informações, aumentando o compromisso de atender da melhor maneira.

A aproximação facilita a conhecermos melhor a nossa área de ação, as características de demandas de cada município, facilitando o nosso planejamento”, defende.

E não é só Iloir a defender o planejamento. Stefanelli também ressalta a importância de metas para lidar com momentos assim.

“Tem concessionárias muito bem geridas e outras que têm dificuldades. Para as que têm dificuldade, eu acho que deveria haver o planejamento de redundância . Aqui, no interior, a gente faz isso. Quando estamos em uma subestação, a gente já coloca um outro transformador ao lado para o caso de um parar de funcionar” comenta. 

COMUNICAÇÃO É TUDO!

Um dos pontos mais defendidos pelas cooperativas é a relação entre cooperado e cooperativa. Na Coprel, pesquisas de satisfação são feitas constantemente para saber como os cooperados  avaliam o serviço recebido. Devido à pandemia, a cooperativa também reforçou os canais de atendimento online para facilitar o acesso à informação e comunicação.

Para a Creluz – Cooperativa de Distribuição de Energia, agir com compromisso e optar, sempre que possível, pelas ações que mais beneficiam a população são as ferramentas ideias para garantir a satisfação e o bom atendimento ao cooperado.

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Compost Barn  Sistema de instalação que consiste em um grande espaço físico coberto para descanso das vacas, revestido com serragem, sobras de corte de madeira e esterco compostado. O principal objetivo é garantir aos animais conforto e um local seco para ficarem e a compostagem do material da cama.

Plano de Operação e Manutenção para Dias de Contingência: Documento que une 15 cooperativas do Rio Grande do Sul para a atuação em casos de emergência. Como os temporais não acontecem em todas as localidades do estado gaúcho ao mesmo tempo, a cooperativa que não é afetada por um temporal se compromete a auxiliar a outra.

Planejamento de Redundância: Termo que se refere à duplicação dos elementos que compõem a infraestrutura. É o caso de ter um aparelho para substituição quando o que está sendo utilizado apresentar algum problema.

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Esta matéria foi escrita por Rita Frazão e está publicada na Edição 32 da revista Saber Cooperar. Baixe aqui a íntegra da publicação

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