Vai um cafezinho aí?

Em tempos de isolamento social, consumo de café aumenta, comprovando: mais do que um produto, ele é uma ótima companhia

Farol Conteúdo
21/06/2021

O cafezinho é um amigo íntimo do brasileiro. Afinal, o país é o maior produtor, o maior exportador e o segundo maior consumidor de café do mundo — posto em que se alterna em dobradinha com os Estados Unidos. Durante a pandemia, não foi diferente. O setor driblou a crise, com o consumo interno registrando crescimento de 1,34% em 2020, na comparação com 2019, segundo dados divulgados pela Associação Brasileira da Indústria de Café (Abic). Ainda segundo a Abic, vem crescendo a busca por qualidade e segurança, o que leva empresas e cooperativas a investirem em certificações.

Os números coletados pela entidade indicam que, entre 2019 e 2020, houve um aumento de 18,11% no número de certificações de qualidade. Para se ter ideia, nos últimos cinco anos, a emissão de certificado de produtos de alta qualidade (cafés gourmet) cresceu 85%. Já o café torrado em grão, aquele das máquinas de espresso, representava 3,7% do faturamento do setor no ano 2000 e atualmente responde por 15%.

Ao longo dos anos, o consumo de café no Brasil sempre cresceu acima do consumo mundial. Enquanto no mundo crescia na faixa de 1,5%, no Brasil crescia 3,5%. Eu costumo dizer que o café passa bem pelas crises, é um companheiro, uma bebida que está em 98% dos lares. Então, registrou esse crescimento de 1,34%, que é significativo no momento”, comenta Mônica Pinto, coordenadora de Projetos da Abic.

Dentro do cooperativismo, o café também ocupa um papel de destaque. Dados do Censo Agropecuário de 2017, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, indicam que 54,8% do café produzido no país é proveniente de produtores rurais associados a cooperativas. Hoje, existem 104 cooperativas que trabalham com o café no Brasil, não necessariamente como único ou principal produto.

Segundo João Prieto, coordenador do Ramo Agropecuário da Organização das Cooperativas Brasileiras (OCB), o modelo cooperativista é um dos pilares para que a cafeicultura brasileira tenha conseguido atingir os patamares de produção e comercialização que temos hoje.

Além de toda a estrutura de apoio à atividade do produtor associado, desde o fornecimento de insumos até a recepção e comercialização da produção, um dos grandes diferenciais das cooperativas está na prestação de um serviço de assistência técnica altamente qualificado, fazendo toda a diferença para o desenvolvimento de uma cafeicultura de ponta”, afirma.

De fato, cada vez mais cooperativas têm investido na diversificação e qualificação de sua produção para atender diferentes nichos de demanda, a exemplo dos cafés especiais. “Por sua diversidade e capilaridade, as cooperativas cafeeiras conseguem atender com excelência tanto o mercado interno quanto o externo”, comenta Prieto.

Para os produtores interessados em fazer parte desse seleto mercado, João Prieto recomenda que avaliem muito bem questões como clima e investimento. “A primeira avaliação que qualquer produtor deve fazer antes de ingressar na atividade é em relação à aptidão, ligada tanto à afinidade do agricultor com a cultura como às exigências edafoclimáticas da planta vinculadas às regiões de produção. O café é uma cultura perene; sendo assim, após a implantação inicial da lavoura, ainda serão necessários investimentos nos primeiros anos sem que exista um retorno, até as primeiras colheitas.”

PRODUTO FORTE

Há mais de 30 anos no mercado de café industrializado, a Cooperativa Regional de Cafeicultores em Guaxupé, no Sul de Minas Gerais, sempre foi uma grande exportadora. A partir de 2011, começou a investir mais fortemente no mercado nacional e na certificação de seus produtos. Hoje, tem marcas próprias de café em todas as categorias, do tradicional ao café em grãos e especial.

Culturalmente, o brasileiro toma muito café. É um produto forte, promissor e nós, cooperativistas, somos uma referência no assunto”, comenta o superintendente de Torrefação e Novos Negócios da Cooxupé, Mário Panhotta, um apaixonado pelo produto.

Com a chegada da pandemia, ele conta que houve a reversão da tendência, verificada há alguns anos, de aumento de consumo do café fora de casa.

“Antes da Covid-19, os cafés [estabelecimentos comerciais] estavam em alta, mas, com o isolamento social, eles perderam espaço e houve uma migração desse consumo de cafés especiais para dentro dos lares, especialmente por meio dos e-commerces“, explica. De fato, no primeiro trimestre de 2021, os cafés em cápsula da Nestlé cresceram 17% nos Estados Unidos. Foi o melhor resultado dos últimos dez anos. No Brasil, o crescimento também foi de dois dígitos, mas a companhia não abriu os resultados no país.

Atenta ao crescimento do mercado de cafés especiais, a Cooxupé — assim como outras cooperativas — está apostando no segmento. Atualmente, ela comercializa três marcas: Evolutto, Prima Qualitá e Terraza. O Evolutto é o café torrado e moído tradicional, vendido em supermercados; o Terraza é um café em grãos, e o Prima Qualitá enquadra-se na categoria especial. Além disso, todos os produtos da cooperativa têm o selo de pureza da Abic e certificação internacional de segurança FSSC 22000, que atesta o monitoramento de riscos físicos, químicos e biológicos durante a produção.

SENHOR CAFÉ

Outra cooperativa que está apostando em cafés diferenciados é a Cooperativa de Cafeicultores e Pecuaristas (Cocapec). É dela a marca Senhor Café, que nasceu em 1989 — praticamente junto com a cooperativa — e, no início, era comercializada apenas regionalmente. O sabor marcante e a qualidade do produto levaram outras praças a buscar pelo produto, que hoje é comercializado também em Porto Alegre, Blumenau, Curitiba, Belo Horizonte e Brasília.

Com o Senhor Café, ficamos entre os 10 melhores cafés de São Paulo na categoria ‘Café Gourmet’ três vezes entre 2000 e 2015”, relata o gerente de Torrefação da cooperativa, Victor Alexandre Ferreira. Ele explica que a cooperativa tem duas outras marcas: o café Cocapec, vendido principalmente aos cooperados; e o café Tulha Velha, com grãos torrados e moídos, vendido nos supermercados da região.

Ainda de acordo com Victor, o que torna um café especial é a qualidade do grão. “Quando o produtor produz o café, há grãos que ficam maiores, que a gente chama de mais granados. Eles absorveram da árvore o máximo possível, têm todas as qualidades possíveis. A gente faz uma usinagem em parte da sacaria trazida para a cooperativa e os grãos mais granados vão para a linha Senhor Café. Além da seleção de grãos, precisamos conseguir trabalhar e manipular esse café para não estragar no momento da torra, a fim de que consiga manter essas características”, esclarece.

A Cocapec também viu seu faturamento aumentar em 2020, por conta da pandemia. As vendas on-line dos produtos gourmet da cooperativa tiveram incremento de 50% com relação ao volume registrado em 2019. “Vendemos todos os tipos: almofada, cápsula, capuccino. Hoje temos cápsulas compatíveis com a [máquina] Nespresso. O volume de venda é menor, mas a agregação [de valor] é bem grande”, conclui Victor.

OUTRO SABOR

Não falta diversidade aos cafés produzidos pelo cooperativismo. No noroeste do Espírito Santo, por exemplo, a Cooperativa Agrária dos Cafeicultores de São Gabriel da Palha (Cooabriel), trabalha com o café conilon, uma variedade menos doce e mais marcante do que o arábica, que é um café suave.

“O clima capixaba não é propício para o café arábica. Como nosso estado é muito quente, o conilon se adapta melhor”, explica Luiz Carlos Bastianello, presidente da cooperativa. Hoje, a Cooabriel trabalha com três produtos: o café torrado e moído; o café torrado em grãos da marca Guardião, e o café in natura, para os mercados interno e externo.

De acordo com Bastianello, o lançamento do Guardião aconteceu há pouco tempo, em 2019, quando a assembleia geral da cooperativa decidiu que valia a pena investir no mercado de industrializados. Mesmo jovem, ele já é um café de 75 pontos na escala da Specialty Coffee America Association (SCAA). A partir de 80 pontos, o produto entra para o seleto time dos cafés especiais.

Nós não fazemos o e-commerce do produto ainda. Mas, desde que começou a pandemia, percebemos que houve um aumento do consumo do café. Agora as coisas se normalizaram”, destaca Bastianello, questionado sobre o impacto da pandemia sobre as vendas de café.

Para ele, as cooperativas têm potencial para crescer em um mercado competitivo como o do café, desde que continuem fiéis aos princípios do cooperativismo. “Eu bato muito na tecla que trabalhar sozinho em um negócio desse vulto não é fácil. Se as cooperativas têm uma força grande, por que não formar juntas uma indústria que poderia competir com as multinacionais ao redor? É isso que a gente prega no princípio cooperativista: que juntos somos mais fortes”, conclui.

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NÚMEROS

Consumo de café no Brasil, em 2020

Maior mercado mundial em volume total de café como bebida quente (com ícone)

2o maior consumidor do mundo (com ícone)

4,79kg Consumo médio de café torrado per capita dos brasileiros (com ícone)

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Você sabia?

Apesar de seu sabor marcante, o café conilon não é o mais consumido do Brasil. Aqui, os grãos do tipo arábica — mais doces e aromatizados — costumam ser mais apreciados. Entenda a diferença dos grãos:

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Esta matéria foi escrita por Mariana Branco e está publicada na Edição 33 da revista Saber Cooperar. Baixe aqui a íntegra da publicação


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