Tecnologia sustentável

Cooperativas investem em geração própria de energia e conseguem, de uma só vez, economizar recursos, preservar o meio ambiente e reduzir o risco de um novo apagão no país

Farol Conteúdo
10/05/2021

Até o sol trabalha a favor das cooperativas brasileiras. É ele quem fornece a luz necessária para gerar energia limpa e sustentável àquelas que já descobriram as muitas vantagens de abrir sua própria usina fotovoltaica . A ideia, aqui, não é ganhar dinheiro oferecendo serviços para terceiros, como no ramo produção. O objetivo principal é aliar a economia à sustentabilidade.

Existe um interesse muito forte das nossas cooperativas em relação às novas tecnologias de geração de energia limpa ”, constata o presidente do Sistema OCB, Márcio Lopes de Freitas. Segundo ele, além de reduzir sensivelmente o valor da conta de luz, essa tecnologia: a) ajuda a preservar o meio ambiente; b) protege a empresa contra o aumento das tarifas; c) reduz as chances de o Brasil viver uma nova crise de distribuição de energia; e d) é capaz de agregar valor aos produtos da cooperativa.

Consciente dessas vantagens, a Coopercitrus — cooperativa que atende pequenos, médios e grandes produtores agrícolas em São Paulo, Minas Gerais e Goiás  — inaugurou a maior usina fotovoltaica agro do estado de São Paulo, em abril deste ano. Localizada em seu complexo de grãos, em Bebedouro, a unidade consegue suprir as necessidades energéticas de 28 polos da cooperativa, gerando uma economia de cerca de R$ 100 mil por mês nas contas de luz do empreendimento.

O projeto começou a ser desenhado em 2017, por um grupo que estudava maneiras de reduzir os custos fixos do empreendimento. “Um dos gastos que mais oneravam a folha era justamente a energia. A cooperativa consultou especialistas de mercado, captou recursos e fez um projeto para não ficar mais refém dos custos e dos aumentos constantes nas contas de luz”, recordou o coordenador do departamento de energia fotovoltaica da Coopercitrus, Diego Branco.

Para tirar a ideia do papel, foram investidos R$ 5 milhões, captados em instituições financeiras. “Sabemos que, neste primeiro momento, deixamos de pagar a concessionária de energia para pagar o banco. Depois, no entanto, a Coopercitrus será autossustentável. Vai consumir o que ela mesma gerar de energia”, defendeu Diego.

Na avaliação do coordenador, o uso de fonte limpa e inesgotável de energia traz outras vantagens, além da economia de recursos.

Ter um selo verde, para um exportador de frutas, por exemplo, é imensurável. A Europa dá um valor tremendo para isso — se a laranja ou o limão, por exemplo, é proveniente de um beneficiamento que conta com energia fotovoltaica”, destacou Branco.

Existe, ainda, um retorno que ele diz ser praticamente impossível de mensurar: o percentual de vendas gerado pelo reconhecimento, por parte do consumidor, do cuidado da cooperativa com o meio ambiente.

Usina fotovoltaica —  conjunto de painéis solares capazes de gerar energia para abastecer casas, indústrias ou estabelecimentos comerciais

Energia limpa — aquela que não libera, durante seu processo de produção ou consumo, resíduos ou gases poluentes geradores do efeito estufa e do aquecimento global. 

MARCO SUSTENTÁVEL
José Vicente da Silva, presidente do conselho de administração da Coopercitrus

Para o presidente do conselho de administração da Coopercitrus, José Vicente da Silva, a inauguração do complexo de energia fotovoltaica foi um importante marco para a cooperativa, que dá o primeiro passo em direção à sustentabilidade energética de todas as suas estruturas e futuramente das atividades agropecuárias de seus cooperados e comunidade. A caminhada já começou.

A cooperativa está ajudando os cooperados a abrirem suas próprias usinas fotovoltaicas. A proposta é auxiliá-los nos processos de captação de recursos e no cumprimento das burocracias relacionadas à concessionária de energia. Implantada a usina, a Coopercitrus acompanhará a produção de energia do cooperado pelo prazo de cinco anos.

De acordo com Diego Branco, até o momento, cerca de 80 projetos de produção de energia solar foram analisados pela Coopercitrus. Desse total, 50 já estão instalados e funcionando.

Os produtores que desejam instalar um projeto ou sanar as dúvidas devem procurar o departamento [de energia fotovoltaica] para receber todas as informações, desde o projeto adequado baseado nas contas [de energia] até as linhas de financiamentos disponíveis”, afirmou o coordenador.

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Como funciona a compensação de energia

As cooperativas que têm usina fotovoltaica produzem energia para consumo próprio e mandam o que sobra para a rede de distribuição da concessionária. Esse excedente pode ficar como crédito para cooperativa – que consome depois, quando for necessário – ou pode ser usado por outras unidades. Pelo uso da rede da concessionária, as cooperativas têm de pagar uma taxa obrigatória conhecida como “custo do uso do sistema de distribuição”. Com apenas esse custo – já que a energia é produzida pela própria cooperativa —, a conta de luz tem uma redução sensível.

R$ 5 milhões investidos

3,6 mil placas solares instaladas
1,17MWp como potência total
1.987MWh/ano como produção anual

O que poderia abastecer:

300 residências por mês*

3.600 residências no ano*

*Consumo médio de 500kWh/mês

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Novidade em tempo real

Uma das inovações da usina fotovoltaica da Coopercitrus é oferecer aos cooperados a gestão das atividades realizadas em suas propriedades na palma da mão. Dados e informações relacionados ao consumo e à produção de energia elétrica são descritos em tempo real. No sistema, é possível acompanhar on-line a economia em reais, de acordo com o tempo de funcionamento, a potência produzida, a previsão meteorológica, quantas toneladas de CO2 deixaram de ser jogadas na camada de ozônio e outras informações referentes ao funcionamento da usina.

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POTENCIAL ALTERNATIVO

Na última década, a evolução da tecnologia fotovoltaica tem mostrado potencial e viabilidade econômica para se tornar uma forte alternativa às formas convencionais de geração de energia elétrica, como hidrelétricas e termoelétricas, que trazem grandes impactos ambientais.

A produção de energia limpa, de acesso universal e a preço justo até 2030 é um dos 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da Organização das Nações Unidas. Para alcançar essa meta, é necessário ampliar o investimento em energias limpas.

Segundo a ONU, esforços para promover o uso de energias sustentáveis garantiram, até 2011, que 20% da energia consumida do planeta viesse de fontes renováveis. Entretanto, uma em cada sete pessoas no planeta ainda não tem acesso à eletricidade, e a demanda continua aumentando. O futuro do planeta depende do investimento em energia limpa, que provoque impactos ambientais mínimos, como a energia solar, a eólica e a térmica.

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ENERGIA COMPARTILHADA

Se uma cooperativa sozinha consegue gerar energia suficiente para economizar centenas de milhares de reais,  imagine o que duas cooperativas juntas são capazes de fazer? Pois acaba de surgir, no Espírito Santo, a maior usina de energia compartilhada limpa do Brasil. Localizada no município de Ibiraçu, ela é encabeçada pelo Sicoob Espírito Santo e pela Cooperativa Agropecuária Centro Serrana (Coopeavi).

Com 3,2 mil placas solares instaladas, o empreendimento é responsável pela produção de energia elétrica para 95 agências do Sicoob e para 87 cooperados — escolhidos levando em conta critérios como tempo de associação, proximidade e interesse pelo projeto.

Para viabilizar a execução do programa e o compartilhamento de energia, uma terceira cooperativa foi criada: a Ciclos, uma plataforma de serviços com soluções para simplificar a vida de seus associados nas áreas de energia, comunicação, saúde e negócios. É a Ciclos a responsável pela distribuição de energia aos cooperados.

A usina de Ibiraçu está dividida em 10 unidades geradoras, sendo uma destinada para a Coopeavi e nove para o Sicoob. Das unidades do Sicoob, sete direcionam energia para as agências e duas, para associados da Ciclos. 

RETORNO EM CURTO PRAZO

Arno Kerckhoff, vice-presidente do Sicoob-ES

O vice-presidente do Sicoob-ES, Arno Kerckhoff, ressalta que o investimento realizado na usina — de R$ 4,2 milhões — vai gerar uma economia de cerca de R$ 85 mil por mês, além de propiciar a preservação do meio ambiente.

A geração de energia limpa contribui para a redução de gastos e causa menos danos ambientais, evitando, por exemplo, a construção de barragens e a alteração do curso de rios e de nascentes”, destacou.

Para os próximos meses, a expectativa é de que a produção seja ampliada por meio da construção de outras usinas, o que vai propiciar a inclusão de novos associados no sistema de energia compartilhada.

O investimento total, nos próximos 12 meses, chegará a R$ 35 milhões. Assim, a capacidade de atendimento aumentará para 2,5 mil residências ou estabelecimentos comerciais de cooperados vinculados ao Sicoob-ES.

A Ciclos tem por objetivo levar energia limpa compartilhada para todo o Brasil e ajudar os cooperados a entenderem melhor o mercado de energia. Além de investir na ampliação do atendimento em solo capixaba, em 2020, vamos iniciar a nacionalização da cooperativa”, destacou Kerckhoff.

Geração compartilhada— A geração compartilhada é aquela em que um grupo de pessoas usufrui da energia gerada pelo mesmo sistema.

FIQUE POR DENTRO

Ciente do crescente interesse das cooperativas brasileiras pela geração de energia limpa, a OCB fará nove workshops neste segundo semestre para levar mais informações sobre o tema. O primeiro evento foi realizado em Rondônia, em agosto. Ainda devem receber o workshop: Minas Gerais, Santa Catarina, Mato Grosso do Sul, Ceará, Bahia, Amazonas, Maranhão e São Paulo.

Desde 2012, a Aneel permite que todo consumidor possa gerar sua própria energia, e tem algumas vantagens para fazer isso”, explicou Marco Morato, analista técnico-econômico da Gerência Técnica da Casa do Cooperativismo.

Ele [consumidor] gera energia, abate na conta de luz, porque não pode vender, mas pode fazer uso da rede de distribuição como se fosse uma bateria – gera energia fotovoltaica durante o dia, injeta na rede e consome na hora que quiser”, completou o analista.

Morato explica, ainda, que em 2015 houve uma reformulação da regra e a OCB conseguiu incluir o cooperativismo no rol de alternativas para geração de energia, ou seja, em vez de cada consumidor, sozinho, tentar criar uma forma de gerar energia, a resolução permitiu que eles se unissem em cooperativas  que produzissem energia a ser compensada nas casas ou unidades consumidoras dos cooperados (cooperativa de Geração Distribuída).

Um grupo de pelo menos 20 pessoas pode constituir uma cooperativa para produzir a própria energia, que será distribuída na forma de créditos em kWh na conta de luz entre os cooperados, em percentuais previamente aprovados por todos. Também no entendimento da ANEEL, é possível que cooperativas já constituídas, independentemente da atividade econômica principal, promovam a geração de energia e compensem nas unidades consumidoras de seus cooperados.

Resolução nº 482 da Aneel

Publicada em 17 de abril de 2012, a norma permitiu aos consumidores realizar a troca da energia gerada com a da rede elétrica. Com isso, consumidores que instalam placas solares em seus telhados ou terrenos (ou usam outra tecnologia de geração própria) podem entregar a energia excedente ao sistema elétrico pelas redes das distribuidoras durante o dia, quando o sol está a pino. Depois, durante a noite, recebem a energia das outras fontes de geração do sistema, por meio das mesmas redes elétricas.

Atualmente, a resolução encontra-se em revisão na ANEEL, com o desafio de alocar corretamente os custos do uso do sistema de distribuição ao modelo. 

Uma cooperativa de Geração Distribuída: Uma cooperativa de Geração Distribuída (GD) consiste na reunião de pessoas, físicas e/ou jurídicas, que têm em comum a vontade de produzir a própria energia, mas que, por alguma razão, não poderiam (ou não gostariam) de fazê-lo sozinhas.

SERVIÇO: Gostou da ideia?

Tem interesse em reduzir o valor da conta de luz e ainda agregar valor aos seus produtos? Já pensou em produzir a sua própria energia? Se você gostou da ideia e quer constituir uma cooperativa com esse intuito, baixe agora o Guia de Constituição de Cooperativas de Geração Distribuída Fotovoltaica, documento produzido pela OCB em parceria com a DGRV (entidade de representação do cooperativismo alemão), a Aneel, o Ministério de Minas e Energia e a Agência de Cooperação Técnica da Alemanha (Agiv).

SERVIÇO 2: Saiba onde buscar recursos para trazer energia solar para sua casa ou cooperativa

Sicredi

A cooperativa tem, desde 2015, uma linha de crédito específica para a aquisição de tecnologias (equipamentos, softwares e serviços) por associados (pessoa física ou jurídica) interessados em investir em energia renovável.

Somente em 2018, a linha de Financiamento para Energia Solar concedeu R$ 232 milhões em 2,7 mil operações – quase oito vezes mais operações que no ano anterior.

Atualmente, a carteira do Financiamento para Energia Solar do Sicredi é de R$ 586 milhões. As contratações têm um valor médio de R$ 69 mil e o prazo para pagamento é, em geral, de cinco anos. Apenas em julho deste ano, foram concedidos R$ 60 milhões em crédito nessa linha, em mais de mil operações

Sicoob

Os cooperados do Sicoob têm à disposição a linha BNDES Finame Energia Renovável, destinada a empresas, órgãos da administração pública, empresários individuais e microempreendedores, produtores rurais, transportadores autônomos de carga, fundações, associações e cooperativas, pessoas físicas e condomínios. O prazo de pagamento é de até 120 meses, com carência de até 24 meses.

Cooperativas agropecuárias — além de pequenos, médios e grandes produtores —podem ter acesso, ainda, aos programas de financiamento agropecuário do BNDES. As taxas variam de 3% a 8% ao ano, com prazo de pagamento de cinco anos e carência de até 36 meses. Nessa linha, apenas em 2019, foram financiados R$ 20 milhões, em 133 operações de crédito.



Esta matéria foi escrita por Lílian Beraldo e está publicada na Edição 27 da revista Saber Cooperar. Baixe aqui a íntegra da publicação


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