Uma consulta sobre nossa identidade

Pesquisa global promoverá reflexão sobre o que nos faz ser coop. Nossa atuação em relação às mudanças climáticas está no centro dos debates

Farol Conteúdo
15/07/2022

O que faz de uma cooperativa uma cooperativa? A Aliança Cooperativa Internacional (ACI) iniciou um processo consultivo global para analisar a compreensão dos cooperados sobre a identidade do nosso movimento. Afinal, com princípios e valores bem definidos fica mais fácil se manter alinhado aos propósitos que dão vida ao nosso movimento. 

A proposta da pesquisa surgiu durante o 33º Congresso Cooperativo Mundial, realizado em novembro de 2021, em Seul, na Coreia do Sul. Em um contexto marcado pelas fortes transformações sociais provocadas pela pandemia da Covid-19, foi natural as pessoas se perguntarem como essas mudanças afetariam o coop. 

De acordo com Alexandra Wilson, presidente do Grupo Consultivo de Identidade Cooperativa da ACI, os princípios do coop possuem aspecto operacional, indicando as questões práticas de como organizar e operacionalizar uma cooperativa. Já os valores são os motivos que levam as pessoas a adotar esse modelo de negócio. 

Na opinião do presidente do Conselho de Administração da Sicredi Pioneira, Tiago Luiz Schmidt, a essência do movimento cooperativo é um grupo de pessoas que se reúne para desenvolver uma atividade econômica que tem impacto social.

Eu acredito que não existe uma cooperativa próspera numa comunidade pobre. Uma cooperativa se torna cada vez mais próspera a partir do momento em que ela também consegue promover prosperidade aos associados e comunidade em que ela atua”, explica. Para ele, manter o equilíbrio entre o econômico e o social é crucial para que uma organização demonstre estar alinhada com a identidade cooperativista.

MODELO DURADOURO

A necessidade de construção de uma identidade está no cerne da criação do movimento cooperativo. Ao se reunir para compra e venda coletiva de mercadorias na Inglaterra, em 1844, os 28 tecelões conhecidos como pioneiros de Rochdale precisaram estabelecer critérios que os diferenciavam dos outros modelos de negócios já existentes. Assim nasceu a Sociedade Equitativa dos Pioneiros de Rochdale, na tentativa de criar um negócio que respondesse às desigualdades de organizações empresariais, ao mesmo tempo em que empoderasse as pessoas. Um dos motivos do sucesso duradouro do modelo é atribuído ao estabelecimento de um estatuto social com objetivos e normas para orientar a estrutura e o funcionamento da cooperativa. Esses conceitos foram debatidos durante os congressos internacionais promovidos pela ACI em 1937 e 1966, e adotados como princípios cooperativistas desde então (?).

Em 1995, durante uma nova assembleia, a ACI formalizou a Declaração sobre a Identidade Cooperativa, que inclui os princípios cooperativos e os valores-chave nos quais as cooperativas se baseiam: autoajuda, autorresponsabilidade, democracia, igualdade, equidade e solidariedade. Foi nesse momento que um novo princípio foi adicionado para atender demandas de cooperativas em todo o mundo: o interesse pela comunidade. A presidente do Grupo Consultivo da ACI comenta que, em todas as ocasiões em que os princípios foram colocados em análise, chegou-se à conclusão de que eles se mantinham fundamentalmente sólidos. Na opinião de Alexandra, isso ocorre porque os princípios atendem necessidades humanas universais. 

A experiência e a história nos mostram que há algo duradouro no modelo de negócios cooperativista e da Identidade Cooperativa, que dura mesmo quando o mundo e as próprias cooperativas se transformam. Mesmo a inclusão do 7º Princípio não quer dizer que a preocupação com a comunidade não existia antes, ela só não havia sido expressa de forma oficial”, salienta. 

POR QUE AGORA?

Passados quase 30 anos desde a última reflexão em escala global sobre o cooperativismo, a ACI volta a propor aos cooperados uma análise profunda e ampla sobre a Declaração de Identidade Cooperativa, sob a luz dos desafios do mundo atual. O coordenador de Relações Internacionais do Sistema OCB, João Martins, lembra que o coop surge como uma forma de manter a dignidade humana, gerando prosperidade e desenvolvimento social. 

Em um momento em que a sociedade passa por grandes dificuldades novamente — pandemia, aumento da desigualdade e conflitos armados —, a ACI vem propor a identidade cooperativista como uma forma de enfrentar os grandes problemas da humanidade”, comenta. 

Alexandra Wilson revela que desde a conclusão da assembleia de 1995, já começaram a ser identificadas questões sobre as quais as cooperativas deveriam se debruçar com mais ênfase, com destaque para a preservação ambiental, as relações trabalhistas, a educação sobre cooperativismo e, mais recentemente, inclusão e diversidade. Com isso em mente, foram publicadas, em 2016, as Notas de Orientação para os Princípios Cooperativos, que apontam diretrizes e conselhos detalhados para a aplicação prática dos princípios cooperativos. Alexandra reconhece, no entanto, que a extensão do documento reduz sua aplicabilidade no dia a dia dos cooperados. 

Para Martins, o momento é de fazer com que a sociedade perceba o diferencial cooperativista e que cada cooperativa se entenda como parte dessa iniciativa de mudança de comunidades mais sustentáveis. “A partir do momento que você tem um modelo de negócios que respeita os aspectos democráticos e compartilha os resultados de forma igualitária, você passa a ter uma sociedade mais estável, pacífica e economicamente responsável”. 

PREOCUPAÇÃO URGENTE

“Cooperativas precisam fazer mais e mostrar mais o que fazem para suas comunidades, em especial na atuação diante das mudanças climáticas”. A declaração de Alexandra Wilson resume dois temas apontados como prioritários pelos cooperados que participaram do 33º Congresso Cooperativo Mundial. Mesmo que o desenvolvimento sustentável esteja presente no 7º princípio e que o 5º princípio defenda a educação para o cooperativismo, as transformações provocadas pelo desenvolvimento econômico e pelas novas formas de organização social, impuseram mais peso a essas temáticas dentro da identidade cooperativa. 

As cooperativas estão correndo o risco de serem deixadas para trás por não se preocuparem adequadamente com o que está acontecendo com o mundo ao nosso redor. Nós vivemos uma emergência climática. O meio ambiente está sendo degradado em um ritmo que ameaça a viabilidade da espécie humana. E nós que acreditamos no cooperativismo como o melhor modelo, devemos nos perguntar se estamos fazendo mais do que outras companhias e organizações não lucrativas”, declara a presidente do Grupo Consultivo da ACI.

Apesar dos esforços realizados até o momento, a compreensão do público sobre o modelo cooperativo é relativamente baixa. Nesse sentido, Alexandra acredita que a consulta pode sugerir uma ênfase mais direta à conscientização sobre o modelo cooperativo. João Martins também compartilha dessa preocupação para que o cooperativismo não seja visto como uma ideia obsoleta. 

“A ACI entende que o cooperativismo vai ser transversal às mudanças pelas quais a humanidade passa. Para acompanhar o avançar da humanidade e dos debates globais que influenciam cooperados mundo afora, a ACI propõe essa grande consulta”, esclarece. 

Alexandra reforça que, apesar de não ser possível prever o resultado desse processo consultivo, o que se analisa não é uma retirada de princípios, e sim a possibilidade de adaptação ou inclusão de novos aspectos. 

ETAPAS DA CONSULTA

Diante da árdua tarefa de desenvolver uma pesquisa em escala global, o Conselho da ACI criou o Grupo Consultivo de Identidade Cooperativa (CIAG), composto por 23 membros de todas as regiões de atuação da ACI. O grupo é responsável por planejar ações que promovam uma consulta e reflexão a respeito da identidade cooperativa. A presidente do Conselho, Alexandra Wilson, explica que o processo ainda está na fase inicial e deve demorar de dois a três anos para ser concluído.

 Nessa etapa inicial, uma pesquisa foi disponibilizada no site da ACI para recolher as impressões iniciais de cooperados a respeito do significado da identidade cooperativa. A consulta aborda temas comuns a membros da ACI de todos os 150 países onde as cooperativas estão presentes. No momento, o formulário está disponível em inglês, francês e espanhol, e está sendo traduzido para diversos idiomas. 

O Sistema OCB é a organização parceira da ACI para levar essa consulta ao conhecimento das cooperativas e dos cooperados no Brasil. Segundo o coordenador de Relações Internacionais da OCB, os documentos já foram traduzidos para o português e a entidade está em contato com as Unidades Estaduais para definir a melhor forma de divulgação e disponibilização da pesquisa.

Isso deve acontecer nos próximos meses e está previsto um anúncio sobre a consulta no Dia Internacional do Cooperativismo”, afirma João. No próximo dia 20 de junho, o Grupo Consultivo deve tratar sobre a pesquisa na Assembleia Geral da ACI em Sevilha, na Espanha. Segundo Martins, a expectativa é de que na ocasião seja definido um calendário de consultas e eventos e, a partir daí, o Sistema OCB terá instrumentos para levar as informações completas às cooperativas brasileiras.

Alexandra explica que, para além do formulário on-line, devem ser realizados webinars e outros eventos consultivos em escalas regionais e internacionais para que o debate sobre identidade cooperativa agregue o máximo de pessoas possível de forma interativa. “Temos grandes ambições. O objeto é envolver todos do mundo cooperativista que tiverem interesse, independente de atuação, cargo ou localidade. O objetivo é realizar uma consulta ampla e profunda”, define.

Após reunir todas as informações e avaliações colhidas, e tendo em mente os princípios formadores, o Grupo Consultivo apresentará um parecer com sugestões à Assembleia da ACI, que vai então decidir o que fazer com as proposições apresentadas. Caso haja um entendimento de possível mudança na Declaração sobre a Identidade Cooperativa, o conselho recomenda a questão para a Assembleia Geral, que coloca a questão em votação. 

Uma alteração na Declaração não é um processo simples, já que ela está incorporada no reconhecimento das cooperativas pela Organização Internacional do Trabalho e na legislação cooperativa em diferentes países. Diante desse cenário, Alexandra Wilson aponta uma outra possibilidade: “esse não seria um processo simples, uma mudança teria que passar por duas assembleias gerais consecutivas. Já as Notas de Orientação são mais fáceis de serem alteradas. Há possibilidade, inclusive, de criar algum documento intermediário entre a Declaração e as Notas”.

IDENTIDADE FORTALECIDA

Estimular as pessoas a pensar sobre identidade cooperativa pode, por si só, fortalecer a organização cooperativa. Essa é uma das apostas da ACI com esse movimento. O presidente da Sicredi Pioneira compartilha dessa expectativa. “O segredo para preservar a identidade está no relacionamento entre associados”, avalia Tiago Luiz Schmidt. Segundo ele, quando a cooperativa realiza movimentos que trazem cooperados para dentro da organização, a comunidade se fortalece. 

A promoção de debates e capacitações sobre assuntos de interesse dos cooperados auxilia na formação de um vínculo com a cooperativa e empodera os cooperados sobre os princípios e valores do cooperativismo. Em contrapartida, o engajamento dos associados fomenta inovações nos produtos, serviços e na atuação da própria cooperativa.

Quando isso acontece, a gente atinge o momento mágico de uma identidade cooperativa plena, que não é aquela identidade que lideranças, diretores e gestores conceituam, mas aquela que os associados efetivamente vivem no seu dia a dia. Isso é identidade cooperativa: é o cooperativismo vivido pelo próprio associado”, conclui Schmidt.

Para a presidente do Grupo Consultivo de Identidade Cooperativa da ACI o conceito “1 membro, 1 voto” é o mais duradouro dos conceitos cooperativistas. “Nenhuma outra forma de negócios adota esse modelo de gestão. Esse é o princípio que eu prevejo que nunca vai ser alterado, mas é possível ter um debate sobre como melhor expressar a gestão democrática nas cooperativas para além desse nível primário”, comenta. Na avaliação de Alexandra, esse também pode ser um bom momento para que cooperativas percebam que sua identidade deve ser encarada como uma vantagem competitiva.

Uma etapa seguinte a essa mobilização teórica em torno da identidade cooperativa, é uma movimentação prática que coloque em ação tais princípios e valores. Um exemplo histórico é o ato inovador e revolucionário dos pioneiros de Rochedale que permitiram o voto de mulheres em uma época em que isso era proibido no mundo. E agora que o 33º Congresso Cooperativo Mundial apontou como foco de preocupação questões como aquecimento global, e promoção de diversidade, equidade e inclusão, essa consulta pode estimular as cooperativas a encontrar soluções tangíveis que apenas esse modelo de negócios pode proporcionar.

Alexandra Wilson impulsiona essa provocação: “Se somos uma cooperativa e operamos dentro desses valores e princípios, não deveríamos nós dizer como precisamos agir?” O presidente da Sicredi Pioneira resgata o legado do patrono do cooperativismo brasileiro, padre Theodor Amstad, ao também propor que a reflexão venha acompanhada de ação. Tiago Schmidt usa como exemplo as ações adotadas nos processos seletivos abrangentes e inclusivos da Sicredi Pioneira, que trazem diversidade para o dia a dia dos cooperados.

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Princípios do Cooperativismo expressos na Declaração de Identidade Cooperativa da ACI de 1995, que será revista este ano:

1. Adesão livre e voluntária

As cooperativas são organizações voluntárias, abertas a todas as pessoas aptas a utilizar os seus serviços e assumir as responsabilidades como membros, sem discriminações de sexo, sociais, raciais, políticas e religiosas.

2. Gestão democrática

As cooperativas são organizações democráticas, controladas pelos seus membros, que participam ativamente na formulação das suas políticas e na tomada de decisões. Os homens e as mulheres, eleitos como representantes dos demais membros, são responsáveis perante estes. Nas cooperativas de primeiro grau os membros têm igual direito de voto (um membro, um voto); as cooperativas de grau superior são também organizadas de maneira democrática.

3. Participação econômica

Os membros contribuem equitativamente para o capital das suas cooperativas e controlam-no democraticamente. Parte desse capital é, normalmente, propriedade comum da cooperativa. Os membros recebem, habitualmente, se houver, uma remuneração limitada ao capital integralizado, como condição de sua adesão.

4. Autonomia e independência

As cooperativas são organizações autônomas, de ajuda mútua, controladas pelos seus membros. Se firmarem acordos com outras organizações, incluindo instituições públicas, ou recorrerem a capital externo, devem fazê-lo em condições que assegurem o controle democrático pelos seus membros e mantenham a autonomia da cooperativa.

5. Educação, formação e informação

As cooperativas promovem a educação e a formação dos seus membros, dos representantes eleitos e dos trabalhadores, de forma que estes possam contribuir, eficazmente, para o desenvolvimento das suas cooperativas. Informam o público em geral, particularmente os jovens e os líderes de opinião, sobre a natureza e as vantagens da cooperação.

6. Intercooperação

É a cooperação entre as cooperativas, para o fortalecimento do movimento como um todo e dos princípios cooperativistas. Isso pode ocorrer em diversos níveis: através das estruturas locais, regionais, nacionais, internacionais; entre cooperativas do mesmo sistema; com cooperativas de outros sistemas; e com cooperativas de outros ramos do cooperativismo.

7. Interesse pela comunidade

As cooperativas trabalham para o desenvolvimento sustentável das comunidades onde estão inseridas, através de políticas aprovadas pelos membros. Prezam por investimentos em projetos que sejam economicamente viáveis, ambientalmente corretos e socialmente justos.


Esta matéria foi escrita por Mariana Fabre e está publicada na Edição 38 da revista Saber Cooperar. Baixe aqui a íntegra da publicação


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