Tu trabalhas, ele e ela trabalham. E eu? Também quero trabalhar!

Conheça a história de duas cooperativas brasileiras que estão dando emprego, renda e dignidade a pessoas com deficiência intelectual. Mais uma prova de que, cooperando, é possível transformar o mundo em um lugar mais justo e diverso

Farol Conteúdo
26/04/2022

Com uma deficiência intelectual que a impediu de aprender a ler e escrever quando criança, Jéssica Teixeira, 28 anos, também estaria afastada de uma atividade produtiva, não fosse a iniciativa pioneira de uma organização que já tem muita história para contar: a Cooperativa Social de Pais, Amigos e Portadores de Deficiência (Coepad), que fica em Florianópolis.

Eu sempre quis ir à escola, trabalhar também. Mas, logo no início, quando eu era pequena, não conseguia unir as palavras. Então, acabei me afastando da escola. Depois, adulta, tentei emprego em três lugares, mas era difícil porque as empresas não dão muita importância quando veem que a gente é deficiente. Hoje, na Coepad, eu tenho mais do que um emprego; tenho amigos e, graças a esse trabalho, eu me desenvolvi e voltei a estudar. Estou na Educação de Jovens e Adultos, aprendendo a ler e a escrever. Trabalhar aqui me estimulou a aprender”, relata Jéssica, emocionada ; ela trabalha na produção de papéis reciclados, papéis-semente, material de escritório e papelaria.

Fundada há 22 anos, por pais e mães de pessoas com síndrome de Down, a Coepad emprega atualmente 40 pessoas com variados tipos de deficiência intelectual. Alguns dos cooperados estão empregados em empresas que procuram a cooperativa para cumprir a Lei das Cotas para pessoas com deficiência (Lei 8.213/1991) . Alguns dão expediente na empresa terceirizadora, outros continuam trabalhando na produção de papéis nas dependências da Coepad. 

MAIS QUE NÚMEROS

Pioneira do cooperativismo na busca por inclusão de pessoas com deficiência intelectual no mercado de trabalho, a Coepad nasceu do ato coletivo e desprendido de vários pais e mães. Mas pode-se dizer que o pontapé dessa história foi o “incômodo” de um deles, Aldo Brito. 

Quando a filha de Aldo tinha apenas dois anos e brincava no jardim, uma senhora que a viu      perguntou se ela era “tolinha”.

Não foi por preconceito, acredito eu. Era o jeito que ela tinha de se expressar [a filha de Aldo tem síndrome de Down e hoje está com 44 anos]. Eu disse que sim, mas fiquei curioso pra saber o motivo daquela pergunta. Então, ela me deu um conselho: ‘põe ela com gente boa, porque ela vai ficar boa também’. E foi o que fiz, ao lutar pela inclusão dela. Anos depois, lembrei do que disse aquela senhora de um jeito diferente. Percebi que não é só minha filha que ganha ao conviver com outras pessoas. Quem convive com pessoas como ela também se tornam seres humanos melhores”, explica.

A Coepad nasceu do desejo de Aldo e outros pais de integrar pessoas com deficiência no mercado de trabalho, para aumentar sua dignidade, autonomia e autoestima. “Nós nos dividimos em três grupos: um foi estudar o que era necessário para montar uma cooperativa, outro, que foi cuidar da documentação e a base legal; e o terceiro ficou de definir em que atividade devíamos nos concentrar. De 50 sugestões, testamos três: a produção de vassouras, fraldas e papel. Abandonamos logo as vassouras, pois o produto não teve saída. As fraldas, no início, tiveram mercado, chegamos a produzir. Mas logo a concorrência nos fez deixar pra trás esse nicho. Como o papel que produzíamos, a partir da reciclagem, era todo diferenciado, com o tempo, ganhou mercado e passou a ser a matéria-prima de nossos produtos”, recorda.  

AMIGOS PARA SEMPRE

Diferentemente de Jéssica Teixeira, a personagem do início desta reportagem que lutou para estar envolvida numa atividade produtiva, Nívia Maria Silva, 48 anos, nunca pensou que poderia, um dia, voltar a trabalhar. Sim, voltar. Aos 19 anos, ela sofreu um acidente que teve efeitos permanentes sobre sua capacidade mental. No início, as sequelas afetaram até mesmo a fala e o caminhar – funções que, mais tarde, ela retomou. Mas o raciocínio e a adaptabilidade à vida social nunca mais foram os mesmos. Nívia perdeu a capacidade de memorização e ficou desorientada. E, assim, ela se tornou totalmente inabilitada para atividades comuns e corriqueiras para muitas pessoas.

Nívia já tinha trabalhado como secretária e no comércio também — setor em que chegou a ser empresária, ao ter montado um pet shop. Mas, depois do acidente e de suas consequências, nem cuidar do filho — que era um bebê à época e ainda mamava, — ela conseguia. 

Foi bem difícil pra mim pensar em trabalhar como antes, eu tinha muito medo da rejeição. Porque, ainda mais que a minha deficiência não é algo visível. Então, se alguém com deficiência física já é difícil encontrar um espaço no mercado de trabalho, imagina com uma deficiência que não se vê”, constata.

E ela confessa que seu caso não foi como o de seus amigos da Coepad, que viram na cooperativa um bote seguro no meio de uma enchente. “Eu nem queria vir aqui. Meu cunhado e minha irmã insistiram. Eu tinha medo que me olhassem diferente ou exigissem de mim o desempenho de uma pessoa neurotípica. Mas, hoje, sete anos depois, não me vejo fora daqui. Trabalhar me fez me sentir útil, capaz de muitas coisas, novos pensamentos e ideias”.

O acolhimento é a filosofia que norteia a Coepad. Silvana Zimmermann, diretora administrativa-financeira da cooperativa, foi quem entrevistou Nívia quando ela chegou em busca de uma vaga. 

Ela chorava de um lado e eu, do outro, sem saber o que fazer. Não tinha nem como começar a entrevista. Porque ela só chorava. Hoje, eu vendo o relato dela sobre a trajetória aqui, na Coepad, eu me emociono. Quando a cooperativa começou, há mais de 20 anos, não se falava em inclusão como hoje. Agora, quando vejo que quem faz a construção do dia a dia são eles, vejo que isso é fruto também do nosso jeito de tratá-los, pois a gente primeiro vê a pessoa, não a deficiência. Vemos que todos têm suas capacidades e, aqui, envolvidos com seus pares, pessoas com o mesmo tipo de limitação, eles desenvolvem sua autoestima. É um orgulho pra mim”, celebra.

Mas o espírito desse negócio inclusivo não se resume à atividade econômica: os cooperados ali têm acesso a atividades esportivas, por meio de um convênio com o Instituto Guga Kuerten. E, claro, a socialização, por meio de confraternizações e outras atividades, une ainda mais os associados que já têm tanto em comum. “Os amigos que fiz aqui são fundamentais na minha vida”, afirma Nívia.

INSERÇÃO E RENDA

É certo dizer que a Coepad pode servir de modelo para outras cooperativas, até pelo seu pioneirismo, mas isso não significa, necessariamente, inspirar-se nos mesmos pilares. Em Franca, cidade que fica na porção nordeste do estado de São Paulo, inserida em um polo de grande expressão econômica, nasceu a Cooperativa Social de Pessoas com Deficiência Intelectual, Familiares e Amigos (Codifa), com forte atuação na capacitação e busca pelo cumprimento da lei que determina a contratação mínima de pessoas com deficiência por parte das empresas. E quem conta como isso aconteceu é Cristiane Olegário Barbosa, articuladora da cooperativa, supervisora de Gestão e Pessoas, e responsável pela área de responsabilidade social da Sicoob Credicocapec.

A Codifa é resultado de um projeto de responsabilidade social do Sicoob Credicocapec em parceria com o Centro de Educação Integrada (CEI) — instituição mantida pela prefeitura de Franca com foco na inserção de pessoas com deficiência no mercado de trabalho. 

Começamos com a capacitação de pessoas com deficiência intelectual, que é a expertise do CEI, com quem fizemos parceria logo no início. E isso engloba desde o curso de relações de trabalho, elaboração de currículos, até a inserção nas empresas”, explica Cristiane.

A diretora do CEI, Sandra Cristina Calandria Pedigone, revela que a união com a Codifa permitiu ampliar o alcance do projeto educacional da instituição. “Antes, nós trabalhávamos somente com a Lei de Cotas, buscando encontrar vagas para nossos alunos no mercado de trabalho. Depois da parceria com a Codifa, conseguimos incluir as pessoas com deficiência que são beneficiárias do BPC [Benefício de Prestação Continuada] na cooperativa. No começo foi difícil, porque as famílias tinham medo de perder o benefício, caso os filhos começassem a trabalhar. Havia o receio de eles serem demitidos, e acabarem sem nada”, explica Sandra.

Para criar um mecanismo eficiente — capaz de dar um mínimo de garantia de acesso a uma vaga de trabalho às pessoas treinadas no CEI e cooperadas da Codifa —, foram feitas outras parcerias, envolvendo ainda auditores-fiscais do Trabalho, a Justiça do Trabalho de Franca, o Juizado Especial da Infância e da Adolescência e o Senac. Agora, os beneficiários do BPC podem trabalhar — sentindo-se mais úteis e cidadãos — sem perder a ajuda de custo do governo. 

Mas nem sempre há o que se comemorar. Sandra Pedigone, por exemplo, acredita que deveria haver mais conscientização por parte das empresas para incluir as pessoas com deficiência no mercado de trabalho, de forma que buscassem a inclusão não só em função da obrigatoriedade, mas também por acreditarem que essas pessoas têm potencial. 

“Na pandemia, por exemplo, constatamos que, diante da perda econômica vinda com o lockdown, os primeiros a serem dispensados foram pessoas com deficiência. Nas incubadoras do cooperativismo, foram registradas 36 demissões, sendo que, em todo o ano de 2016, foram 23.”     

UMA FAMÍLIA

Brian Eduardo da Silva, 29 anos, já trabalhou como empacotador de congelados e operador de esteira, separando sapatos. Há dois anos trabalhando na Codifa, mesmo não tendo uma renda pelo trabalho que faz (Brian tem problemas neurológicos que prejudicaram sua capacidade de memorização e, em função de sua deficiência, é beneficiário do BPC), a cooperativa tem um significado mais do que especial para ele. “É como uma família para mim, um lugar onde a gente conversa, ri, se entende, trabalha. Eu não vivo sem a Codifa. Mais pessoas como eu deveriam conhecer a cooperativa”, defende.

Treinado em uma das turmas de capacitação em mídias sociais abertas pelo Senac, Brian agora faz parte da equipe de produção de conteúdo da Codifa. Com outros meninos e meninas, ele alimenta o perfil da cooperativa no Instagram e faz a propaganda dos produtos. Os cooperados produzem papel e artefatos que têm o papel como matéria-prima, como produtos de patchwork, sacolas de festas infantis, calendários, porta-retratos, agendas, blocos de anotação, porta-retratos, marcadores de livro, cartões de fim de ano. Aliás, é exclusivamente por meio da rede social que a produção da cooperativa é vendida, no perfil @codifafranca.

Sempre que vê uma peça da cooperativa ser vendida, Brian se orgulha de ter uma atividade que exige mais do seu raciocínio do que uma ocupação artesanal. “Eu comecei aqui com muita dificuldade de memorizar. Mas as pessoas foram tendo paciência comigo e me ajudaram. Tem lugar que tem preconceito e não nos aceita como somos. Quando eu escuto a experiência dos meus amigos, por exemplo, penso em mim e vejo que, se eles tivessem tido mais apoio, teriam ido mais longe”, diz ele, dando a tônica de que não basta atingir os percentuais estipulados por lei. É preciso alcançar a totalidade do princípio da inclusão e abraçar a causa dessas pessoas, que são capazes e podem ser produtivas.

===========================================================================

ENTENDA O CONCEITO DE PESSOAS COM DEFICIÊNCIA (PCD)

De acordo com orientações internacionais, consideram-se pessoas com deficiência os indivíduos que afirmam ter pelo menos muita dificuldade em uma ou mais questões relacionadas às habilidades de enxergar, ouvir, caminhar ou subir degraus, se relacionar com outras pessoas ou aprender. Tomando como base essa definição, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), que elabora o Censo, constatou que o Brasil tem mais de 12,5 milhões de brasileiros com deficiência, o que corresponde a 6,7% da população, de acordo com o ano do censo.

O Transtorno do Desenvolvimento Intelectual ou Deficiência Intelectual é um quadro caracterizado por limitações nas habilidades mentais em geral. São habilidades ligadas à inteligência, que envolvem raciocínio, resolução de problemas e planejamento. A condição também afeta o comportamento adaptativo do indivíduo, expresso nas habilidades conceituais, sociais e práticas.

A Deficiência Intelectual não é uma doença, e a pessoa com esse quadro deve ser devidamente acompanhada por um médico e receber estímulos por meio do acompanhamento psicológico, fonoaudiológico e com terapeutas ocupacionais. Assim, as limitações podem ser superadas por meio da ajuda profissional, com vistas ao seu desenvolvimento.

============================================================================


Esta matéria foi escrita por Lana Cristina e está publicada na Edição 37 da revista Saber Cooperar. Baixe aqui a íntegra da publicação


Leia outras notícias da revista Saber Cooperar

  • 2020 © Somos Coop. Todos os direitos reservados.