Uma fábrica de experimentos

Para inovar, cooperativas devem perder o medo de errar e apostar as fichas no aprendizado, na eficiência e na velocidade de encontrar soluções para os clientes

Farol Conteúdo
22/10/2021

Olhando o calendário, o ano corrente é 2021. Mas, quando o assunto é transformação e aceleração digital, já estamos no Brasil de 2030. E não se trata de viagem no tempo. A provocação é de Renato Mendes, coautor do livro Mude ou Morra. Segundo ele, sob a perspectiva dos negócios, a pandemia trouxe um fenômeno interessante que deveria ser aproveitado por todos: a aceleração no processo de digitalização.

Renato Mendes,professor do Insper.


No cenário pré-pandemia, o digital ‘era quase uma obrigação’; o que estamos vendo hoje é que ele agora é uma necessidade”, afirma Renato, também professor do Insper e da Pontifícia Universidade Católico do Rio Grande do Sul (PUC-RS).

Para o pesquisador, o surto sanitário, em si, não trouxe elementos novos, apenas acelerou mudanças que já estavam por ocorrer: maior consumo de plataformas on-line, como cursos e reuniões. 

“Não tem desculpa para não estar se preparando para o digital, porque isso já iria acontecer. A diferença é que essa mudança aconteceria daqui a dez anos, mas aconteceu em alguns meses”, endossa. 

“Estamos vivendo o Brasil digital em 2030. E a minha provocação inicial é: vocês estão preparados para o Brasil digital de 2030?”, questionou ao participar de painel on-line com a presença de representantes de diversas cooperativas durante a Semana ConexãoCoop.

CAMINHO SEM VOLTA

Na avaliação do especialista, não há alternativa, no mundo de hoje, que não passe pelo uso dos canais digitais. E os objetivos são claros: conhecer melhor o público; vender mais, e se comunicar com a base. 

O digital tem que estar na agenda de todo mundo, independentemente do setor de atuação ou do tamanho de cada uma das operações”, enfatizou.

Renato Mendes destaca que vivemos uma mudança de paradigma da “economia tradicional” para a “nova economia”. Por isso, é  necessário estar preparado para não ficar para trás e perder relevância. 

“Não temos opção, a não ser entender o funcionamento desse novo mundo digital, conhecer as melhores práticas e se aproveitar delas nos negócios.”

Na avaliação dele, é preciso aprender “o jeito startup de fazer negócios”. “Essa é a turma que puxa a fila, qualquer que seja o assunto ligado ao digital. Eles recrutam as melhores pessoas, vendem melhor, se comunicam melhor, têm ferramentas de gestão mais eficientes.” 

CLIENTE EM PRIMEIRO LUGAR

Entre os principais aprendizados da nova economia, Renato Mendes aponta o que considera o principal: foco no cliente. 

Nas economias tradicionais, empresas e cooperativas desenvolvem um modelo de negócios que funciona para elas, criam um produto internamente e, em seguida, empurram essa “solução” para os clientes. 

Na nova economia — guiada pelo pensamento startup —, esse tipo de receita não funciona. O caminho é inverso: elas primeiro ouvem o cliente para depois planejar algo para eles. Existe uma cultura de escuta ativa, que valoriza e prioriza a opinião do usuário final, não havendo espaço para suposições ou achismos. 

Ele alerta, ainda, para um erro comum nas empresas de pensamento analógico: tentar copiar o concorrente, em vez de criar soluções para o consumidor. 

Apaixone-se pelos problemas do seu cliente e não pelo seu produto”, enfatizou.  

Ainda segundo ele, a premissa que move as startups é ser mais eficiente na resolução de problemas. “Eu costumo dizer que startup boa é aquela que é resolvedora de problema de cliente. Qual problema a cooperativa de vocês resolve? De quem é esse problema? Como é que essa turma resolvia esse problema antes de você existir, ou como é que ela resolve com o seu concorrente? Vocês estão colocando na mesa pra fazer melhor? É a melhor condição de pagamento? É a melhor experiência? O que vocês fazem melhor?”, questionou o especialista. 

JOGO DA APRENDIZAGEM

Errar faz parte do processo de crescimento e aperfeiçoamento dos negócios. De acordo com o professor do Insper, startups entendem que nada nasce perfeito e, portanto, é preciso focar no aprendizado para ter um produto ou serviço melhor. “Só não evolui quem está parado”, afirmou. 

Um modelo de negócio que faz uma empresa crescer hoje pode não funcionar amanhã. Por isso, segundo o especialista, é preciso observar os ciclos de aprendizado e crescimento. 

Crie seu modelo desafiante antes que o modelo campeão — aquele que dá certo e que lhe trouxe até aqui — mostre sinais de esgotamento.” Um caminho para isso, aponta, é testar rápido e constantemente novos produtos e serviços.  

“Na velha economia, ganhava o jogo quem tinha a melhor ideia, e isso mantinha o negócio por anos. Na nova economia, ganha quem aprende mais rápido. É um jogo de aprendizado, de tentativa e erro, com metodologia, não é bagunça”, avaliou.

Segundo ele, na economia tradicional há uma aversão ao erro. As startups, entretanto, testam muito e 80% das hipóteses mostram-se equivocadas. 

É preciso entender que o erro nada mais é do que um processo de aprendizado para o novo, mas isso não quer dizer que é para cometer um erro que vá colocar a cooperativa, a saúde financeira da empresa em risco”, advertiu, destacando que é preciso ser proativo e agir rápido para evitar ficar para trás da concorrência. 

E atenção para a dica de Mendes: “é preciso incentivar que as pessoas experimentem coisas novas. As cooperativas têm que ser uma fábrica de experimentos”.

Ainda segundo Renato, o modelo de gestão do futuro é o que faz as pessoas se sentirem empoderadas e instrumentalizadas para testar e experimentar constantemente. “Empresas tradicionais gastam muito tempo tentando evitar erros, quando o foco deveria estar em corrigi-los rapidamente e aprender com eles”, concluiu. 

O caminho para mudança de mentalidade — ele admite — não é simples, porém é urgente. “Antes, ganhava quem tinha uma super ideia e um super planejamento; hoje, ganha quem aprende mais rápido, quem tem capacidade de adaptação: adequar o plano à medida que o cenário muda. E a pandemia trouxe isso como aprendizado”, observou. 


Esta matéria foi escrita por  Por Manuel Marçal e está publicada na Edição 35 da revista Saber Cooperar. Baixe aqui a íntegra da publicação


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