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Famosos descobrem moda sustentável feita por cooperativas

O que os cantores João Gomes, Cláudia Leitte e Elba Ramalho têm em comum com a ginasta Rebeca Andrade e as atrizes Bruna Marquezine e Giovanna Lancelotti? Todos eles escolheram looks criados por uma mesma cooperativa em momentos especiais das suas carreiras. Uma forma de atrelar a própria imagem a uma moda autêntica, fashion e sustentável.  

coop bordado3 07b6dA Cooperativa das Mãos Artesanais de Timbaúba dos Batistas (Comart), no Rio Grande do Norte, foi a responsável pelo visual estiloso desses e de outros famosos em diversas ocasiões. As roupas usadas pela primeira-dama Janja Lula da Silva, na posse presidencial e em seu casamento, foram bordadas pelas costureiras da Comart em 2023. Isis Valverde, Leticia Sabatella e Sasha Meneghel também são personalidades que optaram por brilhar nos eventos vestindo roupas confeccionadas pela coop (clique nos links para ver os looks usados por elas).

Fundada há 22 anos, a coop originalmente trabalhava com produção de peças para cama, mesa e banho. Mas a qualidade dos pontos e desenhos era tanta, que começou a chamar a atenção de profissionais da moda. 

“A estilista Helô Rocha trabalhava com um pequeno grupo de bordadeiras da nossa cooperativa há mais de 8 anos”, recorda Jailma Araújo, presidente da Comart. “Em parceria com ela, vestimos várias celebridades e participamos de alguns desfiles de moda, mas a mídia não divulgava de onde vinham os bordados e nem quem os produzia. Foi a partir do vestido de casamento de Janja que as pessoas começaram a conhecer um pouco da nossa história,” 

Hoje, os cerca de 50 cooperados da Comart viraram referência no mercado fashionista, especialmente na confecção de bordados para vestidos de noiva e figurinos para shows. Eles colecionam desfiles e foram destaque em eventos importantes como o São Paulo Fashion Week e os Jogos Olímpicos de Paris, em 2024

Sigilo absoluto  

De acordo com a presidente da Comart, o processo de produção de roupas para famosos começa com o recebimento de informações de referências sobre os elementos e imagens que serão retratadas em cada peça. Um detalhe curioso:  elas não ficam sabendo o nome da pessoa que encomendou — isso garante que todos os bordados sejam produzidos com a mesma qualidade para cada cliente. As encomendas chegam por meio de Helô Rocha e o trabalho é feito em parceria com ateliês de moda de todo o Brasil. A cooperativa fica encarregada dos bordados que vão na peça. 

coop bordado 3431d“A roupa do cantor João Gomes foi feita assim”, conta Jailma. “Montamos tudo  com recortes de amostras dos testes. Peças que seriam descartadas foram reaproveitadas para montar a vestimenta, que tem pedaços de calça, colete, almofadas e vestidos. Os bordados foram feitos por nós, mas não exatamente a roupa. Nós só ficamos sabendo que era para ele quando saiu na mídia.”

Além de estilosos, os bordados produzidos pela cooperativa são sustentáveis. Os cooperados não utilizam nenhum processo químico e quase todos os resíduos são reaproveitados. Além disso, tudo é feito à mão ou em máquinas de costura doméstica, daquelas que funcionam com pedal, sem uso de energia elétrica. 

Consumo com propósito

As cooperativas de moda são uma ótima opção de consumo para quem valoriza instituições que priorizam um trabalho justo e bem remunerado. Afinal, elas empregam a mão de obra local, resgatam saberes tradicionais e valorizam a cultura regional, dando autonomia financeira e trabalho digno para seus cooperados.

Com uma pegada social consolidada e compromisso com a sustentabilidade, elas também agradam consumidores mais exigentes, que desejam conhecer o impacto ambiental gerado pela produção de roupas. 

“Ao contrário da fast fashion (produção de roupas de forma rápida, barata e em grande escala), a moda cooperativa é muito mais humana e sustentável”, avalia a consultora de moda e fundadora do primeiro espaço de troca de roupas em Belo Horizonte, Maiana Cavalcanti. “A gente percebe que, em cada peça, existe um cuidado real com o processo, com os materiais e com o impacto que tudo isso gera, tanto no meio ambiente quanto na vida das pessoas envolvidas”.

As coops de moda também trilham um caminho mais sustentável, colocando em prática a responsabilidade ambiental em todas as fases de produção. Muitas delas utilizam materiais reciclados, tecidos ecológicos e tingimento natural, fatores que auxiliam na preservação do planeta para as futuras gerações. Com foco na moda sustentável, elas são alternativas para frear o impacto ambiental significativo deixado pela produção de roupas mundo afora.

“Quando a gente fala de moda sustentável, gosto de lembrar de um dado que sempre me marcou: para produzir uma única calça jeans, podem ser usados até 10 mil litros de água. Isso é o que uma pessoa beberia em mais de 10 anos. E tudo isso para uma peça que, muitas vezes, é usada poucas vezes e logo descartada. Moda sustentável é sobre repensar esse ciclo, entender o valor real de cada roupa, respeitar os recursos naturais e escolher com mais consciência. Cada decisão que a gente toma pode fazer a diferença”, acrescentou.

Somente no Brasil, são mais de 4 milhões de toneladas de resíduos têxteis descartados por ano, de acordo com dados da Associação Brasileira de Empresas de Limpeza Pública e Resíduos Especiais. Estamos falando de uma indústria que demanda uma alta quantidade de recursos hídricos, muitas vezes explora mão de obra barata e utiliza produtos de origem animal, mas ao mesmo tempo tem uma grande influência na economia, pois apenas no Brasil faturou R$203,9 bilhões em 2024.

“Moda alinhada à preservação do meio ambiente é sobre deixar um legado positivo para quem vem depois. Não se trata só de criar peças bonitas, mas de garantir que haja água limpa, solo fértil, biodiversidade e um planeta saudável”, finalizou Maiana Cavalcanti.

Conheça, a seguir, outras cooperativas que trabalham com moda no Brasil: 

Nome: Cooperárvore
Estado: Minas Gerais
Produtos: Bolsas sustentáveis

Na cidade mineira de Betim, mulheres se uniram para costurar o futuro. Colocando em prática princípios como sustentabilidade e empreendedorismo coletivo, a Cooperárvore comercializa produtos como bolsas, malas, mochilas e acessórios, tudo feito com muito talento e carinho por mãos femininas habilidosas.

As peças são duráveis, estilosas e com menor impacto ambiental, mostrando que propósito e beleza podem sim andar juntos. No processo de produção das peças, as cooperadas reaproveitam resíduos automotivos e outros materiais resistentes, estimulando o consumo consciente na sua clientela. A Cooperárvore mostra que comprar produtos sustentáveis é bom para o bolso e para o meio ambiente, além de fortalecer o movimento cooperativista.

 

Nome: Arteza
Estado: Paraíba
Produtos: peças de couro

No nordeste brasileiro, a Cooperativa Arteza de Artesãos e Curtidores de Couro (Arteza) movimenta o artesanato local da Paraíba há mais de 20 anos, na zona rural da cidade de Cabaceiras, comercializando acessórios feitos de forma artesanal e com couro legítimo natural. O couro é um dos grandes destaques da região e propicia a produção de mochilas artesanais, sandálias, cintos, bolsas e chapéus pelos 20 associados da cooperativa.

As peças carregam um simbolismo cultural e retratam valores do Nordeste, portanto envolvem a comunidade local, movimentam a economia e simbolizam costumes da região passados de geração em geração. A arte feita em couro já ganhou loja física e também pode ser adquirida via site oficial.

 

Nome: Bordana
Estado: Goiás
Produtos: bordados

Mulheres bordadeiras transformam o artesanato em arte no cerrado brasileiro desde 2008, na Cooperativa de Trabalho de Produção de Bordado Manual e Artesanato do Cerrado Goiano (Bordana). Bordando e costurando almofadas, colchas, camisetas, quadros e acessórios, as cooperadas usam como pano de fundo para as suas criações o bioma cerrado e as paisagens do Centro Oeste.

Retratando fragmentos da natureza no seu trabalho manual, a Bordana estampa fauna, flora, água, flores e outros elementos verdes presentes na região. Pertencentes a diversas faixas etárias, as mulheres artesãs compõem a equipe da cooperativa produzindo peças exclusivas e construídas com muito cuidado em cada detalhe. O trabalho gera emancipação feminina, renda e união entre as cooperadas.

 

Nome: Costafe
Estado: Pará
Produtos: moda sustentável

Já no Pará, detentas e egressas do sistema prisional criaram uma cooperativa de artesanato e moda sustentável. A Cooperativa Social de Trabalho Arte Feminina Empreendedora (Coostafe) foi fundada dentro do Centro de Reabilitação Feminino de Ananindeua em 2008 e é uma fonte de esperança para a vida pós-cárcere, preparando mulheres para trabalhar com um novo ofício por meio também da aprendizagem de noções básicas de contabilidade para o gerenciamento do negócio.

As roupas, ecobags, bolsas, almofadas e necessaires são vendidas em praça pública pelas associadas detentas e o lucro é distribuído entre todas ao final do processo. Com um forte trabalho social de resgate da autoestima, reinserção profissional e senso de comunidade, as cooperadas encontram na Coostafe acolhimento e vislumbram novas formas de reintegração na sociedade para o futuro.

Moda cooperativa no exterior

Na Índia, a cooperativa Looms of Ladakh reúne mais de 600 mulheres artesãs que produzem peças que preservam a tradição de tecelagem da região do Ladakh, como pashminas, xales e estolas, tudo feito de forma manual e com diferentes tipos de lã. Aliando tradição, modernidade e sustentabilidade, a coop empodera artesãs de áreas rurais, garantindo uma participação direta e justa nos rendimentos obtidos a partir da venda dos produtos. Conheça a coop.

Em 2016, foi criada na Ucrânia a cooperativa de costura ReSew, que atua no reparo e reciclagem de roupas e tecidos, além de promover um estilo de vida ecologicamente correto. A coop é bastante ativa nas comunidades queer e trans, criando roupas confortáveis e acessíveis para esse grupo. Ela se posiciona em relação à fast fashion, superprodução e poluição da indústria global de vestuários, além de utilizar resíduos ou materiais descartáveis em suas peças que carregam ideias ecológicas de produção.

 

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