Uma história brasileira

Chefe de família e mãe de quatro filhos, Erlane Mariana reconhece na própria luta a vida da mãe, das colegas de cooperativa e de tantas outras mulheres. São pessoas como a dela que o projeto Agro Fraterno procura ajudar

Farol Conteúdo
25/08/2021

“Onde é que mora a Maria Vaqueira?”, perguntava Erlane Mariana dos Santos, na tarde de 6 de janeiro de 2020, pelas ruas do Assentamento Esperança, em Curimatá, interior do Piauí. Maria Vaqueira é muito conhecida na região por participar de cavalgadas e derrubar bois em vaquejadas, mas Erlane, sua filha primogênita, só iria conhecê-la naquele dia. Ela já estava com 27 anos de idade. Agora tem 28. 

A história que vamos contar aqui é a de muitas brasileiras: Erlane nasceu no Nordeste, mas, ainda menina, mudou-se para outro estado (no caso, Goiás), com o pai. Da mãe — que ela só conheceu adulta, como mostraremos ao longo desta reportagem —, ela mal sabia o nome. Não por desejo da progenitora, mas por conta do pai e do avô, que tentaram esconder da vizinhança que Maria, então com 14 anos, tinha engravidado tão nova. 

Acontece que, até serem resolvidas, muitas histórias gostam de se repetir. E, tal como a mãe, Erlane engravidou na adolescência. Começava ali a saga como chefe de família e responsável pelo sustento de si mesma e dos filhos.

Quatro meninos não é fácil”, mensura, com toda a razão. Com o início da pandemia do novo coronavírus, as coisas, que já eram difíceis, ficaram ainda piores. 

Foi nesse momento delicado que chegou o Agro Fraterno — programa nacional de arrecadação e distribuição de alimentos idealizado pelo Governo Federal e abraçado pela Organização das Cooperativas Brasileiras (OCB), pela Confederação Nacional da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), pelo Instituto Pensar Agro (IPA) e por outras entidades do setor. Foi graças a ele que Erlane conseguiu manter a comida na mesa de sua família.

“A cesta de alimentos do Agro Fraterno foi muito bem-vinda.  Como não tenho salário fixo, ela me ajuda até eu receber uma quantia boa para sustentar a casa, comprar remédios e cuidar dos meus meninos”, alegra-se. “Eu quebrei esse ciclo da minha família de filhos criados longe da mãe. Tudo que eu faço é por eles. Toda a luta é por eles.”

A FOME NÃO ESPERA

Lançado no mês de  maio,  o Agro Fraterno é um projeto contínuo de combate à fome em todo o Brasil. Seu objetivo é levar alimento às famílias carentes afetadas pela pandemia da Covid-19, por meio da doação de produtores rurais, empresas e cooperativas do Ramo Agropecuário. A meta das entidades envolvidas é ultrapassar 1 milhão de cestas distribuídas até o fim do ano. O material arrecadado é distribuído de acordo com a demanda de cada município. 

“Cada um colaborando, vamos diminuir o sofrimento dessas pessoas que passam fome em um país tão rico como o nosso, que é o celeiro do mundo. É o campo gerando emprego e renda, mas também ajudando a população das cidades neste momento tão difícil por que passa todo o nosso país”, declarou a ministra da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, Teresa Cristina, na cerimônia de lançamento do programa. 

Não há uma data-limite para cooperativas, instituições, empresas e agentes que queiram realizar suas doações. Para participar, basta procurar a secretaria de assistência social do seu município.

“A gente sabe que a fome é urgente, e não existe uma data a curto prazo para esse problema acabar. Nós estamos vivendo um momento de crise sanitária e econômica; então, o desemprego está aí. Por isso não colocamos um prazo final na campanha”, explica Tânia Zanella, gerente-geral da Organização das Cooperativas Brasileiras (OCB). 

COOPERAR MUDA VIDAS

O cooperativismo ajudou a melhorar a vida de Erlane muito antes do Programa Agro Fraterno. Durante algum tempo, ela trabalhou cuidando da casa e da filha de Alessandra Alves, presidente da Cooperativa de Trabalho Especial Liberdade Para Sonhar (CTELS), porém depois de se casar e ter filhos, teve de largar o emprego para cuidar da prole. 

Enquanto trabalhou com Alessandra, Erlane aprendeu um pouco sobre cooperativismo. A ex-patroa — e hoje amiga de Erlane — começou a trabalhar aos 16 anos de idade, com reciclagem, no Lixão da Estrutural, uma região administrativa do Distrito Federal. Depois de sete anos na linha de produção, começou a fazer cursos e se capacitar; logo se tornou presidente da cooperativa em que trabalhava, cargo que ocupou por seis anos. Depois, cumpriu mais quatro anos de mandato como presidente da Renove, e um na Central das Cooperativas de Trabalho de Materiais Recicláveis do DF (Centcoop). 

Disposta a fazer ainda mais, resolveu abrir a própria cooperativa: a CTELS, que trabalha com reciclagem e opera em um complexo na Estrutural com outras cooperativas que fazem parte da Centcoop, sediada ao lado da Estrutural. 

Erlane acompanhava toda essa movimentação a distância e, após se separar do marido, decidiu pedir emprego à amiga. “Alessandra, você ainda está mexendo com materiais?”, perguntou. A resposta era sim, e a vaga de Erlane estava garantida. Não como empregada, mas como cooperada. 

“A gente começou em um galpão, eu e mais quatro meninas. Um galpão e um caminhão, catando e separando material. E eu fui só aprendendo sobre o tipo de material e como trabalhar direitinho.” 

Hoje, a CTELS tem 30 cooperados: 20 mulheres, que trabalham nas esteiras selecionando os materiais, e 10 homens, encarregados de carregá-los para os caminhões. No entanto, as mulheres não se fazem de rogadas quando precisam, eventualmente, carregar os pesados sacos de materiais reciclados. “Nós somos um grupo muito unido. Minhas colegas, como eu, são todas guerreiras e mães de família’, explica Alessandra. 

Durante a pandemia, os rendimentos dos cooperados da CTELS caíram muito e a cesta de alimentos do Programa Agro Fraterno foi crucial para garantir a segurança alimentar do grupo de cooperados. 

Erlane, por exemplo, recebeu alimentos doados por outras cooperativas vinculadas à Organização das Cooperativas do Distrito Federal (OCDF). Nesta unidade da Federação, quem está à frente das ações do Agro Fraterno é Alessandra, gerente administrativa da OCDF e integrante do conselho administrativo dessa unidade estadual. Por lá, foram arrecadadas 278 cestas básicas, que beneficiaram igual número de famílias. 

De acordo com Tânia Zanella, gerente-geral da OCB, a estratégia de organizar as doações por meio das cooperativas, nos diferentes estados, ajuda a fazer esses alimentos chegarem a quem mais precisa. Afinal, as cooperativas conhecem de perto a realidade das comunidades onde estão situadas. 

Nós sabíamos que, já em 2020, as cooperativas brasileiras estavam mobilizadas em torno da questão da doação — em especial, a de alimentos. Foi natural percebemos que o cooperativismo poderia protagonizar uma grande doação de alimentos em 2021, capaz de beneficiar os milhares de brasileiros que perderam emprego e renda durante a pandemia da Covid-19”, conta a gestora.  

SORORIDADE 

Como a cooperativa de Alessandra e Erlane ainda é nova e pequena, ela não recebe tanto material para reciclar. Por conta da pandemia, o trabalho ficou ainda mais escasso e os cooperados trabalham apenas algumas vezes por semana,  recebendo uma renda média de R$ 600 por mês. 

Apesar dos rendimentos ainda baixos, ambas gostam do trabalho. “Eu gosto do que eu faço, não vou mentir, não. Tem gente que acha que é mexer com lixo, mas não é. Além de fazer a coleta seletiva, nós batemos de porta em porta, falamos sobre a importância da reciclagem. Atualmente, é enterrado muito resíduo; então, a sociedade também ganha muito com o nosso trabalho”, conclui Alessandra.  

Para completar a renda da família, Erlane precisa recorrer a outros expedientes. Uma das fontes que auxiliam bastante é o Bolsa Família, programa de distribuição de renda do governo pelo qual ela recebe pouco mais de R$ 400. 

Além disso, todo domingo, ela acorda às cinco da manhã para montar um bazar na Feira da Estrutural. Lá, vende objetos ainda em bom estado que encontra na coleta de materiais, ou que foram doados pelas amigas. São caixinhas de óculos, capinhas de celular, sapatos, bolsas, todo tipo de coisa. Os produtos saem rápido, mas mais rápido ainda saem as mudinhas de plantas — principalmente suculentas, que ela mesma produz em casa, a partir de uma matriz. Alguns feirantes compram essas mudinhas aos lotes para revender ali na feira mesmo. Ela tem o maior amor por essas plantinhas. Com o dinheiro que ganha na feira, já compra ali arroz, feijão e uma verdura. E ainda consegue guardar um pouquinho para comprar os óculos do filho Davi e ajudar na construção da casa. Ela e os filhos moram em um barraco de madeira com um cômodo e um banheiro, do qual ela se orgulha. 

“Hoje eu sinto que eu estou na glória, porque eu estou no que é meu, juntando cada centavo para construir uma casa melhor pra meus filhos. Eu agradeço a Deus todos os dias pelo meu cantinho”, afirma. 

Apesar de só ter podido estudar até a 8ª série, Erlane valoriza muito os estudos. Quando as crianças começaram a precisar dela para estudar, a jovem decidiu se matricular novamente na escola. “Eu ainda tenho a chance”, pensou. “Tenho amigas mais velhas que são exemplo para mim, que estão na faculdade. Então, eu pensei: Por que eu não posso também?”. E voltou a correr atrás. Recentemente, ela se inscreveu no Exame Nacional para Certificação de Competências de Jovens e Adultos (Encceja), para concluir o ensino médio e tentar fazer o ensino superior no futuro. Prestará a prova agora em agosto, e estuda sempre que tem um tempinho, além de acompanhar o noticiário. 

REENCONTRO

Entre julho e agosto de 2020, o pai de Erlane foi visitá-la e lhe trouxe um grande presente: o número de telefone da mãe que ela não conheceu. “Ele tinha muita mágoa dela, mas, depois, passou”, Erlane explica. 

De posse daquele número, ela respirou fundo, tomou coragem e ligou. “Ela me disse que não queria ter me deixado, que foi tudo uma enrolação do pai dela com o meu pai. Desde que vim morar aqui, eu fiquei isolada dela. Só me diziam que eu não tinha mãe. Quando conversei com ela, ela chorou, se emocionou”, recorda.

Mesmo sem condições, Erlane juntou o dinheiro do Bolsa Família, pediu ajuda ao pai dos meninos e foi para o Piauí passar dois dias com a mãe. 

Onde mora a Maria Vaqueira?”, perguntava ela pelas ruas do Assentamento Esperança, em Curimatá, no dia em que chegou, e facilmente localizou a moradia. Quando andavam pelas ruas, Maria Vaqueira era reconhecida e cumprimentada por todos. 

Erlane descobriu que tinha vários irmãos que vieram depois dela, e eles fizeram questão de conhecê-la. Descobriu também que dois desses irmãos moravam em Taguatinga, outra região administrativa do Distrito Federal — portanto, muito próximos dela. Agora eles mantêm contato e se visitam de vez em quando. 

Mas, acima de tudo, Erlane descobriu, além da impressionante semelhança física com a mãe, que havia herdado dela a coragem e a disposição de lutar para melhorar de vida. “Minha mãe me contou histórias do que ela passou pra ter um pedaço de chão dela,  que é só um assentamento, mas é dela. Até chegar onde ela está hoje, foi todo esse sofrimento. E eu também, desde pequena, na luta. Eu me reconheço na luta dela, em ser batalhadora.” 



Esta matéria foi escrita por Devana Babu e está publicada na Edição 34 da revista Saber Cooperar. Baixe aqui a íntegra da publicação


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