Notícias

Mulheres cooperativistas mostram força feminina no agronegócio

Mais de 1,5 bilhão de mulheres em todo o mundo trabalham em sistemas agroalimentares, fazendo do setor uma das maiores fontes de emprego para a população feminina global, segundo dados da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura (FAO). Para reconhecer a contribuição delas para a produção agrícola, segurança alimentar e a conservação da biodiversidade, a ONU declarou 2026 como Ano Internacional da Mulher Agricultora

Apesar da presença expressiva, as mulheres enfrentam desigualdades estruturais no campo, com renda inferior a dos homens, menor acesso à terra, crédito e assistência técnica, além de condições de trabalho mais precárias. Ao colocar o tema na agenda global, a ONU pretende apoiar políticas públicas que transformem esse cenário, e o cooperativismo está entre as ferramentas para promover oportunidades, autonomia e o desenvolvimento das mulheres rurais. 

“Ao se organizarem de forma democrática, as agricultoras podem fortalecer sua capacidade de defender direitos, acessar políticas públicas, ampliar mercados e construir soluções coletivas que dificilmente seriam alcançadas individualmente. As organizações cooperativistas e associativistas também promovem solidariedade, liderança feminina e maior representatividade junto às esferas governamentais”, afirma o representante da FAO no Brasil, Jorge Meza.

Segundo ele, garantir condições mais justas para as mulheres no meio rural é uma estratégia para criar um ambiente mais resiliente, inovador e capaz de responder aos desafios climáticos, econômicos e sociais que impactam o campo. “Fortalecer as mulheres agricultoras é essencial para erradicar a fome, reduzir desigualdades e acelerar o desenvolvimento sustentável”, destaca. 

Mulheres no coop agro 

No cooperativismo brasileiro, as mulheres representam 19% dos cooperados do ramo agropecuário.  São mais de 207 milhões trabalhando na produção de alimentos, na agroindústria, na gestão das propriedades e na organização da comercialização, contribuindo diretamente para o fortalecimento das cadeias produtivas e para a geração de renda no campo.

Além das atividades produtivas, as mulheres cooperativistas também vêm ampliando sua participação em espaços de liderança. Segundo dados do Anuário do Cooperativismo Brasileiro 2025, de cada dez dirigentes de cooperativas agropecuárias, dois são mulheres. Elas estão nas diretorias, conselhos e comitês, abrindo portas para fortalecer a presença feminina em um setor historicamente masculino.

débora noordegraaf 26ef1Débora Noordegraaf,  cooperada da CastrolandaUma delas é a paranaense Débora Noordegraaf, cooperada da Castrolanda e eleita uma das 100 Mulheres Poderosas do Agro pela revista Forbes. O reconhecimento veio por seu trabalho à frente da Comissão Mulher Cooperativista da Castrolanda, que liderou por dois mandatos.

Um dos mais antigos grupos de representação feminina no cooperativismo rural, a comissão foi criada em 2009 para promover o protagonismo das mulheres da Castrolanda por meio de encontros, treinamentos e capacitações em temas ligados ao agronegócio. 

“Idealizamos todos estes processos e capacitações pensando nas mulheres produtoras. Para garantir a elas um futuro brilhante e construir para as novas gerações a possibilidade de serem líderes com excelência em suas propriedades”, lembra. 

A comissão também alavancou a visibilidade feminina dentro da Castrolanda. Hoje, todos os comitês setoriais da cooperativa têm mulheres atuantes e com voz ativa em decisões como a definição do planejamento estratégico. “Para mim, é gratificante saber que hoje estas mulheres se destacam porque lá atrás um pequeno grupo plantou a primeira sementinha, pensando nas cooperativistas e produtoras rurais e no seu protagonismo dentro de suas propriedades e na cooperativa”.

Com uma trajetória de três décadas no agronegócio, Débora afirma que as mulheres líderes no setor agregam visão estratégica e sensibilidade na gestão, mas ainda precisam de mais espaço e voz para participar de forma mais efetiva das decisões no setor. Segundo ela, o Ano Internacional da Mulher Agricultora é uma oportunidade para transformar essa realidade. 

“Nos destacamos na economia do Brasil, somos formadoras de opinião e líderes em dedicação ao nosso país. No movimento cooperativista, estamos crescendo da mesma forma e observo a cada dia mais mulheres apaixonadas e dedicadas ao agro. Por isso, digo a cada uma: 'acredite no seu potencial e em sua capacidade de liderar, pois somos mulheres fortes e fazemos um trabalho de excelência'”. 

Café feminino em destaque 

Em Minas Gerais, outro exemplo mostra o papel das cooperativas para a inclusão produtiva,  capacitação e valorização das mulheres no meio rural, impulsionando não apenas resultados econômicos, mas também transformações sociais.

Lá, a força das agricultoras da Cooperativa dos Agricultores Familiares de Poço Fundo (Coopfam) ganhou nome e marca: Café Feminino. Produzido desde 2013, o grão especial nasceu da decisão de colocar as cooperadas no centro do negócio – e se transformou em um produto de excelência, reconhecido no Brasil e no exterior. 

A história começou há duas décadas, com a criação do grupo Mulheres Organizadas Buscando Igualdade (MOBI), inspirado pela história da agricultora Maria José Borges. Ela se tornou a primeira cooperada da Coopfam ao assumir a gestão do sítio da família após a morte inesperada do marido.

coopfam 37a29Mulheres Organizadas Buscando Igualdade (MOBI)“O exemplo da dona Maria José inspirou outras mulheres agricultoras, que viram nela um símbolo de coragem e protagonismo. O MOBI hoje funciona como um espaço de fortalecimento coletivo, formação, empoderamento e construção de igualdade dentro do cooperativismo. A trajetória do grupo demonstra que, quando uma mulher conquista seu espaço, muitas outras encontram caminhos para caminhar juntas”, afirma Renata Tavares, assistente de projetos no departamento de Sustentabilidade da Coopfam.

Hoje, a cooperativa mineira tem 97 cooperadas e um orçamento permanente para investimentos em capacitações para mulheres. As ações desenvolvidas incluem cursos de formação, dias de campo, atividades técnicas relacionadas à unidade produtiva, além de iniciativas de geração de renda, como a produção de artesanato e alimentos processados. 

No centro de tudo isso, está o Café Feminino, que já teve 14 mil sacas produzidas. O produto já foi servido na Copa do Mundo de 2014 no Brasil, nas Olimpíadas do Rio, em 2016 e, mais recentemente, na Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (COP30). 

“Esse é um produto estratégico da cooperativa, que fortalece o protagonismo, a autoestima e a autonomia das cooperadas, ao valorizar um café produzido por mulheres e reconhecer, de forma concreta, seu papel essencial na cadeia produtiva, na sustentabilidade das propriedades e no cooperativismo”, resume a gestora.

Segundo Renata, quando as mulheres têm acesso à formação, participação e reconhecimento, a cooperativa se fortalece e os impactos positivos se estendem para os territórios rurais e toda a cadeia produtiva do café. 

“Investir nas mulheres é investir na transformação da sociedade, fortalecendo uma estrutura mais justa, na qual o trabalho delas conquista reconhecimento e protagonismo. Nesse contexto, a declaração do Ano Internacional da Mulher Agricultora pela ONU representa um avanço simbólico e político importante, que traz visibilidade mundial não apenas para o trabalho realizado no meio rural, mas também em outros nichos onde as mulheres atuam, promovendo dignidade, autonomia e justiça social”.

Liderança em destaque  

Reconhecida por sua atuação em prol do desenvolvimento das cooperativas, incluindo as agropecuárias, e do fortalecimento de lideranças femininas no setor, a presidente executiva do Sistema OCB, Tania Zanella, entrou para a lista das 16 mulheres mais poderosas do Brasil, da revista Forbes. 

A publicação reúne lideranças femininas com forte influência em suas áreas de atuação e impacto relevante na economia e na sociedade brasileira. Em 2021, Tania Zanella havia sido reconhecida pela Forbes como uma das “100 Mulheres Mais Poderosas do Agronegócio”. 

Filha de agricultores de Santa Catarina, Tania construiu uma sólida trajetória no cooperativismo e é a primeira mulher a ocupar a presidência executiva da entidade que representa as cooperativas no Brasil. Além da atuação no Sistema OCB, Tania lidera o Instituto Pensar Agropecuária (IPA).

 

Conteúdos Relacionados